João Miguel Pinheiro
João Miguel Pinheiro

Sidney Rocha imagina cidade fictícia e hedonista em novo romance

'A Estética da Indiferença' tem elementos especulativos para fazer uma crítica aos costumes de uma elite alienada

Ney Anderson*, Especial para o Estado

09 de março de 2019 | 16h00

Dando prosseguimento à trilogia Geronimo, iniciada em 2015 com Fernanflor, Sidney Rocha lança agora A Estética da Indiferença, ambos publicados pela editora Iluminuras. Neste novo livro, o leitor conhece a história de Michi e Hana, que vivem no condomínio de luxo Amaravati, na cidade fictícia de Cromane. Nesse ambiente que eles e outros moradores chamam de paraíso, tudo está disponível para fazer da vida uma experiência inesquecível. Jardins particulares, tarefas domésticas executadas por robôs, funcionários sempre dispostos a ajudar e uma grande loja de produtos orgânicos, além de outras regalias para os privilegiados. Um mundo não tão distante, onde cozinhas perfeitas são planejadas por designers famosos e refeições luxuosas são servidas como algo natural.

A rotina de todos consiste na participação em eventos culturais, passeios nos arredores, caças e encontros no restaurante Farsano. A ironia com o nome do restaurante dá a dica sutil de como tudo é falso nas relações naquele lugar, algo incrivelmente verdadeiro, seja dentro ou fora da ficção. Justamente por isso, as pessoas parecem viver numa realidade paralela, ignorando o resto que existe para além das extensões do condomínio. Uma vida de eterna felicidade para a elite depois da aposentadoria. 

Tendo como ambiente a sociedade dita perfeita, onde não existem erros, A estética da indiferença direciona a lupa para a camuflagem pedante vestida pela burguesia, que distorce totalmente a noção de realidade na qual eles vivem. Os dois protagonistas convivem em uma relação de aparência, pois a infidelidade é algo puramente banal. Hana se apaixona por outro homem, enquanto Michi deseja as mulheres da vizinhança. 

Dividida em cinco capítulos, a obra é uma grande reflexão sobre a melancolia da vida, amparada na personificação da futilidade. Michi é alguém que tenta se desprender da situação na qual está inserido, mas os fantasmas do passado não o deixam. Ele é quase um estranho no ninho. Em uma das passagens mais interessantes, ele roda a cidade para se divertir e tentar sair do mundo repetitivo de Amaravati. Durante a viagem de ônibus tem uma espécie de delírio vendo a cidade sendo atacada por terroristas. Inclusive um forte boato ronda a população de que a Terra está na iminência da destruição por um meteoro. “O lugar todo se encheu de dinheiro. As paredes passaram a ser de dinheiro, o teto, os móveis, as gavetas e o interior das gavetas, os quadros e as molduras. O ar se transformou em dinheiro. Estava preso às efígies.” Logo em seguida continua: “Estou no inferno. Mas estava em uma cobertura desses edifícios grã-finos.” 

Quando ele chega ao bar encontra os conhecidos numa curiosa conversa, onde acabam decidindo ir ao cemitério de Cromane. Lá o narrador pensa justamente na finitude da vida, a mesma que aqueles homens e mulheres resolveram maquiar para sentirem-se diferentes do resto do mundo. “Em algum momento na vida todos nós cobrimos alguém de insultos, e depois somos cobertos pela terra, às vezes com estética, mas invariavelmente com total indiferença. Continuo olhando as lápides como um narciso às avessas”. 

Existem vários signos representados neste livro, jogados sutilmente, mas o principal deles é o do dinheiro acima de qualquer coisa.

Tudo na obra ironiza o supérfluo. Mas estão lá também o racismo e a discriminação de pessoas pobres. Em determinado momento do livro acontece um concurso que premia o homem mais faminto do mundo, para a alegria dos “filantropos” residentes no condomínio. Existe essa violência implícita no enredo da história, ressaltada quando um dos moradores caça porcos apenas pelo prazer de matar.

O romance se sustenta pela força do texto, que parece ter sido feito para ser encenado, já que a oralidade não linear é apresentada por muitas divagações de Michi, que é ex-professor de teatro. Inclusive o lançamento do livro no Recife teve uma leitura dramática do ator Germano Haiut, no Teatro de Santa Izabel. Se o livro anterior o personagem era pintor, esse tem o teatro no centro da trama. Não espantaria se o próximo utilizasse as artes visuais, o cinema, como fio condutor do enredo. 

Mesmo fazendo parte de uma trilogia, os livros não se interligam. Apenas de forma referencial. Tanto o personagem Fernanflor quanto Geronimo (que intitula a série) aparecem neste romance. O primeiro, sendo lembrado por conta de uma grave doença no olho, e o segundo, como o dono de um sebo.

Assustadoramente verdadeiro e sofisticado, A Estética da Indiferença é ficção das melhores, com a lupa do real apontando diretamente para o que parece não compreendermos totalmente. No entanto, basta uma olhada rápida nas colunas sociais, por exemplo, que o romance de Sidney Rocha se apresenta. Mas isso é só a ponta de um enorme iceberg, onde Michi e Hana funcionam como estranhos personagens de um mundo narcisista, esnobe e superficial da burguesia que só tem olhos para o próprio umbigo. Ou melhor, para o bolso. Até os livros clássicos da biblioteca do casal, entre eles A Ilíada, Madame Bovary, Ana Karenina e Dom Casmurro, têm edições revistas, sem os sobressaltos trágicos, para combinar com o ambiente feliz e sem erros de Amaravati. A ideia de paraíso. Mas o que é mesmo o paraíso? Se pergunta Michi, mas logo em seguida ele responde ironicamente: “Ainda bem que Hana tem o telefone de todos os delíveris.”

No teatro da vida na qual a sociedade está imposta, a estética que Sidney criou diz muito sobre esse mundo de artifícios, falsidades e mentiras. Mas qual sociedade conseguiria viver (sobreviver), se não fosse no jogo dúbio da indiferença? E o que é essa tal indiferença? O romance levanta muitas questões, algumas de forma explícita e outras não. No geral, é como se as pessoas vivessem em uma eterna representação, onde o jogo de aparências é o que realmente importa no superficial teatro da vida. “Essa era a nossa verdadeira estética, a tragédia da incomunicabilidade, de não podermos nos tocar senão no mundo dos sonhos, a tragédia minha, nossa, dessas máscaras”, resume Michi. 

No final, um diálogo dentro de um sonho do narrador encerra a obra de forma certeira:

- A vida é mais que a realidade. É um poderoso teatro.

- Foi isso que você não entendeu.

- Não?

- Não.

- A vida não é sonho?

- Não.

- Nem teatro?

- Não. Apenas brechas, fendas e bocas, vozes, ruínas e flores que germinam, indefinidamente, para dentro da terra.

*Ney Anderson é jornalista e editor do site de literatura Angústia Criadora

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