Companhia das Letras
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Silvina Ocampo, rebelde da literatura argentina, ganha tradução

Seu livro de contos 'A Fúria' tem uma temática recorrente, a delinquência infantil motivada pelo gosto das crianças pela perversidade

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2019 | 16h00

É comum referir-se à escritora argentina Silvina Ocampo (1903-1993) pelas pessoas ao seu redor: mulher de Adolfo Bioy Casares, amiga de Jorge Luis Borges e irmã de Victoria Ocampo (editora da revista Sur, que abrigou em suas páginas grandes nomes das letras). Com a publicação do livro A Fúria, pela Companhia das Letras, o leitor brasileiro poderá constatar que ela não foi apenas bem-relacionada, mas uma das maiores autoras de sua geração. Com ampla variedade temática, os 34 contos presentes em A Fúria têm em comum uma “crueldade inocente e oblíqua”, como bem observou Borges.

Assim como ele, Silvina trata – quase sempre no registro da literatura fantástica – de situações insólitas, surreais, impossíveis. No entanto, ainda que ambos tenham se ocupado do mesmo gênero, ela é quase uma anti-Borges: “Sua escrita tem uma turbidez, uma imprecisão proposital, uma perversidade no encaixe das palavras que não são borgeanas. Há em Silvina Ocampo uma espécie de rebeldia à racionalidade formal e à trama bem composta”, escreveu a crítica literária argentina Beatriz Sarlo, colocando-a em oposição à precisão matemática e à nitidez quase obsessiva da literatura de Borges.

Uma temática recorrente nos contos de A Fúria é a delinquência infantil. Há pelo menos três contos com gradações distintas de dolo e ambiguidade nos crimes cometidos por crianças. Em um, o narrador induz o neto a assassinar o avô com um revólver enquanto brincavam de mocinho e bandido, sem que soubessem que a arma estava carregada; noutro, uma criança introduz uma aranha venenosa no coque de uma noiva, levando-a a morrer no altar; em mais outro, o protagonista se lembra do dia em que provocou um incêndio que vitimou a própria mãe. 

Em A Oração, uma médica aconselha a mãe de um menino nada comportado: “Querida, feche a caixinha de remédios com chave. A criminalidade infantil é perigosa. As crianças usam de qualquer meio para chegar aos seus fins. Chegam a estudar dicionários. Nada lhes escapa. Sabem tudo. Ele poderia até envenenar seu marido”. A persistência desse assunto exemplifica de modo perfeito a estranha mescla de perversidade, dissimulação e singeleza da literatura de Silvina. 

Relacionamentos abusivos, desajustados ou insalubres são outra tônica em seus escritos. Embora se trate de uma autora mulher, nem sempre a tal crueldade oblíqua presente nesses relacionamentos parte do lado masculino, como seria de se esperar. Em A Casa de Açúcar (conto dileto de Julio Cortázar), recém-casados estão se mudando para uma casa. Cristina, a mulher do protagonista, adverte que eles devem morar em um local nunca antes habitado, para que a aura dos habitantes anteriores não influenciem suas vidas. O marido engana a esposa, comprando uma casa usada. Com o tempo, visitas estranhas começam a aparecer, buscando a antiga ocupante da casa: seu cachorro, seus amantes, sua amiga, até mesmo um desafeto. “Suspeito que estou herdando a vida de alguém, as alegrias e os sofrimentos, os erros e os acertos”, constata Cristina, cada dia mais irreconhecível e mais parecida com Violeta, que morou ali antes deles.

Em A Continuação, a protagonista é uma escritora que vai sendo consumida pelo ciúme que sente ao ver seu marido na companhia de uma amiga. Ela começa aos poucos a se misturar aos personagens de um conto que nunca conseguiu terminar de escrever. “Ao abandonar meu conto”, diz ela, “não voltei ao mundo que tinha deixado, e sim a outro, que era a continuação do meu enredo (um enredo cheio de hesitações, que sigo corrigindo dentro de minha vida).” 

