Sob a máscara do medo

A gripe: para historiador, há que se destrinchar os discursos que contaminam as epidemias

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 22h45

O carioca Sidney Chalhoub é um profeta do passado. Gosta de olhar pelo retrovisor, mais especificamente para o século 19. Numa dessas, ao estudar os cortiços do Rio, deu de frente com a febre amarela, com a varíola, com a tuberculose e com os cientistas da higiene, que priorizavam algumas doenças em detrimento de outras. A febre amarela, algoz dos imigrantes, inócua aos afro-brasileiros, recebeu medidas e palavras especiais da corte, pois se esperava que os brancos ocupassem o lugar dos negros nas lavouras de café do Sudeste.

  

Diante da gripe suína, agora oficialmente influenza A (H1N1) por pressão dos criadores de porcos, criadores brasileiros inclusive, Chalhoub, que escreveu Cidade Febril, também analisa o que se nomeia - e o que se mostra. Acha que a nova sigla só vai pegar entre cientistas. "Experimente dizer em voz alta para ver se funciona: ?Então, amigo, melhorou da A(H1N1)??" Registra ainda a falta de feição da moléstia. Para ele, doença tem de ter rosto, ainda que coletivo. Não para culpar os sujeitos, mas para repercutir na comunidade.

Outra coisa que faz, por força do hábito de historiar a sociedade, é analisar o discurso. Por isso remete à perspicácia de Machado de Assis, de cujas crônicas prepara uma edição comentada. O autor, diz Chalhoub, registrava uma desconexão entre o discurso e a concretude do mundo. O parecer científico, especificamente, teria mais a ver com o protocolo e com a capacidade de convencimento do que com a realidade das coisas. Em uma sala na Unicamp, ele a assoar o nariz e eu a tossir, Chalhoub revela alguns medos justificados - e outros nem tanto - quanto a epidemias do passado. À luz deles, busca entender as máscaras do presente.

O medo maior do ser humano é o medo da peste?

Antes de responder a essa pergunta, eu falaria sobre o medo da morte. No século 18, por exemplo, ela era muito menos estranha ao homem. Os rituais de preparação se mostravam longuíssimos, sofisticados, havia os testamentos, as irmandades preparavam a travessia da alma para outro mundo. No século 19, o corpo vira matéria. Intensifica-se o processo de secularização, que aliás tem a ver com a expansão das epidemias. A navegação se acelera, e algumas doenças, como a febre amarela e a cólera, que antes não tinham condições de se tornar intercontinentais, passam a sê-lo. O corpo do morto se transforma em um perigo. Deixa de ser enterrado nas igrejas e vai para os cemitérios. As pessoas quase não morrem mais em casa, mas nos hospitais. Isso tudo vai tornando a morte muito pouco familiar. Claro que o medo dela sempre houve, mas a insegurança aumenta. Agora, diante da violência urbana ou outro tipo de circunstância, você até pode se achar sujeito dos acontecimentos, tomar decisões sobre os riscos, decidir se sai de casa ou não. Diante de uma nova epidemia, não é assim. Ainda mais quando a epidemia também se transmite pelo ar.

Piora o fato de ser uma gripe?

Sim, porque praticamente todo mundo tem a experiência da gripe. E todo mundo se sente indefeso diante da ideia de ter de evitá-la. Como fazer isso? Nos lugares em que já se registraram casos da epidemia, o jeito de tocar o cotidiano é colocar a máscara. Mas a gripe normalmente não é algo que o impeça de continuar a se comunicar com as pessoas, mesmo porque não acreditamos, de fato, na eficácia de qualquer medida que se possa tomar para evitar uma gripe. Qual é a situação? Bem, é gripe, você está acostumado a continuar a se comunicar. Ao mesmo tempo, se continuar a fazer isso como fazia, vai se expor a algo que normalmente não mata, mas está matando. As pessoas devem estar confusas.

Falaram muito em gripe suína, cogitaram gripe mexicana, mas a OMS a oficializou como A (H1N1). Qual é o peso do nome para uma doença?

