Nidin Sanches/Nitro/Divulgação
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Serra, Aécio e patriotismo

O cálculo do governador mineiro é simples: em uma eventual derrota, danos enormes; em caso de vitória, pouco a ganhar na Vice-Presidência

Fábio Wanderley Reis*

29 de maio de 2010 | 09h49

As pressões sobre Aécio Neves para que aceite concorrer à Vice-Presidência na chapa "puro sangue" com José Serra assumiram forma patética. Num momento em que a ascensão de Dilma Rousseff e a queda de Serra nas pesquisas resultam em empate entre os dois, a aflição de PSDB e aliados leva empresários a cobrar até "patriotismo" de Aécio.

 

Mas deveria ser fácil ver as coisas do ponto de vista do cálculo pessoal de Aécio ao recusar associar-se em posição subalterna ao esforço eleitoral do PSDB e da oposição em geral. Ponha-se de lado o efeito que a sombra do avô Tancredo Neves possa ter sobre a autoimagem do ex-governador e suas ambições em seguida a dois mandatos bem-sucedidos e diante do amplo apoio em Minas.

 

É claro, de todo modo, que o que lhe é oferecido envolve o risco - tanto mais agora, com o impulso de Dilma - de ter de compartilhar, talvez desproporcionalmente, os danos da eventual derrota eleitoral (ou mesmo, em ótica mais ampla, de um governo comparativamente mal-sucedido em seguida ao do Super-Lula) sem perspectivas de ganho em caso de êxito de Serra e do exercício, por quatro anos, talvez oito, de uma Vice-Presidência por definição desbotada. Sem falar que Aécio se acha agora posto na incômoda posição de salvador de uma empreitada em perigo - e do fato de que uma avaliação realista de seu poder de transferir votos quando confrontado com a popularidade mineira de Lula tende a ressaltar o que pode haver de excessivo na aposta em Aécio como fator capaz de alterar de fato, em Minas, o resultado da disputa para presidente em plano nacional.

 

Por contraste com falta de patriotismo, falou-se de "generosidade" a propósito de ações recentes de Aécio, em particular a desistência de insistir na candidatura peessedebista. Creio que essa renúncia pode ela mesma explicar-se pelo cálculo. Não obstante termos tido a participação de Aécio no ícone oligárquico em que se transformou, há poucos anos, a imagem de alguns cardeais peessedebistas a deliberar sobre candidatura presidencial em jantar de bons vinhos, dificilmente, depois do ícone, o partido teria podido evitar as prévias que Aécio propunha se ele tivesse batido o pé quanto a elas. O problema é que obter as prévias e eventualmente ser derrotado nelas, além do desgaste imediato que representaria, tornaria muito mais difícil recusar a candidatura a vice apresentada como encargo partidário.

 

O que seria um bom motivo para que as forças serristas do PSDB se comprometessem com as prévias de forma a segurar Aécio - não fosse o temor de que elas viessem a dar, quem sabe, o resultado "errado", consagrando a candidatura presidencial de Aécio. Já a candidatura ao Senado preservaria, para o ex-governador mineiro, tanto a imagem de uma liderança de peso vitimada por circunstâncias partidárias tisnadas pelo componente oligárquico quanto a possibilidade de atuação significativa e de maior visibilidade, além da expectativa de que o partido viesse a cair-lhe no colo na hipótese de malogro de Serra.

 

Seja como for, "patriotismo" e "generosidade" remetem a objetivos distintos daqueles envolvidos no cálculo do interesse pessoal. O próprio Aécio recorreu a "generosidade" num contexto em que, além do compromisso com os objetivos supostamente maiores do partido, suas decisões são vinculadas aos interesses de Minas. É difícil enxergar além da retórica enevoada envolvida nisso: são tênues as conexões entre o eventual destino de Aécio como candidato a um cargo ou outro e o que se poderia pretender apresentar como "os interesses de Minas", ainda que seja possível discutir o impacto de suas opções sobre, por exemplo, as chances de eleger Anastasia como sucessor.

 

O diabo é que o foco realista dessa leitura vale de maneira muito mais ampla. Alguém indagava, a respeito de Brasil e Irã, o que Lula teria ido buscar em Teerã, e respondia "protagonismo". Se tomada amplamente como indicando ambição pessoal, a resposta vale para a pergunta de por que alguém quer ser presidente da República. Em termos de "patriotismo", a candidatura presidencial de Serra podia talvez ser defendida, por um peessedebista ou oposicionista convicto, quando ele liderava com folga as pesquisas. Mas empatado e na defensiva, levado até, de certo modo, a se declarar também ele lulista, as coisas mudam. Se se trata de buscar novidade de impacto, por que não Aécio para presidente, em vez de vice? Afinal, nas condições paulistas de PSDB contra PT, Aécio em São Paulo é boa aposta. O resto é campanha.

 

 

* FÁBIO WANDERLEY REIS É PROFESSOR EMÉRITO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG) E AUTOR, ENTRE OUTRAS OBRAS, DE MERCADO E UTOPIA: TEORIA POLÍTICA E SOCIEDADE BRASILEIRA (EDUSP)

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