Shopping maternal

Adoções internacionais feitas por celebridades deixam segredos à sombra e expressam amor pelos holofotes

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 22h17

Vamos tentar nos colocar no lugar de uma mãe malaviana. Soropositiva, subnutrida e solteira. Ela tem um bebê. De repente, se vê cercada por seguranças, relações públicas e paparazzi que não falam sua língua e diante da oferta: seu filho tem garantias de educação, saúde e farto suprimento de rúcula orgânica. E, num futuro não muito distante, acesso grátis aos camarins de espetáculos onde sua mãe adotiva de meia idade é dublada enquanto se contorce, sugerindo coito com rapazes que deveriam estar jogando pelada com o menino. O que fazer?

Na mesma situação, eu entregaria meu filho até para Céline Dion, embora considere suas gravações um caso para juristas internacionais.

Quem são vocês, liberais-champanhe, para roubar o futuro de uma criança ungida pela escassa, mas suprema, atenção da celebridade? Entre a fome e a fartura, entre a boca cheia de dentes e e a barriga cheia de vermes, como se atrevem a escolher a condenação da criança que não fala por si mesma? Essa é a pergunta fácil demais, não é preciso nem colar no exame de sensibilidade New Age.

A renda per capita anual do Malavi, população estimada em 13 milhões, é de US$ 600. O conjunto de jogging Chanel com o qual Madonna desembarcou do seu jato particular em Lilongue custa US$ 2.800. Até 1999, a ex-colônia britânica, profundamente cristã, não tinha estação de TV.

A menina Chifundo Misericórdia James foi gravada e fotografada para o mundo inteiro (o que aconteceu com a privacidade da menor?) no orfanato, desfilando de mãos dadas com Lourdes, a primeira filha de Madonna, batizada quando a cantora ainda usava o pretinho básico, ou seja, o catolicismo.

Madonna baixou com sua gangue de guarda-costas, precedida de uma ministra do Bem-Estar do Menor, Anna Kachikho, que declarou de antemão: "Se ela levar Chifundo, é menos uma boca para alimentar". Afinal, o Malavi tem mais de 1 milhão de órfãos, cortesia da aids e de governantes como Kachikho. O primeiro ditador pós-colonial, Hastings Kamuzu Banda, construiu para si um palácio de US$ 100 milhões antes de ser despejado nas eleições de 1994.

Diante da notícia de que a modesta juíza malaviana seguiu ao pé da letra a lei de adoção do país e teve a audácia de dizer não à celebridade, organizações humanitárias, principalmente da Inglaterra, cobraram da cantora uma reparação. Nada de bater a porta do jatinho e deixar a exposta Chifundo em animação suspensa. O governo do Malavi adora a atenção que Madonna atrai para o país porque ela vem com dólares que constroem hospitais e orfanatos. Um dinheiro dificil de monitorar.

Um repórter da Fox tentou sem sucesso descobrir o que aconteceu com US$ 3,7 milhões obtidos num fundraiser em fevereiro do ano passado em Nova York. Não teve resposta oficial , o que não implica, é claro, desvio, mas talvez confirme a atmosfera de privilégio que cerca a relação de certas celebridades com a miséria. Quem entra no site da ONG fundada por Madonna, Raising Malawi, encontra apelos eloquentes, platitudes, autocongratulações e nenhuma cifra. Mas descobre também que as iniciativas patrocinadas pela estrela doutrinam os pequerruchos malavianos nos preceitos da cabala, a seita frequentada por celebridades como Madonna e Demi Moore, cujo "rabino" é o cofundador da ONG, Michael Berg.

Os instintos maternais de uma milionária com um exército de empregados domésticos não me interessam. Mas o tráfico de crianças, incentivado pela moda da adoção internacional, sim. Há um mal guardado segredo sobre o motivo que leva celebridades como Madonna e Angelina Jolie a fazer o shopping maternal no exterior. Vamos evitar o cinismo de constatar que as crianças negras americanas formam um contingente desproporcional entre os rejeitados para adoção. Mas uma criança de um vilarejo de analfabetos diminui os riscos de dor de cabeça futura. Graças à psicobaboseira que enche espaço na mídia, filhos adotivos se sentem compelidos a procurar pais naturais. Mesmo os que tiveram vidas saudáveis e felizes preferem fazer um périplo para dar de cara com um viciado em heroína numa clínica de sem-teto e ter o senso de closure, conclusão. E quem sou eu para discordar desse desejo tão primal?

Para se ter uma ideia de a que ponto chegou a bastardização da maternidade, a rede de cabo WE estreou o reality show The Locator, que consiste num sujeito bater à porta de falsos desavisados dizendo: "A filha ou filho de que você abriu mão no passado me mandou lhe procurar". Seguem-se reuniões lacrimejantes e rancorosas.

E quem acredita que Angelina Jolie passa o dia como aparece quando é fotografada por paparazzi, como uma árvore com a penca de rebentos multiculturais enroscada em seu corpo raquítico? Alguém tem estômago para a especulação sobre a iminente adoção de um ou dois indianos, depois que Angelina soprou a novidade para os atores mirins de Quem Quer Ser um Milionário, num press release perverso?

Angelina está filmando 15 horas por dia em Nova York. De acordo com as colunas locais, passou um pito homérico em Brad Pitt quando chegou em casa à noite e o descobriu adormecido diante da TV enquanto babás tomavam conta de sua prole de seis. Desde quando o dinheiro e a celebridade são critérios de adoção? Alô, alô, Joan Crawford!

Nós perdemos Paul Newman, mas sua admirada fundação Newman?s Own continua de pé e já doou discretamente mais de US$ 250 milhões para caridade. Em compensação, quando Angelina Jolie e Brad Pitt decidiram ter seu primeiro bebê natural na Namíbia, deliciando o Ministério do Turismo local, reservaram um hotel de luxo inteiro, engajaram serviços de segurança, bloquearam o espaço aéreo sobre o local e foram consultados sobre a recusa de visto para jornalistas estrangeiros. Com o orçamento usado para arrastar crianças e babás por hotéis e castelos franceses, daria para sustentar várias vilas africanas, sem separar famílias ou submeter crianças à distorção da vida em público.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.