Síria? Não agora

Enquanto Putin desfruta do brilho da Olimpíada, a Rússia bloqueia obstinadamente a ajuda a desesperados civis sírios

MARK MALLOCH-BROWN, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h08

O presidente russo Vladimir Putin apresenta orgulhosamente a Olimpíada de Inverno de Sochi - mas sua política externa para a Síria não condiz com os ideais olímpicos. Passada apenas uma semana desde que seu próprio ministro das Relações Exteriores propôs um cessar-fogo humanitário na Síria durante os jogos, o governo de Putin tornou-se o principal obstáculo para a aprovação de um resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que transformaria todas as boas intenções em atos.

Moscou deve insistir para que o governo sírio permita que auxílio humanitário seja oferecido a sírios que estão morrendo de fome e sofrendo com a falta de cuidados médicos em decorrência dos sítios armados pelas forças de Bashar Assad. Mas, até o momento, os russos não demonstraram nenhum sinal de apoio às propostas da ONU: o enviado Vitali Churkin destacou na semana passada que a Rússia era "contra a adoção de uma resolução por parte do Conselho de Segurança", argumentando que "o momento não é propício".

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De acordo com a ONU, cerca de 242 mil sírios enfrentam hoje situações de privação extrema - e até o risco de morrerem de fome - nas cidades sitiadas. Com as fotos de crianças sírias estampando as manchetes, a verdade é que não há tempo a perder.

A Síria tem obstruído deliberadamente as operações de auxílio, impedindo a entrada de comboios nas regiões controladas pela oposição. Após um imenso esforço, todos os envolvidos concordaram em fazer uma pausa de três dias nas hostilidades para permitir na semana passada a chegada de ajuda à cidade antiga de Homs, controlada pelos rebeldes. O vice-ministro russo das Relações Exteriores foi imediatamente ao Twitter afirmar que tal acordo "prova que os problemas humanitários da Síria só podem ser solucionados por medidas concretas, e não com a adoção das politizadas resoluções do CSONU".

A verdade é exatamente o contrário.

O acordo de Homs foi passo pequeno, importante, mas não chegou a representar um avanço revolucionário. Alívio parcial para os 2.500 sírios sitiados em Homs não muda a situação de cerca de 3 milhões de sírios em dificuldades em outras partes do país. E, embora cerca de mil pessoas tenham sido retiradas da área, os funcionários da ONU encarregados da distribuição do auxílio foram alvo de morteiros e sírios foram mortos enquanto esperavam ajuda.

O acordo de Homs também traz a preocupação com o fato de o governo sírio estar distorcendo suas obrigações de acordo com as leis dos conflitos armados para intensificar a repressão. Mais de 300 homens de idades entre 15 e 54 anos se renderam às autoridades sírias como parte da retirada de civis de Homs. Esse grupo está passando por uma "triagem", e seu destino é incerto. Como observou essa semana o primeiro-ministro britânico, David Cameron, o conflito traz preocupantes ecos do massacre de Srebrenica, na ex-Iugoslávia - no qual homens foram separados das mulheres e crianças e, subsequentemente, massacrados. Existe também a possibilidade de uma vingança contra aqueles que permanecerem em Homs após a operação de retirada dos civis, pois o governo da Síria pode afirmar que apenas "terroristas" ficaram.

O Crescente Vermelho Sírio (CVS), organização humanitária responsável pela distribuição de auxílio no país, concorda que há maneiras melhores de oferecer ajuda. O CVS destacou que uma oferta anterior do governo sírio permitindo a retirada de mulheres e crianças em troca da preparação de uma lista com os nomes dos homens que permaneciam na cidade resultaria "na separação das famílias e, possivelmente, em hostilidades mais intensas contra os civis que lá permanecerem". O CVS disse em vez disso que todos os envolvidos deveriam ser pressionados a proporcionar acesso livre e seguro para os comboios de médicos e auxílio em todas as partes da Síria.

O governo Assad impede também a chegada de auxílio vindo da vizinha Turquia e criou obstáculos para a entrega de ajuda às áreas controladas pela oposição por parte de outros países. Além disso, o regime brincou com os comboios também dentro do país, obrigando-os a percorrer rotas tortuosas e perigosas que consumiram até dez vezes mais tempo que a rota direta.

Tais políticas ignoram completamente as obrigações da Síria de acordo com o direito de guerra, segundo o qual deve-se permitir a chegada de auxílio a todos os civis que dele necessitarem. Mas o governo não é o único responsável: grupos de oposição sitiaram e negaram acesso a assistência humanitária a milhares de civis em cidades xiitas como Zahra e Nubbul, considerados por eles favoráveis ao governo. A hostilidade de alguns elementos islâmicos radicais contra o auxílio internacional também representa um imenso risco para os funcionários das agências humanitárias - sem que muitos dos países do Golfo Pérsico manifestem indignação, pois é deles que supostamente se origina o financiamento para tais grupos.

Putin tem argumentos: as atrocidades na Síria não podem ser depositadas exclusivamente na conta do governo. Independentemente disso, em se tratando de deter esses crimes de guerra, a responsabilidade cabe à Rússia, principal defensora da Síria na ONU. E, após o acordo envolvendo armas químicas promovido no segundo semestre do ano passado pela Rússia e pelo governo americano, o silêncio do conselho diante da catástrofe humanitária na Síria se tornou cada vez mais insustentável.

A Rússia apoiou uma declaração presidencial menos influente do CS feita no dia 2 de outubro. A coordenadora de auxílio humanitário da ONU, Valerie Amos, investiu grande esforço na tentativa de vencer o impasse, sem sucesso. A Rússia tem agora uma oportunidade para ajudar a solucionar a crise humanitária ao apoiar uma robusta resolução do CS exigindo trânsito seguro para os comboios de auxílio destinados aos civis. Tal resolução deixaria claro para o governo sírio que, desta vez, Moscou está falando sério - e traria o espírito de Sochi ao povo da Síria. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

MARK MALLOCH-BROWN FOI VICE-SECRETÁRIO-GERAL DA ONU, EX- SECRETÁRIO DE ESTADO BRITÂNICO DE RELAÇÕES EXTERIORES. ATUALMENTE,  PRESIDE A FTI CONSULTING. ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA FOREIGN POLICY

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