Simplismo insustentável

Sustentabilidade exige práticas que superem as simplificações do misticismo político

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h07

A realização de uma conferência internacional no Brasil sobre o desenvolvimento sustentável, convocada pela Assembleia da ONU, em princípio tem uma não pequena importância simbólica. Nosso país tem estado na fronteira de modelos alternativos e opostos de desenvolvimento econômico, entre o real problemático e o possível utópico. Carrega em sua história recente e não muito distante, a da política do arbítrio, as cicatrizes profundas da opção geopolítica e econômica de natureza predatória pela ocupação acelerada de seus chamados espaços vazios, em particular os da extensa região amazônica. Por isso, o Brasil seria o país mais qualificado para expressar ampla e revolucionária tomada de consciência do desastre ecológico e dos efeitos devastadores da predação ambiental. E para dar lições indiscutíveis de criatividade e inovação na contenção do processo destrutivo, de reparação dos danos ambientais e de reorientação de seu modelo econômico. No entanto, não é isso que tem acontecido.

É verdade que foram os movimentos sociais e os movimentos populares que se alçaram na reivindicação de medidas corretivas e de proposição de modelos criativos e alternativos ao modelo dominante. Mas, as inovações propostas pelos movimentos populares nem sempre têm tido o impacto que esperam e que se podia esperar porque mescladas com proposições ideológicas que não constituem condição necessária à mudança pretendida. E, por isso mesmo, afastam aliados que ampliariam o alcance da demanda de mudanças, mas se refugiam em posições tímidas e relutantes.

Nessa perspectiva, a questão do modelo alternativo de desenvolvimento sustentável acaba parecendo pretexto que oculta propósitos diferentes dos aceitáveis por muitos para constituição de uma maioria eficaz. Aquela capaz de opor vigoroso questionamento a obras como a da problemática barragem de Belo Monte, no Pará, e a do canal de transposição de águas do Rio São Francisco. E também ao retrocesso de um Código Florestal que nos leva a um dos piores momentos do passado, o da renúncia do Estado à condição de tutor do bem comum, colocando-o sob o jugo dos interesses privados.

Justamente aí ganham visibilidade as incongruências e contradições de uma esquerda que, tendo chegado ao poder empurrada pela força de uma liderança carismática e, portanto, muito além dos limites de uma legitimidade sensata, não sabe o que fazer com o poder tão facilmente conquistado. Nestes tempos de monarquia invisível, de mandatos equivocadamente hereditários, é compreensível que os eleitos no marco de um ideário, de esquerda, sintam-se tentados, no afã de manter o poder a qualquer custo, a transigir com forças políticas oportunistas. Aquelas que, atadas a valores que estão aquém da democracia, dos direitos sociais e da própria civilidade, facilmente caem na tentação de impor ao país, por meio de um poder que é frágil e que foi conquistado nas facilidades do discurso messiânico, um modelo de economia indeciso entre o ganho racional próprio do capitalismo e o saque.

Não é surpresa, portanto, que o país viva com a corrupção pela goela. O comprometimento do desenvolvimento sustentável pelas vacilações políticas do governo não é estranho à mesma cultura da corrupção se a entendermos como expressão das regras do vade-mécum oculto do atravessamento não só do que é legal, mas também do que é legítimo, num país em que, com alguma frequência, o legal e o legítimo se estranham.

Nos países politizados, e não apenas partidarizados como o nosso, os próprios movimentos sociais já teriam retirado seu apoio aos partidos messiânicos e suas coalizões problemáticas e reacionárias e compreendido que suas bandeiras ideológicas, como neste caso, deveriam erguer-se acima das facções partidárias. É o que lhes daria a liberdade de expressar com vigor não só sua capacidade de agitar bandeiras, mas também a de lograr metas políticas de indiscutível cunho social e a de vergar o Estado aos imperativos da razão e das demandas mais sensatas da opinião pública. Ação política proposta muito além e muito acima do teatro de uma discordância fingida porque lhes é impossível uma discordância efetiva e efetiva se fosse pautada por práticas consequentes de superação dos bloqueios que ataram a esquerda à direita.

A questão do desenvolvimento sustentável fica muito aquém do possível na medida em que os movimentos sociais e populares vacilam quanto a quem podem ser seus verdadeiros aliados. Aqueles que, de maneira racional e sem a pendência de tributos e pedágios ao parasitismo político, possam compreender e viabilizar as metas da sustentabilidade, não só como metas ecológicas, mas também como metas sociais de largo alcance. Um outro mundo é possível, não há dúvida, mas para chegar a ele é preciso política, isto é, práxis inovadora e transformadora, muito além das simplificações do nosso misticismo político. Justamente o que está faltando aos movimentos populares e aos movimentos sociais.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO E PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP. AUTOR DE A POLÍTICA DO BRASIL LÚMPEN, MÍSTICO (CONTEXTO)

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