Síndrome de Maria Antonieta

Com a Primavera Árabe, as elegantes esposas dos autocratas locais viraram alvo de repúdio popular. Que o diga a Rainha da Jordânia, linda, culta, prestigiada no exterior e acusada de corrupção

REVISTA SÁBADO, EL PAÍS, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2011 | 03h08

ENRIC GONZÁLEZ

Rania al- Abdullah, nascida Rania al-Yassin, incorpora todas as contradições do país em que reina. E mais algumas: no exterior ela é popular, considerada uma das mulheres mais influentes do mundo, ao passo que na Jordânia é difícil encontrar alguém que fale bem dela. Rania parece ter se convertido no ponto mais fraco de uma monarquia ainda muito prestigiada. Desde que, em fevereiro, um grupo de representantes das tribos jordanianas acusou-a de corrupção, algo substancial mudou no reino. A família não é mais intocável. O tabu foi quebrado. E isso por causa de Rania.

A rainha da Jordânia não é a única atingida pelo que a revista Slate chamou de "síndrome de Maria Antonieta". Como a rainha Maria Antonieta na Revolução Francesa, as elegantes esposas dos autocratas árabes se converteram em símbolos da rejeição popular. Asma Assad, mulher do presidente sírio, há apenas alguns meses aparecia exibindo seus vestidos na Vogue e afirmava que a Síria era "o países mais seguro do Oriente Médio". Agora seu paradeiro é desconhecido. Jadiya el-Gamal, esposa do filho de Hosni Mubarak que seria seu sucessor, era cliente dos mais caros estilistas e cirurgiões plásticos. Hoje é a mulher de um recluso. Leila Trabelsi, a gananciosa esposa do ex-presidente da Tunísia Ben Ali, vive refugiada na Arábia Saudita.

Rania é um caso especial, porque o regime jordaniano tem maior flexibilidade que o restante das autocracias árabes e até agora não foi tragado pela onda revolucionária. Além disso, ela se esforça para melhorar as condições de vida de mulheres e crianças e tem tido êxito nessa empreitada. Contudo, sua situação não é diferente da de outras rainhas árabes do luxo e das revistas de moda: é vista como uma mulher cheia de privilégios e alheia à realidade dos seus súditos. Além do que é palestina num país com um problema palestino. E intervém nas decisões políticas, num país conservador e machista.

A Jordânia é um país pequeno e complexo. Sua população de 6,5 milhões está dividida em dois: os transjordanianos, das tribos nativas da margem oriental do Jordão, que formam a base histórica da monarquia, e os palestinos, deslocados da margem ocidental do rio pelas guerras decorrentes da criação de Israel e o rechaço árabe ao novo país. A migração palestina passou por um momento traumático no chamado Setembro Negro, de 1970, quando o rei Hussein confrontou as milícias palestinas da Organização de Libertação da Palestina (OLP), expulsando-as do país. Mas de um modo geral a Jordânia é mais acolhedora no tocante aos refugiados que os demais países da região.

A divisão, de qualquer maneira, permanece. Existe um pacto tácito pelo qual os transjordanianos desfrutam de um monopólio sobre a administração pública e o Exército e se beneficiam das subvenções estatais, ao passo que os palestinos, a quem se atribui com certa razão um notável dinamismo empresarial, dominam o setor privado.

Rania é de origem palestina, embora tenha nascido no Kuwait, em 31 de agosto de 1970. Seus pais, da família Al-Yassin, deixaram a aldeia de Tulkarm, no norte da Cisjordânia, e emigraram para o Kuwait, onde enriqueceram. Rania estudou ciências econômicas na Universidade Americana do Cairo e logo depois voltou a viver com a família em Amã, capital da Jordânia, onde seus pais se estabeleceram após a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990. Ela trabalhou para o Citibank e a Apple. Abdullah, filho mais velho do rei Hussein, conheceu-a em 1992.

Ele era um oficial do alto escalão do Exército e não pensava em absoluto que um dia se tornaria rei; o príncipe herdeiro era Hassan, seu irmão, e Abdullah, educado na Inglaterra e Estados Unidos, havia traçado um plano de vida mais ou menos confortável: tornar-se general, fazer paraquedismo, dirigir carros esportivos e ir a grandes festas, segundo revela na autobiografia A Última Grande Oportunidade.