Num primeiro momento de ameaça epidêmica, há uma série de explicações e denominações que têm muito mais a ver com concepções prévias sobre como as coisas devem ser do que com qualquer informação mais concreta. O caso da gripe espanhola é exemplar. Dizem que surgiu no Estado americano do Kansas, outros falam em China. Ninguém acredita que teve origem na Espanha. É uma hipótese sem nenhuma credibilidade. Até deslocarem a doença para outro tipo de agente, a aids era conhecida como câncer gay. No caso da gripe atual, os mexicanos dizem que foram os americanos, e vice-versa. Aliás, o lugar onde as indústrias mexicanas estão instaladas são de propriedade de empresas americanas. A ideia de que amanhã se descubra que esse negócio apareceu primeiro em outro canto não é absurda. O que há de concreto é o peso da denominação. A (H1N1 ) é uma coisa, suína outra, mexicana outra ainda. Vir do estrangeiro, na verdade, é muito comum em tudo que é tipo de epidemia. No Brasil do século 19, em nenhum momento se considerou que a febre amarela poderia ser causada por motivos autóctones. Ok, não se sabia que o mosquito transmitia a doença, mas certamente havia casos de febre amarela o ano inteiro. Quando chegava o verão, o número de casos crescia, com sujeitos apresentando toda a escala de sintomas até morrerem com o vômito preto. Vomitavam o fígado, a bile. Então tentavam localizar um navio que veio de não sei onde com um doente de febre amarela. Sempre é um inimigo externo.

Há uma série de doenças que levam o nome de "febre". Quando ela passou de doença a sintoma?

Se pegarmos a taxonomia de doenças do século 19, havia a febre amarela, a febre tifoide, febres malsãs, febres perniciosas, intermitentes, uma porção. Nas estatísticas de mortalidade e morbidade dos que ficavam doentes, verá que há cinco ou seis denominações "febre alguma coisa". Era sinônimo do próprio inimigo. Com o surgimento da microbiologia, que se tornou um marco, uma ruptura de paradigmas de como pensar as coisas, a febre passou a ser sintoma. Mas, como era associada a doenças que atingiam um número grande de pessoas simultaneamente e de modo repentino, ainda hoje causa pânico. Pode ser que essa desconexão entre ela e a causa do mal não esteja inteiramente processada.

Durante a semana, veio a público a imagem de Édgar Hernández, de 5 anos, indicado como o "paciente zero" da gripe e já curado. É importante dar rosto à doença?

Sim. Os doentes não tinham rosto até então, gostei quando apareceu o menininho. Os americanos e os europeus são muito bons para dar rosto a catástrofes. Depois do 11 de Setembro, do Katrina ou de um daqueles massacres em escolas, em poucas horas vimos uma porção de rostos. Bem verdade que não se vê uma face de iraquiano na guerra, e eles morrem aos milhares... Com relação a outra epidemia, a da aids, sem que se questione a importância de tudo o que foi feito em relação a ela no Brasil e nos países de primeiro mundo, evitando que se transformasse numa tragédia muito maior, o grande sentido do drama teve a ver com a visibilidade, com o rosto de quem ficou doente nos primeiros anos da doença. Não se pode ter nenhuma ingenuidade em relação ao efeito positivo, do ponto de vista da saúde pública, de se poder lembrar de Cazuza. A doença ganha rosto para um setor da população que toma decisões. Então repercute.

Mas a mãe do menino lamentou a divulgação da imagem. Disse que o mundo pensaria ser o filho o culpado de tudo.

Percebe que a própria ideia de a pessoa ser culpada de passar uma doença dessas é maluca? É preconceituosa. É dizer que a pessoa não tem direito a um rosto porque pode ser culpada por ser pobre ou de família pobre, ou por trabalhar em uma empresa que trata porcos daquele jeito. A pessoa não é o agente disso. Ela é tão culpada quanto o passageiro que está dentro de um avião que cai por um acidente qualquer. Se a questão é não estigmatizar, há outras formas de dar rosto a essas pessoas. Você vai à comunidade, narra as condições de vida delas, da indústria, os perigos a que se expõem. Não precisa dar nome a ninguém, o coletivo ganha uma fisionomia.

Ao mesmo tempo que o governo afirma ter toda a inteligência mobilizada para enfrentar a A (H1N1), a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab) registrou 23 mortes provocadas por meningite este ano no Estado. Estamos diante da possibilidade de uma pandemia e é evidente que o ministro quer tranquilizar a população. Mas quais são as prioridades das políticas de saúde pública do País?

