Ana Cilli
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Siameses retrata país subjugado pela mentira

Romance de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira dialoga com o Modernismo de 1922

Martim Vasques da Cunha, Especial para o Estadão

04 de dezembro de 2021 | 16h00

 

Na casa vazia que se tornou a literatura brasileira contemporânea, soterrada entre os restos dos arados tortos,  dos racismos estruturais que desintegram a sociedade, dos feminismos que acentuam o machismo e da política que jamais foi para todos, surge agora um livro o qual, entre as dobras do deserto particular de cada sobrevivente no mundo das letras, certamente fará a ambição dos nossos literatos explodir de inveja ou desprezo. Siameses, de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira – um romance de 1300 páginas que, ao ser corajosamente publicado por uma editora à margem do mercado editorial (Kotter), apenas faz no nosso vazio intelectual o que, em 1956, Guimarães Rosa provocou com o lançamento praticamente simultâneo de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. No caso, recuperar o centro do que realmente importa.

Os superlativos não são um exagero. São os termos mais exatos. Quando um livro deste tipo surge no panorama, não devemos ter medo de elogiá-lo. Há de se ter a obrigação de fazer o que o poeta polonês Adam Zagajewski chamava de “em defesa do fervor”. Pois Siameses é, de fato, um romance concebido, criado e escrito no meio do fervor. Porém, um fervor extremamente calculado, construído sobre bases múltiplas que misturam o grotesco, o lírico, o digressivo, o intelectual – e, sobretudo, o diabólico.

Como toda boa trama romanesca (voltaremos em breve a este termo: “trama”), torna-se impossível resumir o assunto do livro. Tentemos: em uma longa conversa entre dois amigos, Osmar (o único que fala) e Procópio (o que fica aparentemente calado o tempo todo), sabemos do triângulo amoroso (ou seria quadrado?) entre o operário metido a intelectual Tomás, sua esposa, a enfermeira Rebeca, e a vendedora Azelina, uma jovem apetitosa que atiça os desejos do primeiro e o coloca em uma verdadeira odisseia do azar. Aparentemente, essa história não nos diz nada – e mal seria uma razão para o leitor comum acompanhá-la se não fosse por um detalhe que Antonio Geraldo faz questão de mencionar constantemente no livro: o que estamos a ler não é uma mera quadrilha a lá Drummond, e sim um resumo histórico dos últimos quarenta anos do que aconteceu, em microcosmo, nesta nação gigantesca que é o Brasil.

Para relacionar esses dois planos, Siameses constrói – olhem de novo a palavra – uma trama de símbolos e de metáforas, espalhadas por meio de digressões que visam a despistar o leitor. Por um lado, ela dialoga tanto com a tradição temática do Modernismo Brasileiro de 1922, com seu antropofagismo, ao analisar a brasilidade esteticista, como com a linha do Modernismo Europeu, em especial o romance enciclopédico celebrado por James Joyce em Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939) ou pelo poema A Terra Devastada (1922), de T.S. Eliot. É um fenômeno já descrito por Richard M. Morse em seu magnífico ensaio O Espelho de Próspero, em que a imersão no caos e no anonimato das grandes cidades – ou, no caso de Siameses, no interior fronteiriço entre São Paulo e Minas Gerais – somente nos leva a um centro desatado do que deveria ser a “comoção da vida”, em um caleidoscópio que apenas confirma a vastidão de reflexos a nos devorar. Tudo isso converge para uma visão de mundo que acompanhava Antonio Geraldo em seu romance anterior, o celebrado As visitas que hoje estamos (2014), na qual o colapso existencial do país se soma agora ao encontro da raiz de todos os nossos problemas políticos, morais, sexuais e econômicos. Trata-se da nossa atração insaciável por aquilo que hoje podemos chamar sem hesitação de “o contágio da mentira”, o qual corrói o Brasil – e com certeza o mundo – do início ao fim, do topo até o chão, do chão até o nosso subsolo irracional.

Em Siameses, enquanto o leitor acompanha as peripécias de Tomás para seduzir Azelina e enganar Rebeca, com toda a destreza narrativa comunicada por Osmar a Procópio, pouco a pouco as noções de verdade e mentira, fato e ficção, realidade e alucinação tornam-se cada vez mais imprecisas – e elas se amalgamam sem que ninguém (principalmente os personagens) mais saiba onde começa uma e onde termina a outra. Daí o título do romance: tudo está inevitavelmente ligado, numa irmandade macabra que, como o próprio projeto estético de Antonio Geraldo antecipou desde a primeira linha do romance, nos leva desses filhos da mentira ao próprio pai da falsidade.

A ambiguidade que surge desta trama – olhem aí a palavra de novo – é poderosa pois ela se alimenta da própria novidade que o gênero romance apresenta à sociedade onde se insere. Em inglês, o romance é também “novel”, que, se aqui pode ser a novela (um gênero anfíbio assim simplificado por causa do tamanho das suas páginas), é também o novo a surgir toda vez que nos encontramos na casa vazia das palavras sem sentido. Apesar de se cercar de contemporâneos igualmente brilhantes – como Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Ana Paula Maia, Erico Nogueira, Joca Reiners Terron, Alberto Mussa, André De Leones, entre outros –, cabe agora a Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira ser quem comandará a reviravolta provocada pela nova literatura a surgir do seu livro.

Assim, o que Siameses faz para as nossas letras é uma espécie de “destruição criativa”, algo que Hermann Broch antecipou ao analisar o Ulisses de Joyce em um ensaio pioneiro, publicado em 1935. Neste texto, lemos que “Joyce busca com todos os meios do domínio do estilo e da arquitetura literária, com toda a capacidade de abranger a essência e com toda a ironia, que essa cosmogonia que se desdobra por trás do Ulisses resulte ao fim das contas em um sistema platônico, um corte no mundo, que no entanto não é outra coisa a não ser um corte no eu, um eu que é ao mesmo tempo o sum e o cogito, o logos e a vida, novamente se tornando Um, uma simultaneidade em cuja unidade refulge o religioso em si.”

É esta divisão – entre a palavra a descrever a vida e a própria vida – que fraciona cada linha do romance de Antonio Geraldo, para depois ele sempre retornar à unidade (aparentemente platônica) da trama literária. Mesmo assim, o escritor preserva o fervor típico de quem sabe que, para criar, é necessário muitas vezes demolir o que achávamos ser o fundamento de todas as coisas petrificadas do nosso passado e que precisam de um novo sopro. No caso específico de Siameses, a religiosidade ocorre sempre na via negativa, pois os personagens caminham num Hades interior onde as paixões (jamais a virtude) são o que comanda as ações de cada um. No fundo, a tragédia de Tomás, Rebeca e Azelina (e talvez a de Osmar) é a tragédia tupiniquim de saber que, como diria o narrador a lá Riobaldo Tatarana, a “impossibilidade do indivíduo é ser ele mesmo (...)!”. Neste espelho literário, digno de Próspero, a obra-prima de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira nos presenteia com um modo para reconstruir o Brasil, esteticamente e moralmente.

SIAMESES

Autor: ANTONIO GERALDO FIGUEIREDO FERREIRA 

Editora: Kotter

1336 páginas 

R$ 49,00 (livro) 

 

 

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