Por isso, seu casamento com uma palestina não suscitou grandes problemas.

A situação começou a mudar no final de 1998, quando ficou claro que o rei Hussein estava morrendo de câncer. Amã fervia com rumores sobre as más relações entre a rainha Noor, quarta esposa de Hussein e muito popular no reino, e a esposa de Hassan, príncipe herdeiro. Noor pressionava o marido, Hussein, para mudar seus planos de sucessão e deixar o trono para Hamzá, o primogênito do casal. Hussein, sem consultar ninguém, adotou uma solução intermediária. Em janeiro de 1999, prestes a morrer, o rei convocou Abdullah e anunciou que seria nomeado príncipe herdeiro, em prejuízo de Hassan. Também sugeriu que, quando ocupasse o trono, nomearia como herdeiro Hamzá, o candidato da sua mulher.

O rei Hussein faleceu em 7 de fevereiro de 1999 e Abdullah se tornou rei. Rania adotou o título de princesa real. Noor manteve o título de rainha e Hamzá assumiu a função de príncipe herdeiro. Esse equilíbrio desejado por Hussein foi quebrado em semanas. Em 21 de março, o rei Abdullah nomeou sua mulher rainha da Jordânia. A viúva, Noor, seguiu no dia seguinte para os EUA. "Desde então minha relação com Noor tem sido fria", admite Abdullah na autobiografia. Anos depois, Hamzá perdeu a posição de herdeiro para outro Hussein, filho de Abdullah e Rania.

A população jordaniana, em geral conservadora e religiosa, começou a desconfiar da rainha. Não gostava de suas roupas ocidentais de luxo, de que ela aparecesse constantemente nas revistas de moda e de que saísse pelo mundo com a cabeça descoberta, mostrando personalidade. E gostava muito menos dos rumores sobre sua influência política no palácio. Às suas atividades nas áreas da educação, proteção da infância, direitos da mulher e do diálogo inter-religioso, por meio de fundações próprias ou em coordenação com organismos internacionais como ONU e Unicef, Rania acrescentava um nítido poder institucional: participava de reuniões políticas com o marido e não escondia suas opiniões.

Estamos falando da primeira década do século 21, quando, clandestinamente, começava a fermentar a agitação sob o nome de Primavera Árabe. Estamos falando da década marcada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 e da guerra contra o terror, anos em que as autocracias árabes intensificaram a repressão e em que ocorreu uma explosão demográfica.

Em 2010 a rainha Rania, comemorando com grande pompa seu 40º aniversário, levou 600 convidados para o belo deserto de Wadi Rum (cenário do filme Lawrence da Arábia), iluminou os penhascos com um gigantesco painel elétrico com o número "40" e ofereceu comidas e bebidas esplêndidas. Rapidamente surgiram comparações com o luxo de Persépolis, prelúdio da queda do xá da Pérsia (hoje Irã).

Pouco depois houve a gigantesca revelação de telegramas diplomáticos pelo WikiLeaks. Os jordanianos, tanto transjordanianos como palestinos, comprovaram que o protagonismo político de Rania fazia jus aos rumores. Nos telegramas da embaixada americana eram comentados tanto as opiniões de Rania (muito atuante nas advertências a Washington sobre a ameaça do regime iraniano à região) quanto o mal-estar que as mesmas provocavam nas tribos transjordanianas, base da monarquia. Houve algo que atingiu em cheio a sociedade jordaniana: o empenho com que a rainha impulsionou as mudanças legislativas em favor da mulher, entre elas a lei autorizando as mulheres a transmitir sua cidadania para os filhos. Isso foi interpretado pelos transjordanianos como um caminho para a nacionalização em massa dos palestinos, com a consequente vitória demográfica dos imigrantes da outra margem do rio.

O grande vazamento do WikiLeaks foi em dezembro. Naquele mês, em Sidi Bouzid, na Tunísia, um jovem vendedor de frutas se imolou em público, farto da pobreza e da repressão política. Era o começo da Primavera Árabe.

