ESTADAO CONTEUDO
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Só uma foto na parede: nos objetos resgatados da lama em Bento Rodrigues, memórias de vidas perdidas

Um ano depois do rompimento da barragem da Samarco, moradores de Bento Rodrigues se apegam às histórias de objetos singelos resgatados da lama para relembrar uma identidade perdida

Daniel Camargos / MARIANA (MG), O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 16h00

Poucos conhecem a banda Hunimanos. Podem buscar no Google ou no YouTube, pois nem lá existem referências às 12 canções gravadas pelo sexteto sertanejo no disco com o nome do conjunto, em 1997. A junção de três duplas do interior mineiro foi inspirada nos Amigos, série de shows, discos e especiais de televisão gravados por Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano e Leandro e Leonardo, lá em 1995.

Tão pouco conhecidos os Hunimanos – e, ainda assim, um quadro sem moldura dos integrantes da banda, cheios de garbo, calças apertadas e mullets, apoiados numa cerca de madeira, acabou por se tornar peça fundamental na vida de José das Graças Caetano, de 63 anos. As 28 galinhas, os 15 passarinhos (canários, estrelinhas, tico-tico rei e papa-arroz, entre outros), os pés de abacate, laranja, mexerica e as hortaliças que se espalhavam pelo terreno de dois mil metros quadrados de Zezinho Café, como é conhecido, ficaram embaixo da lama em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG). Assim como a casa em que ele vivia.

“Quando voltei lá depois do desastre, só consegui pegar esse quadro”, recorda. Dentre todas as coisas a que se afeiçoou ao longo dos anos, só o quadro dos Hunimanos sobreviveu à tragédia do rompimento da barragem da mineradora Samarco, que completou um ano ontem. Zezinho tirou o revestimento de plástico da foto da banda, limpou direito e, como relíquia de uma vida que já não existe, pendurou-a na parede do apartamento para onde foi levado, no segundo andar de um prédio no Jardim Santana, bairro de expansão habitacional em Mariana.

Zezinho não disfarça o desconforto nesse apartamento, arejado e de piso branco de cerâmica, cujo aluguel a Samarco paga enquanto não começa a construção do que será a nova Bento Rodrigues, num terreno escolhido pelos atingidos. Divorciado, pai de cinco filhos e avô, ele vive sozinho no imóvel de dois quartos. Nem tão sozinho, pois providenciou oito passarinhos, cujas gaiolas se espalham pelas paredes, assim como o alpiste que as aves derrubam no chão.

Apaixonado pela música sertaneja, Zezinho ri da metáfora do repórter sobre o que mudou na vida dele. “Isso. Tô igual a um passarinho preso na gaiola aqui nesse apartamento”, disse o aposentado, que trabalhou boa parte da vida numa plantação de eucalipto em Bento Rodrigues.

Quando a barragem rompeu, Zezinho voltava de um banho na cachoeira do riacho Ouro Fino, pertinho de casa. “Escutei um zoeirão danado. Parei perto do colégio e gritaram pra correr, porque a barragem tinha estourado.” Ele correu para casa, pegou o carro – a chave ficava na ignição – e foi buscar a filha e a neta.

Nem todos escaparam. A lama matou 18 pessoas (uma vítima ainda não foi encontrada), aniquilou o ecossistema do Rio Doce e levou estragos até o Atlântico, interrompendo o abastecimento de água de dezenas de cidades e provocando o caos na vida de pescadores, agricultores e populações dependentes do rio. Uma série de falhas da Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, somada à fiscalização frouxa dos órgãos governamentais – como apontam os inquéritos da Polícia Federal e dos ministérios públicos Federal e Estadual – provocou o rompimento da barragem de Fundão.

