Sintomas da apatia estudantil

Ao contrário dos tempos do Vietnã, hoje quem protesta contra guerra do Iraque são os professores

Richard C. Paddock, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2007 | 17h18

Dan Lowenstein se opõe à guerra no Iraque. E tanto que, recentemente, ajudou a realizar um fórum de discussão contra a intervenção americana, na Universidade da Califórnia, em São Francisco. ''''Precisamos ouvir nossa consciência e expressar nossa opinião'''', disse ele às centenas de pessoas ali reunidas. Lowenstein não é um líder estudantil e, sim, o vice-presidente do Departamento de Neurologia da universidade.Com a guerra já no seu quarto ano, os protestos dos alunos pelos campi universitários americanos têm sido raros; em compensação, uma meia dúzia de acadêmicos começou a se manifestar abertamente e a conduzir estudos dentro de suas próprias disciplinas, justificando a oposição ao conflito. Lowenstein, o especialista em Neurologia, que participou de protestos contra a Guerra do Vietnã quando era estudante, acredita que a falta de imagens televisionadas mostrando em sacos os corpos dos americanos mortos, ou cenas do campo de batalha ou mesmo dos caixões voltando para casa, tem ajudado a manter os protestos num patamar mínimo. Por isso chama o conflito no Iraque de ''''a guerra silenciosa''''.Em Harvard, a professora de política pública Linda Bilmes é co-autora de um estudo que avalia o ônus da guerra: custará bem mais de US$ 1 trilhão, muito além das projeções do governo Bush. Bilmes também falou no fórum, onde a maioria dos presentes era feita de médicos ou estudantes de Medicina. ''''Por que não há indignação''''? perguntou a professora, que também foi secretária-assistente de Comércio no governo Clinton. ''''Por que os campi universitários não estão transbordando de alunos dizendo ''''O que está acontecendo aqui''''? Uma resposta é que não estamos vendo o verdadeiro custo da guerra''''.A falta de protestos pode ser atribuída, em parte, à mudança de perfil da clientela estudantil. Os universitários americanos de hoje estão mais preocupados em se formar, entrar no mundo do trabalho e ganhar dinheiro. E, diferentemente da guerra no Vietnã, o conflito no Iraque, hoje, não está se desenrolando contra um pano de fundo de protestos a favor dos direitos civis, nem no bojo de uma rebelião da contracultura. Além disso, Bush tem sido habilidoso em limitar os efeitos negativos em casa, controlando imagens dos mortos e recusando-se a dar informações sobre o número de americanos feridos, bem como o total de baixas no Iraque.O resultado é que mesmo estudantes ativistas encontram outras questões mais fáceis de abraçar. Em maio, dezenas deles fizeram uma greve de fome e atrapalharam a reunião do Conselho Administrativo da Universidade da Califórnia, questionando a participação da universidade no desenvolvimento de armas nucleares. Em maio, alunos de Stanford, também na Califórnia, promoveram uma paralisação diante do gabinete do reitor, simplesmente para protestar contra o uso de trabalho semi-escravo na confecção de roupas com o logotipo da universidade. Alunos mais exaltados chegaram a tirar a roupa para chamar atenção. A administração de Stanford cedeu.Daniel Shih, aluno destacélebre instituição e um dos líderes do protesto, disse que tinha certeza de que os manifestantes contra o trabalho semi-escravo se opunham à guerra no Iraque. Aos olhos de todos, no entanto, pareceu ter transformado o objeto de protesto em algo intangível. ''''A guerra no Iraque é uma questão importantíssima, porém desconectada da nossa realidade'''', avaliaria mais tarde. ''''Nesta instituição, acabamos por concentrar nossa influência nas políticas administrativas. Com a campanha contra o trabalho semi-escravo, sentimos que podemos fazer uma mudança concreta''''.Mark Rudd, ex-líder da violenta Weather Underground Organization (movimento radical de oposição à Casa Branca, que perdurou boa parte da década de 70), disse que muitos dos estudantes de hoje são contrários à guerra, mas faltam-lhes capacidade de organização e a crença de que podem fazer a diferença. ''''Há muita gente nos campi que é contra a guerra, só que não sabem o que fazer'''', disse Rudd, que lecionou matemática numa faculdade comunitária no Novo México, por 25 anos, até se aposentar em dezembro. ''''Falta aquele sentimento de que ações individuais podem significar algo. O oposto acontecia nos anos 60''''. Naquele tempo, a possibilidade de ser convocado com a idade de 18 anos, levou os estudantes a tomarem posições de real confronto.O motivo primordial para a ausência de protestos ''''é a ausência de recrutamento'''', argumenta Tom Hayden, ex- ativista pelo fim da guerra do Vietnã, que mais tarde chegou a ser deputado. Hayden escreveu e recentemente lançou o livro Ending the War in Iraque (Acabando com a Guerra no Iraque). ''''Se houvesse a convocação obrigatória, haveria mil tumultos na semana seguinte.''''O envolvimento de professores e conferencistas ligados à Universidade da Califórnia, na campanha contra a guerra do Iraque, vem ganhando estridência. No recente fórum, Bilmes, a representante de Harvard, disse à platéia que estima o custo da guerra entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões. Sua avaliação apóia-se em trabalho escrito conjuntamente com o economista Joseph Stiglitz, da Universidade Columbia, detentor de um prêmio Nobel. Os cálculos da dupla vão muito além dos gastos militares, incluindo despesas como benefícios médicos para os futuros veteranos, hoje feridos em combate. Trata-se de um ônus que o governo americano deverá assumir por décadas.À medida em que a guerra se arrasta, mais acadêmicos manifestam suas opinião. ''''O corpo docente está acordando de manhã e sente-se fisicamente doente ao ler os jornais'''', comenta Bilmes. A platéia do fórum também ouviu outros três professores inflamados da Universidade da Califórnia. Um deles falou sobre o trauma psicológico para crianças nas zonas de guerra e outros dois descreveram a alta porcentagem de danos ao cérebro, sofridos pelos soldados americanos. Richard Garfield, professor de enfermagem de Columbia, traçou as linhas gerais de estudos epidemiológicos feitos no Iraque por médicos de lá e colegas americanos, em 2004 e 2006: concluiu-se que o número de baixas de iraquianos foi muito mais alto do que se acreditava anteriormente. O estudo de 2006, ao pesquisar 1.849 domicílios selecionados aleatoriamente em 47 comunidades iraquianas, prova que 655 mil cidadãos deste país tombaram nos conflitos. O trabalho foi publicado na Lancet, uma respeitada revista médica britânica, entretanto recebeu críticas do presidente Bush ''''por usar uma metodologia deficiente''''.Lowenstein não acha que é coincidência o fato de que ele e outros tantos médicos americanos estejam virando críticos declarados da guerra. A população pode estar sendo mantida à distância dos fatos, mas o médicos vêem os estragos. E fazem seu diagnóstico. Quando se lembram do saldo negativo do Vietnã, não vêm razões para calar.

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