Sina da primeira vez

Não por acaso, Francisco apareceu no balcão da Basílica vestido apenas de branco, sem púrpuras, ouros ou emblemas de nobreza

Juan Arias,

17 de março de 2013 | 02h08

É reconhecida a força dos gestos e dos símbolos, às vezes mais eloquentes do que as próprias palavras. Por isso, o novo sucessor de Pedro, o papa argentino, que escolheu o significativo nome de Francisco, chega ao pontificado com várias novidades que o precederam como cardeal, todas elas perpassadas por símbolos.

Em meu blog no jornal El País, Vientos de Brasil, chamei Francisco de o papa "da primeira vez", porque sua biografia está repleta de atitudes até agora inéditas em um cardeal da Igreja, como a sua simplicidade no vestir, o hábito de usar, até agora na Argentina, os meios de transporte públicos, de cozinhar para si próprio, e sua presença nas favelas.

A importância do fato de a Igreja, contra todos os prognósticos, ter escolhido, depois de doze séculos, o primeiro papa não europeu, já é um gesto que quebra um tabu importante. A partir de agora, as portas estão abertas para um papa de qualquer parte do mundo no futuro.

E ter começado a ruptura deste tabu secular com um papa das Américas, reveste-se de dupla importância, pois este é o continente chamado da esperança, não só para a fé católica, mas também para a fé cristã em geral. De fato, a segunda força religiosa mais importante no continente é a das igrejas evangélicas ou protestantes que não deixam de ser cristãs, embora separadas por motivos teológicos e históricos do passado.

Igualmente significativo foi o gesto dos cardeais ao escolherem, no meio do vendaval que sacode a hierarquia do Vaticano com seus escândalos de dinheiro, sexo e intrigas, chamados pelos jornalistas italianos de "noite das facas longas", não um dos cardeais comprometidos com a Cúria Romana, mas alguém de fora e até mesmo crítico desta.

Foi a demonstração de que o duelo travado no Vaticano, cujos mistérios ainda não decifrados levaram à renúncia de Bento XVI, tem como único perdedor a Cúria, e como vencedores os cardeais da periferia do mundo, que queriam um papa não comprometido com os jogos de poder romanos, um papa profundamente religioso, e mais comprometido com os pobres do que com os poderosos.

Já está sendo estudado este simbolismo de um jesuíta, que representa a educação das elites da sociedade e o compromisso com a cultura e a ciência, e que quis tomar o nome mais simbólico de Francisco, patrono dos franciscanos, a outra grande Ordem religiosa da Igreja, sempre mais próxima das pessoas comuns e dos mais esquecidos da sociedade.

É como se o novo papa jesuíta quisesse fazer a síntese das duas grandes correntes religiosas da Igreja. E pensasse que, do mesmo modo que Francisco de Assis, no século 12, foi chamado com sua opção pela pobreza a restaurar uma Igreja sacudida também naquela época por escândalos de intrigas entre os cardeais e arrebatada por pompa e riquezas, ele foi chamado para "restaurar" o Vaticano de hoje, envolvido em ações pouco evangélicas que escandalizam os fiéis.

Resta ver se o cardeal "da primeira vez", continuará agora, como papa, abrindo novos caminhos igualmente inéditos, prosseguindo em sua linha de gestualidade simbólica. Na realidade, já o demonstrou na tarde em que apareceu ao balcão da Basílica de São Pedro, onde, pela primeira vez, o novo papa estava vestido apenas de branco, sem púrpuras e ouros, sem emblemas de nobreza.

Pela primeira vez, ele começou não abençoando os fiéis como Vigário de Cristo, mas pedindo a todos os que o aplaudiam que rogassem a Deus para abençoá-lo. Nunca um papa fez isso antes.

E foi a primeira vez que o papa, em suas primeiras palavras, se apresentou como "bispo de Roma" e não como papa, como sempre fizeram os seus antecessores esquecidos de que ser papa significa ser o sucessor, em Roma, do apóstolo Pedro, um "primus inter pares", não o maior, com poder sobre os outros bispos, mas como o irmão mais velho, sucessor do apóstolo mais ancião, Pedro, o pescador da Galileia. Agora, o papa Francisco que chegou ao papado com seu magro alforje de peregrino de Cristo, carregado de gestualidade simbólica, poderá continuar durante o seu pontificado ainda por estrear, realizando novos gestos de abertura.

Poderá, que em Buenos Aires deixou o arcebispado para ir morar em um apartamento simples, deixar de viver nos Palácios Vaticanos e mudar-se para um bairro simples de Roma, algo que João Paulo I quis fazer, mas não teve tempo de pôr em prática, porque os representantes da Cúria de então, que não eram favoráveis a ele, o "morreram" após 33 dias de pontificado.

Poderá, se não andar a pé como fazia pelas ruas de Buenos Aires, deixar de usar carros blindados e perder o medo de que alguém possa atentar contra a sua vida. Jesus nunca se defendeu, andava a pé e foi morto aos 33 anos. Acaso a Igreja não se fundamenta no sangue dos mártires?

Poderá também abrir as portas para permitir que a mulher chegue ao sacerdócio, uma vez que a Igreja é a única instituição do mundo democrático que persiste em discriminar esta protagonista do cristianismo primitivo.

E o papa Francisco poderá abrir uma nova página no ecumenismo hoje bloqueado pela intransigência da Igreja que se apresenta à mesa de negociações com as outras religiões como a única possuidora de toda a verdade revelada.

A personalidade do papa Francisco, que já dialogava de igual pra igual com os outros credos enquanto cardeal, poderá levá-lo a abrir uma nova página na união de todos os crentes numa cruzada em prol da paz mundial, da condenação das injustiças sociais e da defesa da dignidade humana independentemente de raça, cor ou fé.

Será este um sonho ou uma esperança?

O tempo dirá.  TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

JUAN ARIAS É JORNALISTA, ESCRITOR  E CORRESPONDENTE DO JORNAL ESPANHOL , EL PAÍS NO BRASIL

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