Os regimes corruptos da Tunísia e Egito caíram em pouco tempo. Irrompeu a guerra na Líbia. Os protestos na Síria desencadearam uma repressão cada vez mais sangrenta. Abdullah da Jordânia, monarca de tendência moderada, tomou precauções e aprovou uma série de medidas econômicas (aumento de salários do funcionalismo público, subvenções para certos produtos) para evitar que o crescente descontentamento no país, que se refletia nas manifestações, não tão numerosas, mas frequentes, não desembocasse numa crise. Paralelamente, promoveu uma reforma constitucional que Martin Beck, representante em Amã da fundação alemã Konrad Adenauer, que se dedica a promover valores democráticos e justiça social no mundo, qualificou de "tímida e insuficiente, mas na direção certa".

A crítica feita por 36 representantes tribais cisjordanianos em 11 de fevereiro, exatamente no dia em que o presidente egípcio era afastado, foi uma paulada. "Antes da estabilidade e comida, o povo jordaniano busca liberdade, dignidade, democracia, justiça, igualdade, direitos humanos e o fim da corrupção", dizia a declaração dos representantes tribais. Eles evitaram cuidadosamente qualquer crítica ao rei, mas não tiveram compaixão pela rainha, referindo-se à festa que ela promoveu no deserto de Wadi Rum ("rechaçamos esses aniversários escandalosos comemorados às expensas dos pobres e do tesouro nacional"). Vários artigos recentes da agência France Press falaram de supostas atividades de Rania no enriquecimento da família. Para os representantes tribais, Rania foi determinante para que a família Al- Yassin ficasse com grandes áreas de pastoreio, que, de acordo com a tradição, deviam ser devolvidas para as tribos após seu uso pelo Estado. Na declaração, os representantes tribais chegaram a comparar Rania com Leila e Suzanne, "presidentes cleptomaníacas" da Tunísia e do Egito.

O círculo da monarquia, mobilizado pelo rei, se insurgiu contra a jornalista da France Press Randa Habib, acusando-a de basear seus artigos em fofoca. Mas não houve represálias contra quem assinou a declaração. E, discretamente, o assunto das questionadas terras, no distrito de Balca, foi levado para os tribunais. "Em substância a denúncia, era correta", afirmou o jornalista Hani Hazaimeh, do jornal em inglês Jordan Times.

"A Jordânia está mudando e se tornando mais transparente, em parte por causa das reformas políticas, modestas, mas válidas, e sobretudo pela revolução nas comunicações", diz Hazaimeh. O jornalista assinala que a imprensa internacional tem mais liberdade, embora sejam as redes sociais as responsáveis pela mudança. "Na Jordânia, a internet chega a 47% da população e este é o maior índice de penetração no Oriente Médio; há mais de um celular por pessoa, o Facebook é muito popular e existem mais de 200 blogs que abordam, sem medo, assuntos políticos e a corrupção endêmica, o que mais preocupa os jordanianos", detalhou ele.

A Irmandade Muçulmana, a grande organização islâmica do Oriente Médio, está legalizada na Jordânia, mas não tem muita influência. Calcula-se que represente no mínimo 5% e no máximo 20% da população. A eficácia dos serviços secretos, a legitimidade do rei (descendente de Maomé, como membro da dinastia hachemita), a benevolência do regime e o temperamento no geral dócil dos jordanianos tornam o país mais estável do que a média na região. Ao mesmo tempo, a explosão demográfica (quase 70% da população têm menos de 30 anos, fazendo da Jordânia um país mais jovem que o Egito e a Líbia) e a falta de emprego ameaçam essa estabilidade.

Os transjordanianos, que representam menos da metade da população, diante do aumento no número de palestinos sentem-se especialmente afetados pela corrupção, já que em grande parte vivem do orçamento público e acham que os negócios escusos desgastam a riqueza nacional. Os palestinos, que dominam o setor privado, se queixam da corrupção porque prejudica as empresas. "Este países não tem água nem petróleo, vive de ajuda externa, especialmente da Arábia Saudita, e só pode prosperar se utilizar a fundo o alto nível de educação da sua população e seu espírito empreendedor", comentou um advogado palestino, especializado em auditorias.

O rei continua intocável, mas seu regime está sendo questionado. E as denúncias se concentram na rainha. "Rania não é popular, nunca foi e agora é usada para se criticar o rei por meio dela", disse o analista alemão Martin Beck. A posição de Rania é cada vez mais delicada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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