Certamente a diarreia não está entre elas, e a diarreia mata muita gente. Essas prioridades são decisões sociais. Até hoje tem gente que não acredita quando argumento no livro que havia diferenças entre o tratamento que se deu no século 19 à febre amarela e a doenças como cólera e tuberculose. Na época, os caras ficaram obcecados com a febre amarela porque ela matava imigrantes. Os negros morriam de tuberculose, mas não eram suscetíveis à febre amarela, por razões que até hoje a medicina não sabe explicar direito. E os caras queriam embranquecer a população. Rui Barbosa veio a público dizer: "Vocês precisam controlar a febre amarela porque temos que regenerar a medula do sangue da nação". É uma metáfora racista, organicista. Digo que a diferença entre o racista brasileiro e o norte-americano ou africano do Sul é que os dois últimos diziam: "Vou linchar o negro". O racista brasileiro não vai linchar o negro, mas vai deixá-lo morrer. Veja a insensibilidade social e o imobilismo para a violência urbana, que é uma epidemia que mata negros.

Em seu livro, o senhor escreve o seguinte: "Se a vacina tinha história longa, longuíssima era a tradição popular de resistência à vacinação". No último surto de febre amarela, não houve resistência à vacina. Ao contrário, houve overdose. Como explicar a inversão nessa lógica?

Até quando o povo confia, confia desconfiando. Pensa: "Será que estão fazendo o suficiente para me proteger?" Então produz-se uma overdose ali. A ciência médica tem credibilidade suficiente para que as pessoas a procurem e acreditem na possibilidade daquilo que é eficaz, mas essas mesmas pessoas são ecumênicas. Vão ao médico, vão tomar passe na sessão espírita, tomam chás, não assumem a ideia de medicalização como uma coisa que exclui as outras ou então "capricham" na automedicação. A assistência médica está suficientemente acessível e generalizada para que todos tenham histórias de eficiência ou de sucesso. E, ao mesmo tempo, nunca há uma situação de se desarmar e confiar completamente a ponto de os pacientes seguirem sempre à risca o que é recomendado. A situação é instável. O vovô que não queria se vacinar contra a gripe provavelmente perguntou à filha se ela deu todas as vacinas que deveria dar ao neto dele.

Os idosos, aliás, demoraram a aceitar a vacinação contra a gripe no final dos anos 90. Do que eles desconfiavam?

Quando os velhinhos se mostraram resistentes à vacinação, os médicos se perguntaram se faltava informação ali. Por que os idosos não conseguiam entender que aquilo era um benefício para eles? Só que existia um contexto de que me lembro bem porque, no início dos anos 90, várias pessoas da minha geração estavam com pais aposentados ou em idade de aposentadoria. Alguns ficaram numa condição econômica difícil, sujeitos a todo tipo de humilhação. Qual era a experiência dessas pessoas? O governo do Fernando Henrique dizia que os responsáveis pelo déficit público eram aqueles que se aposentaram antes da hora, ganharam uma boa aposentadoria, mais do que mereciam. O País os carregava nas costas, enfim. Foi um massacre de anos seguidos. Aí o governo anuncia que vai fazer uma vacina para proteger as pessoas idosas da gripe. O que os caras pensam? Se a gente morrer, melhor para eles. Nem por um segundo você dá crédito à ideia de que uma autoridade pública pudesse ter pensado uma coisa dessas. É uma total alucinação, mas uma alucinação inteiramente racional do ponto de vista de quem viveu aquela experiência. Os mexicanos podem achar que algo foi feito para que ficassem doentes e parassem de trabalhar, podem imaginar que há uma lógica em mantê-los onde estão, fixá-los ali, em vez de deixar que busquem o eldorado em outro lugar. Essas condições de trabalho existem cada vez menos nos EUA. Lá seria intolerável tratar animal desse jeito, tratar trabalhador desse jeito e pagar o que se paga para eles. O raciocínio é ilógico, pois há uma irracionalidade em fazer aquilo, mas está longe de ser incoerente.

