Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Sob a bênção de João

Sua missão de ateu é dar uma segunda chance a quem ficou marcado pela prisão

Mônica Manir, de O Estado de S. Paulo,

28 de novembro de 2009 | 15h14

Vilson tem cor de marajá e dentadura de gente fina. É homem de voz mansa, que incide e reincide no discurso da inocência. Seu erro, diz, foi não saber falar "não". Aceitou feito cordeiro abrigar na sua chácara um senhor que estaria em dívida com três frequentadores do seu bar. Só foi perceber a cumplicidade no sequestro de um doleiro quando a polícia bateu na chácara e atou suas mãos com a cinta da sua calça. Na TV, Datena anunciava que a casa tinha caído para uma quadrilha de sequestradores de Sorocaba, "tudo bandido do PCC". Vilson, comerciário havia 15 anos na cidade, pegou esse mesmo tanto de pena para cumprir. Perdeu a família e os amigos, o negócio e o tino. Mas ganhou o amparo de Deus. E um emprego de João.

 

João tem corpo de peão e barba de corsário. É homem de sotaque goiano, que incide e reincide no discurso da segunda chance. Seu acerto, dizem, foi falar "sim" para a inclusão social. Há quatro anos ele emprega detentos e ex nas duas unidades de sua transportadora, uma em Sorocaba, outra em Uruguaiana. Seus caminhões comem asfalto do Recife ao Peru, carregando volumes que chegam a valer R$ 400 mil. João possui cacife de sequestrável e talvez por esse motivo seja discreto na mídia. Tem mãe, mulher, quatro irmãos e dois filhos. Ateu, perdeu o amparo de Deus porque quis. Mas ganhou uma legião de fiéis, que o chamam de anjo do Senhor.

 

Nem Vilson nem João haviam se dado conta do projeto Começar de Novo, divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça na TV e no rádio. O slogan do projeto: "Errar é humano. Ajudar quem errou é mais humano ainda". A missão: sensibilizar órgãos públicos e a sociedade civil para coordenar, no Brasil todo, propostas de trabalho e de cursos de capacitação profissional para presos e egressos do sistema penitenciário. "Não é uma alegoria", enfatiza o juiz Erivaldo Ribeiro, coordenador da proposta. "Trata-se de um direito do preso ser beneficiado com medidas de integração social." Erivaldo Ribeiro refere-se ao primeiro artigo da Lei 7.210, de Execução Penal. Para ser literal-literal, está escrito "harmônica" antes de integração, adjetivo ardiloso quando se trata do sistema penitenciário.

 

Na PII de Sorocaba ou Aparecidinha (por causa do bairro onde fica o presídio), Vilson viu os "colegas" do PCC apanharem feio assim que entraram na unidade. Ali é reduto do CRBC, Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade, rival do Primeiro Comando da Capital. Vilson só teria escapado porque alguém lhe deu crédito de ingenuidade. Mas seu naco de harmonia somente se fortaleceu depois da conversão à palavra de Jesus na Congregação Cristã no Brasil, que tem cultos no presídio, e de sua admissão a atividades da Funap, que oferece "adestramento profissional" a 144 penitenciárias do Estado. Na cela com mais 15 irmãos de fé, ele buscou sublimar a rejeição da mulher. "Ela não segurou o reggae", diz.

 

Na Transrebeca, João apanhou um pouco para acolher os primeiros lotes de presidiários. A ideia de usar a mão de obra deles partira do próprio João, "assim do nada", no que foi prontamente atendido pela penitenciária, localizada do outro lado da avenida, a cerca de cem passos da entrada da transportadora. Mas foi um terrorismo na cabeça anunciar a proposta. A família considerava o roubo, o sequestro, quiçá a morte, favas contadas. "O povo achava que eu tava doido." Baseado na sua experiência no assunto - qual seja, nenhuma -, ele montou uma subunidade de manutenção de caminhões dentro do regime fechado e chamou para bater ponto na empresa os do regime semiaberto. Ofereceu trabalho de mecânico, borracheiro, eletricista, pintor, funileiro, lavador, soldador, frentista e almoxarife, além de funções burocráticas no administrativo. De motorista, nem sombra. A seguradora exige, para esse cargo, um DVC limpo, uma ficha sem antecedentes criminais.

 

A maioria dos presos chegou (e ainda chega) com pânico de falar, pânico de perguntar, pânico de fazer. "Eles não sabem se conviver", diz o empresário, no que o pronome reflexivo faz todo o sentido diante da abissal inibição dos detentos. "Passam anos sendo obrigados a dizer ‘sim, senhor’, ‘não, senhor’ e aí travam." Afora a introspecção, havia a hierarquia cruzada. Muitos preferiam seguir o líder deles na cadeia a obedecer ao patrão. Custou um ano a João aprender a se impor como a última palavra.

 

Vilson aterrissou na Transrebeca com a segunda leva de detentos para trabalhar como soldador. Ninguém lhe inquiriu seu delito, ele também não fez questão de contar, muito menos de saber o crime alheio. "Se soubesse, muito preso não entrava na empresa de medo", brinca. "Não tenho por que perguntar isso, trato detentos e ex-detentos como funcionários da rua", afirma João, referindo-se aos empregados que sempre foram livres, hoje a minoria na sua folha de pagamento.

