Sob as bênçãos do arco-íris

A união de um gay com uma transexual desafia o machismo da ilha, é acompanhado por milhares e ofusca o aniversário de Fidel

Yoani Sánchez*,

20 de agosto de 2011 | 13h51

Era sábado, 13 de agosto, aniversário de Fidel Castro, mas naquele dia Havana pulsava ao ritmo de uma comemoração muito diferente. Um casal peculiar acabava de se casar. Ela, um transexual que havia se submetido a uma cirurgia para mudar de sexo; ele, um gay soropositivo, estigmatizado por sua posição dissidente. Wendy Iriepa e Ignacio Estrada jogaram as flores do seu casamento no mar, naquele trecho do Malecón onde os velhos ficam tentando fisgar algum peixe. Justamente no aniversário de um governante que durante décadas manteve uma política homofóbica, a cidade se vestiu com as cores da diversidade.

 

Em um país ainda oprimido por resquícios machistas, o acontecimento confirma que a comunidade LGBT está abrindo caminho – mais pelo atrevimento dos seus membros do que por uma política de Estado que os proteja. Há quase três anos, espera-se que a Assembleia Nacional discuta a legalização da união entre pessoas do mesmo gênero, mas nem sequer conseguiu incluir o tema na pauta dos deputados do nosso passivo Parlamento.

 

Entretanto, apesar da lentidão do Legislativo e do preconceito da população, Wendy e Ignacio conseguiram se aproveitar das brechas judiciais, saltando também por cima do estigma social. Wendy tinha obtido uma carteira de identidade na qual estava confirmado seu sexo feminino, graças a gestões do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), dirigido por Mariela Castro, filha do presidente cubano, Raúl Castro.

 

Wendy foi um dos primeiros transexuais de Cuba operados por uma equipe médica belga que andou trabalhando na ilha. Seu rosto era visto frequentemente em eventos oficiais sobre a comunidade LGBT de Cuba, até que cometeu o “pecado” de se apaixonar por Ignacio, um gay contestador. Ignacio foi preso ainda muito jovem, por distribuir na rua panfletos com a declaração dos direitos humanos. Da cadeia, saiu com o HIV e uma visão mais dramática do país onde vivia. Quando os dois se conheceram, em maio, pareciam habitar mundos distantes que jamais poderiam aproximar-se. De nada serviram as advertências que Mariela Castro fez à protegida sobre a relação amorosa que nascia.

 

Um dia, no Cenesex,disseram a Wendy que ela já não era confiável, por ter um amante “contrarrevolucionário”. Foi informada de que o único emprego que poderiam lhe oferecer era o de limpadora de chão. Wendy abandonou a comunidade, deixando para trás anos de trabalho numa instituição que se apresenta como promotora da tolerância. Ignacio a recebeu com a ternura de quem já passou por mil e uma exclusões. No dia seguinte marcaram a data do casamento, que coincidia com o aniversário do Comandante em Chefe.

 

“Queremos presentear com a diversidade alguém que nunca soube aceitá-la”, disseram, quando jornalistas e amigos quiseram saber por que haviam escolhido o 13 de agosto. Em suas declarações, eles destacaram também que, há apenas alguns meses, Fidel Castro reconheceu sua responsabilidade na criação das chamadas Unidades Militares de Ajuda à Produção (Umap), campos de trabalho forçado onde ficaram presos, do fim de 1964 até o início de 1967, testemunhas de Jeová, religiosos, homossexuais e pessoas com “desvios” ideológicos. Esse foi um dos capítulos mais sombrios da nossa história nas últimas cinco décadas e se constituiu também em motivo para a comunidade LGBT da ilha exigir reconhecimento.

 

Apesar do mea-culpa de Fidel, o certo é que a imprensa oficial não abriu um debate sobre esse tema com a profundidade e a visão crítica necessárias. Apesar dos limitados avanços conseguidos, não se pode negar que nos últimos anos houve algum progresso no que se refere à aceitação das preferências sexuais. Os motivos dessa flexibilização são vários. Um deles é que a abertura de Cuba ao turismo internacional permitiu a chegada à ilha de uma mentalidade mais moderna, mais desinibida, menos intolerante.

