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Série espanhola da Netflix vira fenômeno ao ensinar filosofia

'Merlí' parte da figura de um professor para explicar um filósofo ou uma escola em cada episódio

Daniel Augusto*, Especial para o Estado

14 Abril 2018 | 16h00

Merlí é uma série catalã que retrata a chegada de um professor de filosofia no ensino médio público de Barcelona. Cada episódio tem como título um pensador ou corrente filosófica, que possui algumas de suas ideias rapidamente esboçadas em sala de aula no início, com consequências dramáticas para o protagonista, os professores, os alunos e suas famílias. A terceira e última temporada está disponível na Netflix desde fevereiro. 

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Trata-se de uma série incomum, em especial pela maneira como articula pedagogia e dramaturgia, cujo alcance chamou a atenção, por exemplo, de Renato Janine Ribeiro, professor do Departamento de Filosofia na USP e ex-Ministro da Educação. Segundo ele, que criou uma página de Facebook a partir da “figura inspiradora” do professor catalão, tal costura é “primorosa” (o autor já havia estudado, em A Sociedade Contra o Social, como a ficção televisiva pode dar formas aos afetos e se transformar em ação política). De fato, vale a pena se deter sobre essa articulação, que pode colaborar para pensar os papéis da televisão e do ensino da filosofia hoje.

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Se, por um lado, é possível argumentar que a série não traz nada de novo do ponto de vista formal (temos a habitual estrutura oriunda do melodrama, a identificação entre o protagonista e o público, a ancoragem naturalista, a decupagem clássica, a progressão linear, os expedientes de passagem de tempo de telenovela, assim por diante), por outro lado é inegável que sua matéria é atípica na televisão: Platão, Aristóteles, Kant, Freud, Arendt, Debord, Foucault, Butler, entre outros. 

No episódio inspirado em Hegel, por exemplo, temos uma breve apresentação da dialética do senhor e do escravo, que serve como ponto de partida para mergulhar em algumas das relações de poder entre os personagens da série. No capítulo motivado por Kant, temos uma abertura concisa sobre o imperativo categórico, que funciona como disparador para uma reflexão ética dentro do universo dramatúrgico da série. Assim, ainda que os temas de Merlí tenham como limite seu formato de telenovela, não seria desejável inverter os termos e imaginar como seriam as telenovelas se tivessem os temas de Merlí

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Num ensaio produtivo para refletir sobre aspectos da série, incluído no livro As distâncias do cinema, o filósofo Jacques Rancière fala do risco dos filmes que transitam entre a pedagogia e o cinema, isto é, “de não ser nem um nem o outro”. No caso, o autor se refere aos filmes televisivos feitos por Roberto Rossellini sobre Sócrates, Santo Agostinho, Descartes e Pascal. Embora Merlí seja muito diferente do projeto rosselliniano (e, portanto, não se encaixe sem muitas sobras na abordagem de Rancière), retomar algumas de suas passagens pode ser revelador. Por exemplo esta, quando o filósofo comenta, a partir do Banquete de Platão, o episódio sobre Sócrates: “O herói do saber racional provoca sobretudo transes e desvia seus discípulos da condição de homens úteis da cidade (...) Sabe-se o papel que esse retrato do filósofo tem no imaginário dos professores de filosofia. Ele lhes oferece a imagem, e até o método, de uma prática pedagógica cuja essência é a própria impossibilidade da pedagogia”. 

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Não é esse, de certo modo, o imaginário do personagem-título da série catalã: uma prática pedagógica cujo fundamento é a impossibilidade da pedagogia? Ou, mais precisamente, dentro do universo da série, uma busca para desarticular as conexões entre saber e poder, de modo que os alunos possam dar luz a um pensar que já possuem em potência? Embora Merlí não provoque transes em seus alunos, tal como o Sócrates acima descrito, ele faz com que desenvolvam a capacidade de criticar sua condição de homens úteis num contexto em que a cidadania lhes escapa, desviando-lhes da função de peças lubrificadas para o melhor funcionamento do poder e iluminando, neles mesmos, uma arte de buscar a justa vida e o bem-viver.

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Assim, ao se disporem à dúvida, ao verem com estranheza o que lhes parecia natural em si e ao seu redor, os alunos encontram novas maneiras de viver a amizade, a sexualidade, o amor, a escola, a profissão, a família e a cidade. Nesse percurso, aprendem os primeiros passos de como separar o essencial e o habitual, a liberdade e a servidão, o conceito e o preconceito, a felicidade e a propriedade, assim por diante. Como afirmou Kant, “não se pode ensinar filosofia, só se pode ensinar a filosofar”: é o que faz Merlí com seus alunos.

Se tudo isso já sinaliza o papel necessário da filosofia no ensino médio e o quanto há de perpetuação das velhas estruturas de poder ao tirá-la do currículo, também revela como a indústria cultural pode produzir por vezes exceções à sua regra, nas quais a passividade da forma não é obrigatoriamente sinônimo de uma insolvência de suas possibilidades educativas. 

Na parte final da última temporada, por exemplo, surge o tema da morte, que se aproxima dos personagens centrais, carregado tanto de elementos de emoção folhetinesca como de virtualidades que podem ser lidas à luz da filosofia. Nos Ensaios, Montaigne lembra que alguém disse a Sócrates: “os 30 tiranos condenaram-te à morte”. Ele respondeu: “eles já o foram pela natureza”. No Fédon, diz Platão, “quando uma pessoa se dedica à filosofia no sentido correto do termo, os demais ignoram que sua única preocupação consiste em preparar-se para morrer”.

Numa sociedade em que há promessa de felicidade em todo lugar, mas a felicidade parece não estar em lugar algum, a conjunção de pedagogia e dramaturgia pode desbloquear as amarras do poder, dar forma aos afetos e sugerir novos modos de vida. “Quem aprendeu a morrer desaprendeu de servir”, lembra Montaigne. Nesse sentido, aprender a morrer, como sabem os alunos de Merlí, é aprender a viver. Não é pouco.

*Daniel Augusto é diretor de cinema, mestre em literatura brasileira e doutorando em filosofia na USP

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