 

Não é segredo que, em Aparecidinha, a grande maioria responde pelos artigos 213 e 214, respectivamente de estupro e de atentado violento ao pudor. São crimes contra os costumes, e é costume não revelar que se praticou um. Para quem tem negócio, talvez assuste mais lidar com os que praticaram crimes contra a pessoa e/ou contra o patrimônio. Se João já foi roubado? "Uma vez, mas coisa pequena, ferramenta. Ele mesmo confessou e eu dispensei. Acontecia mais até com funcionário de rua do que com os presos."

 

Na mente de João, se existe algo que possa romper seu corpo fechado é assalto de drogado no sinaleiro. Confia que a droga seja o grande mal do mundo, o crack principalmente. Percebe que muito ex-preso bom de serviço, desses que a gente fica até encabulado de ver o tanto que se esfalfa, basta ganhar a liberdade para se perder no vício. Nota inclusive que seus funcionários alcoólatras estão pulando da bebida para a pedra. Aí muda de personalidade. Aí se foi.

 

Entre os detentos do semiaberto, a quem paga um salário mínimo, passado direto para o presídio e depositado numa conta poupança, está Everton, 27 anos, que teve de tudo um muito: carro do ano, casa de aluguel, três mulheres ao mesmo tempo, cinco filhos e passagem por cinco penitenciárias. Assume o consumo de drogas no passado. Não mais. "Não quero ser visto pelo crime que cometi." Até a saída definitiva, que supõe breve, cuida do jantar dos funcionários da transportadora, servido no meio da tarde depois da marmita enviada pela PII. Se abre uma lata de óleo, anota. Um saco de sal, anota. Uma farinhazinha, anota. Tem convicção de que vai levar responsabilidade por algo que possa faltar. "O sistema ensina a gente a ser assim", afirma, rodando orgulhoso a chave do cadeado da geladeira.

 

Do sistema fazem parte 471.296 presos, número certamente ultrapassado neste momento pelo ponteiro maior do seu relógio. Entre os achismos no sistema penitenciário, o Conselho Nacional de Justiça sabe que cerca de 17 mil presos foram libertados em 1 ano e 3 meses de mutirões carcerários. Só em Pernambuco chegaram a 1.600 alvarás de soltura nos últimos três meses. Cerca de 70% dos mais de 470 mil reincide. "É muito assustador", afirma Erivaldo Ribeiro.

 

Quando saiu da prisão há dois anos, Vilson ficou uns 20 dias em casa descansando a mente. "Se te desamarram de repente, dá vontade de voar." Como faz com todos os recém-saídos da prisão, o patrão disse que ele podia voltar se quisesse, agora como contratado e com o piso do sindicato. Aos que não têm onde ficar, João oferece o alojamento que construiu para os motoristas, recentemente ampliado, com 13 beliches e banheiro coletivo. Cumpre a palavra, sempre, mas percebe que a promessa de emprego agrega grande efeito no psicológico. "Como têm a certeza dessa segunda opção aqui comigo, os ex-presos ganham mais confiança neles mesmos e alguns acabam arrumando emprego em outro lugar."

 

Luiz ainda não conseguiu se estabelecer com essa facilidade. Companheiro de Vilson na cela dos evangélicos, acabou por virar seu enteado. Nas visitas de sua mãe, ela e Vilson começaram a se entender e, "como evangélico não namora, conversa", o papo solto rendeu um casamento quase instantâneo. Luiz, ou Lê, tem um DVC ou capivara que vai do telefone onde dá a entrevista, em Tamarana (PR), até a esquina da casa dele (e ele mora longe da esquina). Tem dado algumas palestras para pais de jovens sobre sua recuperação após uma vida entrelaçada com o sistema prisional. Nem todos aceitam que se manifeste. "Os diretores de escola, por exemplo, gostam do tema, mas aí perguntam se sou policial ou advogado." Na cidade de 11 mil habitantes, para onde migrou por causa da mulher, tem certeza de que alguns deixaram de comer na lanchonete do sogro depois que descobriram seu currículo. Não escreveu Brasil, o País da Pena de Morte à toa.

 

Para Luiz e sua mãe, João é o pai da humanidade. O empresário encosta na parede e olha além das carretas que povoam seu pátio. Diz que todo ser humano gosta de fazer o bem, basta ver a satisfação das pessoas em dar uma informação na rua. "A maioria é feita de bons, o problema é que um ruim representa muito." Confessa que ajuda os que vêm até ele, mas, se tiver de sair dali, não vai muito além não. Ao lado passa um moço que ele discretamente aponta como sendo da Fundação Casa, instalada também a cem passos da transportadora. Dizem que João endoidou de vez ao pegar a molecada infratora para trabalhar. Ele não sossega o facho. "Uma coisa que eu acho interessante é mexer com aqueles indigentes de São Paulo. Tem muita gente que é boa para trabalhar. Eu podia dar certo com eles. Manda um pra cá? Eu pago a passagem."

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