Walter Carvalho
Walter Carvalho

Silêncios desaparecidos

Entrevista com

Walter Carvalho

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2015 | 16h00

Pense em filmes ou séries de TV brasileiros, mais ou menos recentes, que tenham te encantado pelo - ok, simplifiquemos os termos - “visual”. Algo diferente que você percebe fugir do padrão a que seus olhos se (mal) acostumaram a ver em telas nacionais e daí venha certo deslumbramento. Bom, pode crer que a explicação estará nos créditos: Walter Carvalho, diretor de fotografia. Terra Estrangeira, Lavoura Arcaica, Abril Despedaçado, Heleno, Amores Roubados, O Rebu, pra citar alguns.

Paraibano de 67 anos e mente desassossegada, Carvalho é “um fotógrafo em permanente diálogo com a pintura”, segundo o crítico e colunista do Estado Luiz Zanin Oricchio, que acrescenta: “Seu trabalho (no cinema) é toda uma reflexão sobre a luz. Sobre o olhar humano e o recorte significativo que este lança sobre o mundo e, dessa forma, o estrutura. Esse trabalho de artista começa por seu fundamento, que é a fotografia”. 

É de fotografia, pois, que Carvalho fala na entrevista a seguir. A fotografia “estática”, se é possível uma, e não a fotografia em movimento do cinema. A fotografia que ele recentemente lançou no livro Contrastes Simultâneos (Cosac Naify), percorrendo 40 anos de atividade. Para o Aliás, Carvalho costurou um ensaio com imagens produzidas em mundos e momentos diversos, do sertão nordestino a Los Angeles, Paris, Havana. A união delas, ele diz, “está no fato de o silêncio de uma não conversar com o silêncio da outra; é o desaparecimento do silêncio. São fotografias que estão entre o que vejo e o que não vejo”.

Como a fotografia entrou em sua vida?

Há um fato da minha infância que não me fez fotógrafo, mas impregnou minha imaginação. Eu era muito pequeno e nós íamos sempre de férias a Itabaiana, interior da Paraíba, terra de minha família. Um lugar de engenhos, rios, uma verdadeira ilha da fantasia pra mim. Certo dia apareceu por lá um homem grande com aspecto de estrangeiro. Ele armou uma máquina na rua, entrou debaixo daquele pano preto e estourou, literalmente, uma luz em pleno dia. Era o flash de magnésio. Um espetáculo, fiquei impressionadíssimo. Dias depois ele trouxe a imagem impressa num prato de porcelana. O espetáculo então virou mágica. Quando me dei conta a fotografia já tinha penetrado em minha vida.

Do ponto de vista psicológico o que a fotografia significa pra você?

A busca da subjetividade. É disso que se trata: um esforço enorme no qual o fotógrafo busca o tempo todo a subjetividade. É “cavar um poço com cuia”, pra citar um provérbio árabe do qual gosto bastante. Ou, como disse a Diane Arbus, fotografia é o segredo do segredo: quanto mais informação ela fornece, menos a gente sabe sobre ela. E eu me “encontrei” sistematicamente com Cartier-Bresson nessa busca. Durante muito tempo não pensava em outra coisa. Saía de casa e voltava pra casa pensando em Bresson. Mais tarde é que minha cabeça foi sendo ocupada por outros criadores, Bob Dylan, Sylvia Plath, Elliot, Bandeira, João Cabral. Esse universo esteve sempre comigo. Minha cabeça permanece em estado de alerta, um papel em branco procurando uma mancha de luz e sombra.

Em que momentos você fotografa hoje?

Quando acordo, seja em minha casa ou num quarto de hotel, a busca pela imagem acorda junto. Preciso da imagem como preciso de ar, água e sono. Um objeto jogado num canto, uma folha, um pássaro que risca o céu... Tudo pode ser uma imagem. Acho que a gente não encontra a fotografia, ela é que encontra a gente. Por isso tenho sempre uma câmera comigo e fotografo mesmo que seja só da janela do quarto.

E nessa hora o que te atrai primeiro, as formas, as cores, a luz?

O objeto em si. Ou melhor, a representação desse objeto. É quando uma cadeira deixa de ser um utensílio para se sentar e passa a ser um modo de sentir, evocar memórias. Uma fotografia pode nos levar a mundos onde nunca estivemos. Ela nos ajuda a enxergar, e enxergar é diferente de ver - é criar o que vemos. A realidade não está lá fora, é criada dentro da gente. Nesse sentido, a fotografia pode estar fora do quadro, fora dela mesma. A fotografia pode ser um silêncio ou um ruído que não estão nela, são apenas sugeridos por ela. A fotografia pode ser um momento que ainda não tinha acontecido, que virá depois. 

Enxergamos solidão nas fotos deste ensaio?

O quadro e a luz atingem a superfície do objeto, não é possível penetrar em seu interior. Portanto, é importante que a imagem deixe mistérios na sua aparência. Só assim ela não será uma reprodução da forma do objeto e sim uma representação. Um saxofone fotografado não serve para ser tocado, serve para ser ouvido. Eu recuso a fotogenia e me preocupo com o repertório da beleza. O belo, o que agrada ver, deve surgir como resultado. Evito apogiaturas na imagem e talvez por isso elas fiquem desprovidas de ornamentos que aliviem a tensão. Fotografar para mim é encher os olhos de sonhos, um encontro entre o real espesso e um plano bidimensional no qual se impõe a representação do objeto fotografado.

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