“Se eu pudesse entrar em casa e pegar uma coisa só? É até ruim falar isso, mas eu ia querer meu aspirador de pó. Ele aspirava até água”, conta Zezinho. O aspirador, entretanto, tem uma história peculiar. Ele sempre quis comprar um, mas achava caro. Cinco anos atrás, passava na calçada em frente a uma loja de eletrodomésticos no centro de Mariana e foi chamado para participar de uma rifa. Incrédulo, hesitou, mas quando viu que o aspirador era um dos prêmios arriscou a sorte. O número dele era 25 e foi justamente o do aspirador. “Um baitão. Ele era bom demais.”

Vinte e cinco para as seis foi a hora que o relógio de José das Dores, de 72 anos, parou. O relógio de pulso foi um presente que ele ganhou por quase 20 anos de serviços prestados à extinta Alcan, fábrica de alumínio na vizinha Ouro Preto. “Não usava no pulso, deixava ele na prateleira do meu bar”, conta José, ou Juca, como todos o conhecem. Ele gostava tanto do relógio que tinha medo que estragasse se andasse com ele no braço.

Foi o único pertence pessoal que Juca conseguiu resgatar dos destroços. Um relógio que demonstrou força na engrenagem: só sucumbiu depois de uma hora e meia embaixo da lama. Cada morador recuperou o que pôde, pequenas lembranças de uma vida pregressa. A mulher de Juca, Jandira Sales, de 71 anos, recuperou a blusa que usou no casamento da filha, dias antes do rompimento. Jandira também encontrou a camiseta do Cruzeiro do filho, Cristiano José Sales.

“Estávamos lá revirando a lama e minha mãe gritou: ‘Tiano, vem cá! Olha o que eu achei’”, lembra o cruzeirense. A camiseta foi comprada em 2015, para comemorar o bicampeonato brasileiro consecutivo do time. Era considerada um amuleto, pois ele usou pela primeira vez no dia de uma vitória contra o Atlético-MG, por 3 a 1, no Estádio do Independência, quando o time azul celeste colocou fim a 11 jogos sem vitórias contra o Galo. Tirar o manto da lama, para ele, foi um novo sinal de – veja só – sorte.

Além da camisa, Cristiano, que é funcionário de uma empresa de ônibus e ministro da eucaristia, encontrou uma imagem do Menino Jesus de Praga e um crucifixo que ficava atrás da porta de casa, lá em Bento. “Esses objetos são tudo pra nós. É o que restou de memória da vida que vivemos antes.”

Após mostrar a camisa, Cristiano decidiu vesti-la e assistir ao jogo entre Cruzeiro e Vitória, no domingo passado, num bar de Mariana. Sorte novamente. O time dele venceu por 1 a 0 fora de casa. Em Bento, a turma de cruzeirenses se reunia no Bar do Sandra, na pracinha, do lado da Igreja de São Bento. “Aqui não é a mesma coisa. Mariana não é nosso lugar”, reclama o Toninho, ou Antônio Augusto Alves, mecânico numa empresa de ônibus que presta serviço à Vale.

Também cruzeirense, Toninho conseguiu recuperar a toalha com o escudo do time, que estendia no capô do carro em dia de jogo. Ele ainda encontrou, ao escavar o barro nos destroços de sua antiga casa, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, um garrafão de cachaça e duas garrafas menores. A bola de futebol que o irmão ganhou numa partida de sinuca também estava intacta. Juntou tudo numa caixa e levou consigo.

São objetos comuns, mas guardados por eles como preciosidades. “Foi o que conseguimos salvar, além de nossas vidas”, diz Toninho. Luciene, a mulher dele, tem a esperança de encontrar ainda os álbuns de fotografias, principalmente o que mostra a infância da filha, hoje aos 15 anos, e o casamento deles. Ruim não ter registro da infância do filho, ou do dia em que casou. Junto com Cristiano, Toninho forma a dupla de zaga do União São Bento Futebol Clube, o time do distrito. Taças e troféus, símbolos das conquistas da equipe verde e branca criada em 1950, infelizmente, foram carregados pela lama. “Mas recuperamos umas 10 camisas, duras de barro”, recorda Anderson Januário, de 29 anos, um dos técnicos do São Bento. “Agora estão limpas de novo.”