Já em O Nojo, uma mulher sente uma inexplicável ojeriza pelo próprio marido, e o remédio que imaginou para solucionar a situação não poderia ser mais esquisito: “Tentava fazer com que suas amigas se apaixonassem por ele, para poder, de algum modo, chegar ao carinho por meio do ciúme, mas disposta a abandoná-lo, isso sim, ao sinal da menor traição”.

Esse misto de perversão e ingenuidade em geral é mediado pela chave da culpa. No entanto o insólito em suas narrativas pode estar justamente na maneira pela qual esse remorso se manifesta. No conto-título do livro, a filipina Winifred confessa ao narrador ter queimado a amiga de infância Lavinia. Em vez de se tornar uma pessoa melhor, porém, ela lida com o arrependimento por uma via tortuosa: “Agora compreendo que, ao cometer crueldades ainda maiores com as outras pessoas, ela só queria se redimir para Lavinia. Redimir-se através da maldade”.

Da maior parte dos contos de Silvina, emerge um perturbador sentimento de desajuste, mas sem um motivo lógico ou explicação racional por trás. Não em As Ondas. Embora não seja a única, essa é a narrativa que mais se encaixa como uma ficção científica. No futuro, em 1975, descobre-se que os humanos emitem ondas de determinados tipos, que podem interferir e prejudicar uns aos outros — para evitar essas interferências danosas, as pessoas são segregadas. O conto é narrado por uma mulher que foi separada de seu amante e está prestes a fazer uma cirurgia para tentar se adequar à frequência das ondas dele. “Depois da operação, penso em me alistar em uma viagem interplanetária para discretamente me aproximar do seu mundo”, ela informa, agarrada ao fiapo de esperança que lhe resta. 

No romance A Curva do Sonho, a escritora norte-americana Ursula K. Le Guin imaginou um sujeito que, ao dormir, modifica a realidade ao redor por meio de sua vida onírica e é manipulado por seu psiquiatra para sonhar com determinadas ocasiões. Essa premissa foi antecipada em mais de uma década no conto Os Sonhos de Leopoldina, cuja protagonista torna reais os objetos e eventos que vislumbra à noite. Simplória, entretanto, Leopoldina sonha com pedrinhas, plumas e objetos sem valor. As parentes dela, Leonor e Ludovica, ao descobrir seu dom, querem manipular seu sono. “Com o que quer que eu sonhe?”, pergunta ela, oprimida pelas parentes. “Com pedras preciosas, com anéis, com colares, com escravas. Com algo que sirva para alguma coisa”, pede Ludovica. Leopoldina, porém, confessa não saber o que são essas coisas. “Tenho quase 120 anos e sempre fui muito pobre.” Essa relação familiar cai numa espiral de exploração que faz com que parentes passem a desumanizar cruelmente uns aos outros.

Le Guin não foi a única herdeira literária de Silvina. Há toda uma leva de jovens escritoras que despontam nos últimos anos com uma prosa insólita que se aproxima muito de seus contos. As argentinas Samanta Schweblin (Pássaros na Boca e Outros Contos) e Mariana Enriquez (Este É o Mar), e a norte-americana Carmen Maria Machado (O Corpo Dela e Outras Farras) são algumas das autoras contemporâneas publicadas no Brasil que usam da literatura fantástica para brincar com o inquietante, o familiar porém estranho — o “unheimlich” sobre o qual Freud escreve. Silvina, por sua vez, descende diretamente do gótico de Shirley Jackson, do horror de Mary Shelley e do surrealismo de Leonora Carrington.

Se Le Guin, Schweblin, Enriquez e Machado têm ainda um componente feminista em sua escrita, trabalhando ativamente a questão de gênero, Silvina não demonstra essa preocupação de forma tão clara. Ainda que seus contos abordem com frequência o ponto de vista feminino e reflitam a situação sufocante da mulher no início do século 20, ela, assim como outros intelectuais argentinos da época, sempre prezou por uma “arte pela arte”, sem politizações. 

Não raro, seus contos acabam com mortes absurdas, mas quase nunca esses desfechos são efetivamente trágicos. A comicidade inoportuna, fora de lugar, está sempre à espreita.

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