Groive Press
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‘Small Things Like These’, uma joia de romance

Os maiores presentes vêm nos menores embrulhos é uma expressão em voga em anúncios de joias, não em resenhas de livros

Rob Merrill, Associated Press

03 de dezembro de 2021 | 10h00

Em apenas 114 páginas, o livro Small Things Like These sapresenta aos leitores Bill Furlong, um comerciante de carvão de uma pequena cidade irlandesa. “Furlong veio do nada”, escreve Keegan. Sua mãe tinha apenas 16 anos quando ele nasceu, logo depois da Segunda Guerra Mundial, e ele nunca conheceu o pai. Eles sobreviveram graças à gentileza da patroa da mãe, uma viúva rica com vários empregados domésticos. O ano é 1985 e os estudantes de história irlandesa colherão algo da dedicatória: “Esta história é dedicada às mulheres e crianças que sofreram em lares de mães, bebês e lavanderias Magdalen na Irlanda”. Leitores que ignoram a história irlandesa terão de esperar pela “Nota sobre o texto” no final do romance para entender o contexto.

Seja antecipado ou postergado o contexto, ainda é uma história profundamente comovente. Furlong é pai de cinco meninas preso numa rotina. Levanta-se antes do nascer do sol para supervisionar o trabalho no depósito de carvão e se deita na cama com a esposa após o fim de cada longa jornada, repassando coisas que precisam ser feitas ou compartilhando fofocas que ouviu durante as entregas do dia. É esse ato simples que dá título ao romance: “Algumas noites, Furlong ficava deitado com Eileen, repassando coisas pequeninas como estas”, escreve Keegan.


Mas as coisas mais ínfimas costumam ter implicações muito maiores, como os leitores logo entendem. Um belo dia, entregando carvão para o convento local, Furlong se depara com “mais de uma dúzia de jovens e meninas, todas de joelhos com uns trapos velhos e latas de cera de lavanda, polindo o chão com todo o vigor”. O senhor não quer ajudar?, entoa uma das garotas, cujo “cabelo tinha sido cortado com rudeza, como se alguém cego lhe tivesse passado a tesoura”. O encontro afeta Furlong profundamente e a segunda metade do romance o mostra refletindo sobre sua própria criação, ao mesmo tempo em que o empurra para tomar sua decisão. Ele vai ficar quieto ou vai ajudar?

A economia da prosa de Keegan é uma maravilha. Aqui está Furlong, de volta ao convento, prestes a se encontrar com a Madre Superiora: “Furlong olhou para o rio escuro e brilhante cuja superfície refletia a cidade iluminada. Tantas coisas pareciam melhores quando não estavam muito perto. Ele não sabia dizer o que preferia: a vista da cidade ou seu reflexo na água”.

Você não vai levar muito mais de uma hora para ler o livro, mas, mesmo assim, quando chegar ao final, vai sentir que conhece Bill Furlong e entende por que ele faz o que faz. Sua história de heroísmo silencioso não precisa de nem uma palavra a mais. / Tradução de Renato Prelorentzou

Small Things Like These

Claire Keegan 

Editora: Grove Press 

128 páginas 

$ 20,00 (livro) $ 13,00 (Kindle) 

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