Recentemente empossado na África do Sul, o presidente Zuma recebeu críticas dos ativistas de combate à aids por ter dito, certa vez, que o risco do homem de pegar a doença é mínimo. Seu antecessor, Thabo Mbeki, aliou-se a cientistas céticos quanto à ligação entre a aids e o HIV a ponto de a ministra da Saúde de seu governo pregar o combate à doença a partir de uma dieta rica em beterraba, batata, limão e alho. Enquanto isso, a África do Sul é o país com o maior número de infectados pela aids no mundo. A descrença em relação a protocolos médicos ocidentais é resultado da colonização recente?

A experiência da colonização da África foi ontem. A medicina europeia, os exércitos europeus, os governos europeus eram invasores que carregavam um discurso de inferiorização, de submissão à vontade do outro. É bom lembrar que, em meados dos anos 80, diziam que a aids teria surgido na África porque os homens estavam habituados a ter relações sexuais com macacos. Nós acreditamos na medicina ocidental em relação à doença porque temos raciocínio científico, convicção de que não é só um discurso, mesmo porque há uma coisa empírica ali. Eles, não. Existe um relato incrível, que usei no livro, sobre a tentativa da OMS de imunizar africanos contra a varíola. Ou a população corria deles e se embrenhava no mato, ou agia e assassinava os vacinadores. O que a OMS fez? Contratou antropólogos, especialistas na lógica do outro, que montaram equipes interdisciplinares tentando entender como chegar à população. Quase toda cultura tem suas brechas. Quando se consegue convencer a figura certa, está resolvido o problema. Os especialistas abriram mão de que dava para imunizar todo mundo e foram matando o vírus por isolamento. Não era necessário imunizar todas as comunidades, não precisavam chegar àquela em que os esperavam com flecha envenenada. Conseguiram acabar com a doença, chegar a zero, alcançando lugares estratégicos. O que tiveram de superar? Problemas de comunicação.

No México, restaurantes estão proibidos de receber clientes. Casas noturnas, bares, cinemas, teatros e clubes esportivos não abrem, a próxima rodada do campeonato de futebol terá portões fechados, as aulas foram suspensas. E as pessoas usam máscaras direto. Não será fácil estabelecer mecanismos de comunicação...

Tem doença em que a própria experiência da comunicação se transforma em função da circunstância e até do que se sabe sobre ela. O caso mais incrível, acho eu, é a tuberculose. Ela mudou até de nome. Chamava-se tísica nos séculos 18 e 19. A palavra tuberculose só passa a ser mais usada depois da descoberta do bacilo de Koch. Qual era a experiência do tísico? Há um livro fantástico de uma historiadora americana, Sheila Rothman, que trabalha com correspondências pessoais desses pacientes. Antes da descoberta do bacilo de Koch, a doença era a hora da comunicação. A pessoa se comunicava como poeta romântico, como alguém que tinha mais sensibilidade. Havia uma glamourização do ponto de vista artístico e tudo era vivido na intimidade da família. Era uma doença da intimidade. Quando se descobre o bacilo, os caras são asilados porque seu cuspe contamina o ar e, por tabela, aqueles que o aspiram. Tuberculoso só passou a andar com tuberculoso. Em função de uma mudança no conhecimento da doença, tudo mudou.

Diante dos comunicados frequentes em relação à doença, o que o senhor espera?

Hoje há tecnologia e conhecimento suficientes para produzir vacinas com relativa rapidez. Se houvesse vigilância sanitária eficiente, esses casos teriam sido seguidos o tempo inteiro. O que provavelmente aconteceu no México é que demoraram muito para se dar conta de que era um vírus mais agressivo do que outros. Provavelmente essa epidemia não vai ter uma mortalidade semelhante em nenhum outro lugar, a não ser que comece a chegar não nos locais com grandes aeroportos, mas nos pobres mesmo, sem estrutura mínima de saúde pública e de atendimento de emergência. Por enquanto, uma boa parte do sentimento de emergência e insegurança tem mais a ver com esses mecanismos de comunicação do que com a concretude da ameaça, que não está configurada. Vai se criando um pânico geral. Claro que você tem de relativizar o que estou dizendo. Amanhã talvez a gente volte a conversar sobre a gripe, eu com máscara aqui, você com máscara aí, os dois morrendo de medo. A quantidade de epidemias que mataram milhares e milhares de pessoas é muito grande. Nós, historiadores, quanto a fazer previsões, gostamos de nos comparar aos economistas: eles preveem o futuro e erram sempre. Nós somos profetas do passado.

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