 

O trabalho do Cenesex contribuiu também para pôr o tema no epicentro das discussões, mas, lamentavelmente, a instituição tem limites ideológicos muito rígidos. O discurso de Mariela Castro pedindo a aceitação da diversidade torna-se excludente quando se trata de matizes políticos. Enquanto os cubanos não puderem sair de todos os armários nos quais fomos confinados por culpa do fanatismo partidário, será muito difícil que a reivindicação de direitos por uma minoria consiga triunfar.

 

Por exemplo, o Código Penal continua considerando ilegal a livre associação e a livre expressão, o que impede que grupos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais fundem a própria organização e convoquem uma manifestação pelas ruas do país. Por enquanto, terão de esperar que o poder governamental os oriente quanto ao que fazer ou lançar-se à clandestinidade de uma organização independente. Apesar desses obstáculos, no dia 28 de junho – dia do orgulho gay em todo o mundo – um reduzido grupo de ativistas LGBT conseguiu organizar uma passeata numa avenida central da capital.

 

Cercados de todos os lados por membros da Segurança do Estado, e diante do olhar atônito dos cidadãos que passavam, eles estabeleceram um precedente que, esperamos, possa ir crescendo nos próximos anos. Moinhos de vento. Já vão longe os tempos em que a polícia reprimia a cassetete os gays que se reuniam nas esquinas mais centrais de Havana e no Malecón. Mas a discriminação contra eles não cessou. Agora é menos evidente, com menos teatralidade, mas as denúncias de maus-tratos continuam chegando. Por isso foi criado um Observatório de Direitos LGBT, dirigido por Leannes Imbert, que procura reunir e levar perante os tribunais os abusos. Com poucos recursos e com a má vontade do próprio Cenesex, o grupo recém-criado tem um difícil caminho pela frente.

 

Aliás, muitas das próprias vítimas da exclusão evitam aproximar-se desse observatório alternativo com medo de que, ao revelar seu caso, o castigo institucional seja ainda maior. Cautela, ceticismo e temor continuam sendo sentimentos inerentes a uma comunidade que tem sofrido demais. Daí a importância simbólica do casamento de Wendy e Ignacio, que enfrentaram verdadeiros moinhos de vento para chegar diante o registro no qual firmaram a união. Sua vitória em 13 de agosto foi interpretada por muitos como “um grande passo numa ilha pequena”.

 

Embora a imprensa oficial não tenha se manifestado, milhares de cubanos acompanharam os pormenores das bodas graças a antenas parabólicas ilegais e rádios de ondas curtas proibidos. Foi surpreendente ver como a notícia se espalhou com tamanha velocidade, e como as pessoas nas ruas reconheciam os rostos do casal. Centenas de pessoas também rodearam o cartório de registro civil do bairro La Víbora, onde os noivos legalizaram sua união, numa tarde chuvosa que muitos interpretaram como sinal de sorte. Quando chegaram à festa de casamento, em torno deles havia mais expectativa popular e de jornalistas do que a levantada pelos 85 anos do outrora Líder Máximo.

 

Apesar dos temores, tudo correu bem. Não houve nenhum grito de discriminação, nenhum insulto, ninguém os denegriu com esses termos homofóbicos que ouvimos todos os dias. Das sacadas, as pessoas atiraram punhados de arroz, sinal de boa sorte, e a escadaria para chegar ao salão do tabelião ficou cheia de convidados. Nem a polícia política ousou intervir violentamente, embora fosse evidente sua presença em toda parte. Moradores da região corriam, curiosos, ao lado do carro que levou a noiva e disparavam os flashes das suas câmeras, enquanto ela erguia uma bandeira com listas de sete cores.

 

Terminada a cerimônia, Wendy e Ignacio percorreram a cidade num conversível, com a mesma bandeira gay batendo sobre seus ombros. Ao chegar à baía, jogaram na água o buquê que pouco antes ela carregava no colo. “Por todos os homossexuais que morreram no mar fugindo desta ilha”, disseram. E em frente daquelas fortalezas militares de uma virilidade antiquada, eles se beijaram.

/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

 

*YOANI SÁNCHEZ, JORNALISTA CUBANA, AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y E COLUNISTA DO ESTADO. EM 2008, FOI AGRACIADA COM O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO, NA ESPANHA

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