Só mais um pouco de teatro político

Os milhões de donos de armas nos EUA representam milhões de votos. Os congressistas terão coragem de mexer com eles?

KENNETH SERBIN É CHEFE DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h09

KENNETH SERBIN

Para além da morte de 26 pessoas, entre as quais se incluíam 20 crianças, o mais trágico no massacre de Newtown é o efeito demonstração. Dado o ritmo em que os assassinatos em massa vêm ocorrendo nos EUA - aproximadamente dois por ano, desde 1982 -, a triste realidade é que, inspirado pelo feito macabro de Adam Lanza, outro atirador já deve estar se preparando para entrar em ação.

Numa cerimônia em homenagem às vítimas, o presidente Barack Obama, proferiu um de seus mais comoventes discursos. "Esta é nossa tarefa primordial: cuidar das nossas crianças", afirmou. "Se não fizermos isso direito, nada dará certo. É com base em nossa capacidade de cumprir essa missão que nós, como sociedade, seremos julgados. (...) Estaremos realmente dispostos a nos declarar impotentes diante de uma carnificina como a que aconteceu aqui? Teremos coragem de dizer que nada pode ser feito porque os interesses em jogo são muito poderosos? Ousaremos afirmar que tamanha crueldade feita a nossas crianças ano após ano é, de certa forma, o preço a pagar por nossa liberdade?"

Obama prometeu agir. Determinou que o vice-presidente, Joe Biden, comande um esforço interministerial para impedir que as armas cheguem às mãos de assassinos em massa. A equipe de Biden deverá apresentar uma proposta de legislação no fim de janeiro de 2013. Obama indicou vários itens que devem constar da proposta, como o restabelecimento da proibição às armas semiautomáticas, aprovada pelo Congresso em 1994, no governo democrata de Bill Clinton. Na época, foi o então senador Biden quem liderou o movimento pela adoção de uma lei que impedisse a comercialização desse tipo de arma nos EUA. Implementada por um período de dez anos, a proibição expirou em 2004, no governo do republicano George W. Bush, cujo partido sofre enorme influência dos intransigentes defensores da Segunda Emenda à Constituição, que garante aos cidadãos americanos o direito ao porte de arma.

Obama e os que apoiam o controle de armas, entre os quais se incluem parentes de vítimas de massacres anteriores, enfrentarão um dos maiores, mais influentes e mais culturalmente entrincheirados grupos de interesse dos EUA: os proprietários de armas e sua organização lobista, a National Rifle Association (NRA), que diz ter 4 milhões de associados. A NRA oferece cursos de tiro, patrocina clubes de tiro, organiza exibições de armas e defende a Segunda Emenda à Constituição. Nas palavras de um comentarista pró-NRA: "Neste país, a cultura das armas tem quatro séculos de história".

Em minha infância, nos anos 70, vários de meus vizinhos tinham armas em casa. Eu estava com uns 7 anos quando um outro menino, na minha frente, efetuou um disparo com uma arma numa área florestal. Na adolescência, vi a coleção de armas de um vizinho ocupando espaço numa parede de sua casa - a família do sujeito tinha um cofre inteiro para guardar munição. Na garagem de outro vizinho havia uma coleção de rifles que foi parar na mão de ladrões, deixando minha família preocupada. Houve também uma vez em que um vizinho bebeu demais e se pôs a ameaçar a mulher e a filha pequena com a pistola que guardava no quarto.

A NRA cresceu no contexto de uma história marcada, internacionalmente, por violentas intervenções militares, e, internamente, por uma cultura esportiva em que predomina a experiência selvagem do futebol americano, um esporte que, para a alegria de milhões de fãs, adota a expressão nazista "blitz" a fim de expressar sua ênfase na agressão. Calcula-se que existam 300 milhões de armas nos EUA - quase uma para cada cidadão americano. Ao anunciar a nova incumbência de Biden, Obama chamou a atenção para a violência associada às armas, que causam a morte de 10 mil americanos todos os anos. E contou que, após o massacre de Newtown, outras oito pessoas já foram atingidas com armas de fogo: quatro mortos e quatro feridos, inclusive uma criança de quatro anos.

Nenhum político quer incomodar a quase sacrossanta NRA. Como os exilados cubanos de Miami, que, num mundo pós-comunista, impedem o fim do surreal embargo a Cuba, a NRA se mantém a salvo do antagonismo dos políticos, pois esses não podem abrir mão dos votos dos proprietários de armas. Os líderes políticos americanos jamais promoveram, de maneira efetiva, um debate nacional sobre o controle de armas.

Na quarta, um repórter exasperado indagou a Obama: "Por que o senhor se esquivou?", em relação à questão das armas. Obama não incluiu o controle de armas entre os temas de suas campanhas presidenciais de 2008 e 2012. Um comentarista político lembrou que, depois do massacre em Tucson, no Arizona, que por pouco não custou a vida da deputada Gabrielle Giffords, seus colegas no Congresso não fizeram nada. Alguns políticos e comentaristas acreditam que as coisas serão diferentes depois de Newtown.

"Sabemos que se trata de uma questão que mexe com paixões e divergências políticas arraigadas", disse Obama. "Mas o fato de que seja um problema complexo não pode mais servir de desculpa para que não façamos nada." De sua parte, além de uma nota breve expressando consternação, na qual dizia estar "pronta para oferecer contribuições relevantes no intuito de garantir que isso nunca mais aconteça", a NRA apenas repetiu a velha proposta de que haja um guarda armado em todas as escolas. Pesquisas indicam que cada vez menos americanos acreditam que a legislação sobre o porte de armas deva ficar mais rígida. Ao mesmo tempo, as taxas de criminalidade, incluindo homicídios, decresceram. E o principal tema da coletiva de Obama, mais do que o massacre de Newtown, foi a crise fiscal.

Em conclusão, é difícil dizer se os líderes americanos estão de fato comprometidos a dar um basta aos massacres ou se estão apenas empenhados em encenar mais uma rodada de teatro político.

/ TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.