Sertão no coração

Mineiro de Santos Dumont, 35 anos, Pedro David vem conquistando importantes prêmios da fotografia contemporânea. Em 2013 tirou primeiro lugar no FCW de Arte, da Fundação Conrado Wessel, com a série Sufocamento, que mostra "arvorezinhas" aprisionadas numa floresta de eucaliptos. Em 2011, levou o Pierre Verger, por O Jardim. Em 2010, o União Latina/Martín Chambi, por Homem Pedra. Integra coleções públicas no Brasil e na Europa. E carrega dentro de si o sertão do norte das Minas Gerais - lugar mágico das suas não memórias de infância, às quais ele dá forma, liricamente, nos recentes livros e exposição Rota Raiz. Aqui, um aperitivo desse trabalho.

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h08

O que é Rota Raiz?

Uma coleção de sonhos, materializados através de fotografias que realizei em inúmeras viagens pelo norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha, entre 2002 e 2008 e em 2012. É o resultado de uma busca pessoal por minhas próprias imagens do interior do Estado, que povoavam meu imaginário desde a infância, alimentadas por histórias e presentes dos meus pais.

Como seus pais entram nisso?

Meu pai trabalhou no Centro Tecnológico de Minas Gerais e lá participou de um projeto que consistia em levar às comunidades do interior soluções para suas necessidades por produtos básicos, para serem desenvolvidas em conjunto com eles, com os materiais disponíveis. Fizeram encanamentos de bambu, cisternas de adobe, carteiras escolares com materiais reciclados. Meu pai se ausentava por um tempo e voltava com histórias fantásticas e presentes inusitados. Minha mãe especializou-se em conservação de pinturas rupestres, o que a fez também viajar muito. Há presentes dela também, e coisinhas que eu mesmo recolhi em minhas próprias viagens, tudo misturado, como nossos pensamentos e memórias.

O que você buscava ao cavucar os locais e as memórias de sua infância?

Não são exatamente memórias, pois a maior parte dos lugares de Rota Raiz eu não conhecia antes. Estava ali para finalmente os conhecer e suprir um desejo enorme de dar corpo a imagens que só existiam em meus pensamentos. Uma vez lá, encontrei um mundo que pouco tinha a ver com meus sonhos. Deparei-me com um sertão mudado, mudando-se, em plena transformação. Passei então a fotografar o sertão contemporâneo.

Qual a história da Anja, uma de suas

imagens mais fortes?

Emanuelle é seu nome. Ela é neta da dona de um hotel em Leme do Prado, pequena cidade do Vale do Jequitinhonha. Passei por lá e fiquei hospedado nesse hotel inúmeras vezes. Sempre fazia retratos dela, e levava cópias quando voltava. Em uma de minhas estadias ela trouxe a ideia de fazer uma foto com asas de anjo. Não disse por quê. E eu não perguntei.

"Quando pude finalmente viajar

em busca daqueles símbolos fundamentais de meu imaginário,

não os encontrei. Procurei por lugares, pessoas e situações que àquele tempo já podia sentir não existirem além de minha imaginação. Andei a esmo. Mas em meu caminho também havia algo a ser guardado"

EXPOSIÇÃO. Até 18 de junho no Madalena Centro

de Estudos da Imagem: Rua Faisão, 75, Vila Madalena, São Paulo. Depois, de 5 de julho a 5 de setembro,

no Ateliê da Imagem, no Rio: Av. Pasteur, 453, Urca

HARMONIZAÇÃO. Palmilhe os sertões do fotógrafo ao som de Diaraby (com os guitarristas Ali Farka Touré e Ry Cooder), Os Argonautas (Caetano Veloso) e Panamericana (Chico Amaral), na voz de Marina Machado

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