Só o Capitão Marvel para fazê-los pagar

No sobressalto das más notícias, os crentes invocam Jesus. Aos incréus restam os super-heróis. Ou a realidade

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 23h01

Sexta-feira à tarde, ainda sob o impacto da chegada de Salvatore Cacciola ao Brasil, que me fizera lembrar daquela brincadeira anual da revista Esquire, "Está rindo de quê?" (e me reservo o direito de não especular se o motivo era a promessa de outro "acerto" com a Justiça brasileira), tentei em vão acompanhar um chat de Paul Levitz no Washington Post. Presidente de uma das maiores editoras de histórias em quadrinhos, a DC Comics, Levitz falaria do papel cultural de Batman e seu arquiinimigo, Coringa, e do atual boom de filmes inspirados em super-heróis. Vislumbrei por trás do explícito marketing de O Cavaleiro das Trevas, que acaba de estrear no mercado norte-americano, uma conversa sociológica e culturalmente promissora. E, como dizem os franceses, bien à propos. Como explicar o sempre renovado sucesso de Batman, O Homem-Aranha & cia? O Homem de Ferro, único lançamento do primeiro semestre a permanecer oito semanas no topo dos filmes mais vistos, faturou US$ 313 milhões em apenas três meses. Capitão América ressuscitou há pouco nos gibis. Super-Homem (70 anos no mês passado) voltará às telas em 2009. A explicação talvez esteja na sensação de desamparo provocada pelo noticiário nacional e internacional. Ao menor sobressalto por uma má notícia, os crentes logo invocam Jesus. Só ele, acreditam, poderia pôr um fim à malfeitoria geral, engaiolar todos os bandidos (que, mesmo libertados por ordem de algum juiz do STF, logo voltariam para atrás das grades), algemar todos os corruptos (sem exclusão do Cacciola), acabar com a fome e a miséria, recompor a camada de ozônio, frear os rompantes da natureza e convencer seu Pai de que até à teodicéia é preciso impor limites. E os incréus, como ficam? A que catárticas forças superiores podem recorrer quando deparam com todas aquelas desgraças de que as primeiras páginas não conseguem mais dar conta? Quem nos protegerá dos fora-da-lei? (Não serão os policiais venais e incompetentes.) E dos maganos de colarinho branco? (Não serão os magistrados coniventes.) E da corrupção dos políticos? (Os pizzaiolos com imunidade parlamentar?) Também para os descrentes, sublimar é preciso. Com super-heróis no lugar de Jesus. Pois cada um deles é um deus ex machina; ou melhor, se não me falha o latim, um deus ex papyro, um salvador de papel. Seus criadores os inventaram para compensar diversos tipos de frustração pessoal, oferecendo ao século 20 uma nova religião, pagã e politeísta, cuja prática também requer um desvio da energia da libido para um superego de ilimitados poderes, como o Capitão Marvel, dotado da sabedoria de Salomão, da força de Hércules, do vigor de Atlas, do poder de Zeus, da coragem de Aquiles e da velocidade de Mercúrio. Shazam vobiscum. Ou isso ou a queda na real. Com outras formas de escape. Mas para onde fugir, se não parece haver mais refúgios confiáveis no outrora chamado "circuito Helena Rubinstein"? As economias do Primeiro Mundo estão fazendo água. A crise atual, ao contrário das anteriores (Ásia, anos 90; Argentina, 2001), afetaram mais, se não quase exclusivamente, os países desenvolvidos. Basta ler The Economist, mesmo por alto, para sentir a extensão dos estragos. Nem a Suíça, supostamente imune até à "lógica do cisne negro" (ou os efeitos do inesperado sobre a economia, no jargão de Nassim Nicholas Taleb, cujo best seller a Record põe nas livrarias nesta terça-feira), escapou. O maior banco suíço, o UBS, abrigava até pouco tempo atrás um megaladrão, Bradley Birkenfeld, mestre em evasão de divisas, que já disse a uma corte na Flórida ser apenas uma peça na engrenagem de trampas fiscais administrada pelo UBS. Como certas "novidades" costumam chegar com atraso a estas bandas (a Lei Seca começou em 1920, nos EUA, e terminou em 1933), é possível que a crise econômica que ora castiga, com especial furor, os norte-americanos - e que, segundo Paul Krugman, deve durar, no mínimo, mais dois anos - aqui venha bater um dia. Possível, mas ainda pouco provável. Bem ou mal, com Dantas ou sem Dantas, nossa economia continua crescendo. Nos últimos 12 meses criaram-se 1,8 milhão de empregos formais; não nos ameaçam baques no setor financeiro, nem panes no mercado imobiliário; nosso etanol (de cana-de-açúcar) é muito mais promissor que o norte-americano (de milho). De mais a mais, não estamos em guerra com nenhum país.Em algum azulejo aprendemos que as crises são úteis porque nos ensinam preciosas lições. A de agora está ensinando aos fundamentalistas do livre mercado que o célebre truísmo de Ronald Reagan ("O governo não é a solução para o nosso problema; o governo é o problema") não era 100% à prova d?água. O pressuroso socorro do governo Bush aos dois pilares do refinanciamento hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac (bons nomes para uma dupla de acrobatas), deu a entender que o governo, às vezes, não apenas é uma solução, mas a única solução. As declarações pessimistas do presidente do Federal Bank (o banco central dos EUA), Ben Bernanke, na terça-feira, só vieram reforçar as suspeitas de que a "mão invisível" do mercado pode ser mais "boba" do que benigna. Bernanke pediu "mais autoridade" para o Fed entrar na estrutura e nos meandros dos mercados financeiros, a fim de assegurar a estabilidade na economia e controlar as atividades de quem toma e empresta dinheiro. R.I.P, Reaganomics.Essa é a terceira vez em cem anos que idéias econômicas, supostamente incontestáveis, são desmentidas pela dura realidade dos fatos. A Grande Depressão desacreditou as doutrinas radicais do laissez-faire da era Calvin Coolidge (1923-1929). A estagflação dos anos 70 e começo dos 80 minou as idéias do New Deal (1933-1938), ressuscitando o laissez-faire e instituindo a desregulamentação à outrance. O Pânico de 2008, como já estão chamando o que há seis meses teve início, "apressará o fim da era do capital supremo", vaticinou na semana passada o comentarista político da The New Republic, E. J. Dionne Jr., referindo-se especificamente aos abusos de empresários ávidos por lucros fáceis, que enriquecem de forma obscena quando suas jogadas arriscadas dão certo e nada pagam quando suas tacadas redundam em perdas e até catástrofes; quando, enfim, cacciolam.Caso mais recente: Franklin D. Raines. Chefão da Fannie Mae, de onde foi chutado depois de um rombo de US$ 6,3 bilhões, Raines ficou riquíssimo e continua solto. Como é amigo de Barack Obama, só implorando pela materialização do Capitão Marvel teremos chance de vê-lo pagar pelo que fez.

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