Só com uma nova Idade da Terra

O homem já alterou a atmosfera do planeta. A ecologia tem de se unir à ciência para tentar reduzir o estrago

Márcia Macul e Sérgio Prado, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2009 | 10h45

Sabe-se que 80% da humanidade está inserida no modelo urbano inventado há mais de 7 mil anos - aglomerações que vêm se tornando as principais responsáveis pelos problemas que ameaçam a Terra. As cidades utilizam 80% da energia consumida pelo homem e contribuem em proporção igual para o aquecimento e contaminação do planeta. Basicamente são aquelas situadas nos países em desenvolvimento, onde a carência de serviços como água corrente, eletricidade e falta de higiene tornam os ambientes cada vez mais insalubres, desagradáveis e conflitivos - quadro que se agrava dia a dia, acrescido das gigantescas enchentes e secas ocorrendo em nosso próprio país. Se essa população que ali reside não for imediatamente preparada e educada para perceber mudanças necessárias no contexto urbano, os desastres serão irreversíveis. Metade da população da metrópole de São Paulo vive excluída territorialmente da cidade - com crescentes deficiências de serviços de habitação, água, esgoto, transportes. Sua produção de lixo soma 35 mil toneladas /dia (18 ml t domiciliares e 17 mil t em entulho de obras) e não há sinal de projetos dignos de serem aqui enumerados. Cada cidadão produz hoje 2 kg de lixo/dia e 99% dos produtos consumidos são descartados no prazo máximo de seis meses, sendo que o pobre tem acesso a somente 1% do volume da economia, desequilibrando geometricamente o todo.

 

O lixo aumenta, mundialmente, de 8% a 10% ao ano e o índice de reaproveitamento em São Paulo mantém-se igual há cem anos, por volta de 1%. Os órgãos municipais e mesmo o Ministério Público parecem não se incomodar com o acúmulo e depósitos insalubres nos aterros sanitários e lixões a céu aberto.

 

Essa realidade foi esplendidamente mostrada em uma animação de Walt Disney, Wall-E . A Terra é um planeta onde só restaram detritos, os habitantes voaram para outro mundo, um shopping de lazer, onde, robotizados, se deleitam em piscinas e compras, em eterno repouso.

 

Viver com qualidade socioambiental significaria hoje ter total controle dos resíduos produzidos pelo homem, não descartá-los ou queimá-los sem dar satisfação. Metrópoles ricas como Nova York e Otawa têm trens especiais para levar seus restos a 500 km e 800 km de distância. O litoral norte do Estado de São Paulo, bem mais pobre, não tendo trens especializados, carrega os seus resíduos em caminhões que sobem a serra, poluindo o entorno ininterruptamente, até chegar à cidade de Tremembé. Em todos os casos, são situações sem precedentes, visto o espetáculo de consumismo a que fomos levados, subliminarmente, chegando a este atual estado negativo de vida.

 

O homem já alterou decisivamente a atmosfera e o clima do Terra (40%), aniquilou 35% das espécies vivas, espalhando substâncias químicas tóxicas pelo mundo, represou e poluiu a maioria dos rios (60%), elevou o nível dos mares e agora está perto de esgotar a água do planeta.

 

Assim, precisamos de maior urgência em nossa participação total no desenvolvimento sustentável - para o presente e para o futuro. O desenho urbano e a arquitetura necessitam unir ecologia e tecnologia em busca de pesquisas para reconstruir cidades e comunidades humanas sustentáveis - a ecologia aliando-se ao maior apoio científico para que as comunidades passem a ser rigorosamente geridas para produzir o menor impacto possível sobre o meio ambiente, funcionando como verdadeiras cidades verdes sustentáveis.

 

Tomando como princípio-base o fato de o Brasil ser o maior sistema hídrico do planeta e de maior captação solar, seu problema não é a falta de energia, mas sim a falta de distribuição correta das fontes naturais. Para tanto, se torna imprescindível evitar e reaproveitar os desperdícios - burocráticos, técnicos e produtivos. Diante dessa crise entrópica, convém formular soluções para uma nova cidadania, ciclicamente estruturada no reaproveitamento de todos os resíduos descartados, numa dinâmica estável e lucrativa do consumo ao "com sumo". O símbolo desse paradigma é uma nova bioeconomia pragmática a criar um novo PIB e selo verde - transformando este desgaste em nova energia e elementos construtivos limpos, numa práxis contínua de arquitetura sustentável. Arquitetura que não consuma nem deprede a natureza, reponha e reaproveite serviria como educação, ensinamento e capacitação para as pessoas. Todos os resíduos (plásticos, orgânicos, minerais, pneus, óleo de cozinha e lodo) podem ser totalmente reaproveitados como novos bens duráveis, como elementos úteis para a construção sustentável (pisos, blocos, painéis de paredes, telhas). Em tal patamar de bem-estar, usinas "limpas" receberiam esses descartes inesgotáveis e contínuos e máquinas esterilizariam, secariam, picariam e ensacariam essa inédita matéria-prima com energia própria renovável. Novas resinas biodegradáveis, como o poliuretano vegetal (vindo das oleaginosas, as mesmas plantas que fazem o biodiesel e o bioquerosene), amalgamariam e encapsulariam todo essa matéria já inerte, tornando-a mais resistente que os atuais produtos do mercado tradicional. Rompendo a cadeia viciada de descarte/transporte/depósitos contaminantes em aterros, surgiria um ciclo sustentável de energia e matérias limpas e passíveis de novos tratamentos.

 

Capaz de solucionar as crises sociais, ambientais, econômicas, a trilogia do atual projeto de lei 1269/07, na Assembleia Legislativa de São Paulo - lixo zero, arquitetura sustentável, energia renovável -, tem a meta possível de novas instalações emblemáticas, bastando uma ação política responsável de cidadania e cooperação local/global. Novos materiais com origem comprovada, a produção limpa e uma destinação correta são três itens significativos de um verdadeiro selo verde.

 

A previsão de 9 bilhões de seres humanos no final deste século é alarmante se não se encontrar meios de vida sustentável para o mundo inteiro. Sabe-se que cada geração vive da herança recebida das civilizações precedentes. É assim que há, em todas as épocas, os benefícios acumulados, tais como o capital humano (conhecimentos, técnicas, ciência), o capital artificial (edifícios, infraestrutura) e um importante capital natural (água, ar, diversidade biológica). As consequências poderão ser catastróficas se não se cuidar da natureza devastada da atualidade, em que casas e cidades já causam estresse, violência e transtornos a boa parte da civilização. Esta é nossa nova Idade da Terra, que não se cansa de ter esperanças.

 

*Arquitetos, ambientalistas, criadores da ONG Verdever

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