O time segue unido e treinando todo domingo, agora no campo do Marianense, alugado pela Samarco. Usam um jogo de uniforme novo, com desenho moderno. Mas quando Tião, como Anderson é conhecido, abre a gaveta e vê as camisas recuperadas sente a tristeza de novo. “É saudade demais da conta.”

Camuflagem. Quem caminha pelo que restou de Bento percebe uma planta estranha, espécie de vagem que não é nativa da região, e que foi semeada pela mineradora. Quando soube que a Samarco havia espalhado sementes da gramínea na lama – e notou que se tentava cobrir de novo o chão de Bento, como se uma vez só não bastasse – o promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais, determinou que a empresa de arqueologia contratada para recuperar peças sacras e restos das igrejas dos séculos 17 e 18 também preservasse os objetos pessoais dos moradores que descobrissem sob a lama.

“As peças contam a história da vida dessas pessoas. Elas já perderam suas casas, seus locais de convivência. Evitar que também as memórias sejam perdidas é o mínimo que podemos fazer”, diz o promotor. Por enquanto, os pertences estão guardados no ginásio de Bento, que não foi atingido pela lama tóxica. Segundo o promotor, ainda não há um prazo para que os moradores identifiquem os objetos e decidam com o que querem ficar.

Perto de uma autorização concedida pelo governador Fernando Pimentel (PT), entretanto, o estrago que a grama poderia provocar na memória é só um detalhe. Em setembro, um decreto determinou a desapropriação de áreas soterradas pela lama para que a Samarco construa o “dique S4”. A mineradora diz que a estrutura é fundamental para impedir que mais lama vaze com as chuvas. Já os atingidos lamentam que a construção do dique sepultará – de novo e de vez – a história deles.

Alguns objetos têm valor impossível de medir. O terço que Manoel Johnatan Fialho, de 28 anos, resgatou dentro do carro dele, por exemplo. Quem viu as imagens aéreas logo depois do rompimento ficou impressionado com um Chevrolet Astra em cima do telhado de uma casa. Era o carro de Manoel, ou Branquinho, como todos o conhecem.

Há um ano, quando a barragem rompeu, Branquinho tratava um câncer com quimioterapia. Poucos meses antes perdera a mãe, Creusa, vítima de um problema no coração. Foi ela que o ajudou a comprar o carro e que deu a ele um terço para proteção, que pendurou no espelho retrovisor interno. “Quando voltei lá apertei o controle do carro e o alarme funcionou. Eles poderiam ter recuperado meu carro!” Não obteve sucesso, mas conseguiu subir na parede da casa, entrar no veículo e pegar o terço lá de dentro. O amuleto o acompanha na boleia do caminhão em que labuta, transportando o minério retirado da região.

A poeira ferrosa que suja a lataria do caminhão de Branquinho é formada do mesmo substrato que impregnava como nódoa as roupinhas dos batizados dos filhos de Rosilene Gonçalves da Silva. Ela viu a lama chegar à altura da janela de casa. Um mês depois do rompimento foi garimpar na sujeira objetos do passado e encontrou a gaveta da cômoda de seu quarto. Dentro dela, sacos plásticos com as roupas usadas pelas três filhas mais novas no dia de seus batizados: Silvany, de 8 anos, Daiane, de 12, e Taís, 14 anos. Só a roupa de Whielerson, de 17, não foi encontrada. “O importante é que a família ficou bem.”

Rosilene também recuperou um quadro, que ela mesma fez com agulha e linha, de uma paisagem idílica, quando morava em Bento. Ela não gosta muito de olhar as recordações. “Vai dando uma coisa dentro que parece que está fechando. Um aborrecimento.” O quadro tem a parte de baixo da moldura carcomida pela lama. O olhar de Rosilene ao quadro pode remeter a um dos versos de Drummond sobre Itabira, em um dos seus poemas mais famosos – Confidência do Itabirano – ao tratar de sua cidade, berço da Vale, e da relação com a mineração: “É apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”.

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