Sob o signo de Safo

Nem um closet de dimensões épicas abrigaria o elenco de atrizes e atores bi ou homossexuais que em Hollywood alcançou o estrelato nos últimos 90 anos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h06

Jodie Foster, afinal, saiu ou não saiu do armário na entrega dos Golden Globes?Ainda era domingo na Califórnia quando os primeiros gays invadiram a internet com tal dúvida na ponta dos dedos. Ao longo da madrugada e por toda a segunda-feira, blogueiros e tuiteiros a tornaram viral, suscitando polêmicas dentro e fora da comunidade GLS, que se estenderam por mais 24 horas. Uns criticaram a atriz por não ter assumido claramente sua homossexualidade; outros a aplaudiram por tê-lo feito de maneira elegantemente oblíqua. Ganharam aqueles que, desprezando a controvérsia em torno da orientação sexual da atriz, se ativeram a elogiá-la por sua cutucada na mídia alcoviteira.

Foster, concretamente, só duas coisas alardeou na premiação de domingo: que chegou aos 50 e é (ou está) solteira. O máximo que se aproximou do armário foi para anunciar que não faria naquela noite um "big coming out speech", um discurso bombástico sobre sua intimidade; ou seja, com o troféu Cecil B. De Mille nas mãos não repetiria algo que já havia feito, sem alarde, "mil anos atrás, na Idade da Pedra".

Não foi há tempo assim. No final de 2007, num café matinal com a redação do Hollywood Reporter, ela abriu o jogo - ok, parcialmente - agradecendo "minha bela Cydney", sua companheira de todas as horas. (Cydney Bernard, inseparável parceira da atriz entre 1993 e 2008.) Por que a imprensa não deu trela à confidência? Porque, apesar de em muitos casos pérfida e sensacionalista, ainda prefere lidar com confissões diretas, transparentes, só arriscadas para a carreira de quem as faz.

Antes mesmo da "bela Cydney", a orientação sexual da atriz já não despertava dúvidas em Hollywood. Discretíssima, Foster sempre manteve sua vida particular longe da curiosidade alheia; jamais revelou a identidade do pai (ou dos pais) de seus dois filhos, nascidos sob os cuidados de Cydney. Quem esperava que ela aproveitasse a cerimônia do Oscar de 1989 (da qual saiu com a estatueta de melhor atriz pelo filme Acusados) para explicitar seu safismo teve de prolongar a expectativa por mais três anos. Mas nem ao receber o segundo Oscar (por sua atuação em O Silêncio dos Inocentes), ela saciou a mórbida bisbilhotice da mídia.

Sou daqueles que acreditam que a preferência sexual de quem quer que seja não nos diz respeito. Certa militância gay discorda: para ela, quanto mais gente famosa admitir publicamente que é homossexual, melhor para a "causa". Faz sentido. Há dois anos, Anna Paquin tornou pública sua bissexualidade, seguindo o exemplo de Angelina Jolie (que em 1997 confessou ter transado com a modelo Jenny Shimizu), Lindsay Lohan e outras menos votadas, deixando a moçada gay-ou Pink Mafia (Máfia cor de rosa), como a chamam na América, em estado de graça. Acredita-se que a adesão oficial de Jodie Foster daria à causa um empuxo formidável.

Ainda hoje muitos atores e atrizes relutam em sair do armário receosos de que produtores e diretores não os considerem mais adequados a determinados papéis. Livram-se de uma ameaça, mas não dos mexericos malévolos de colunistas analógicos e digitais. Sites e blogs especializados em babados do mundo gay mantêm listas atualizadas de celebridades que, segundo eles, não são o que aparentam na tela. Algumas, como John Travolta, Kevin Spacey, Cameron Diaz, Kirsten Dunst, as mais visadas, sempre que cobradas, desconversam.

No mundo bem mais puritano e preconceituoso de seis, sete décadas atrás, estúdios e agentes se desdobravam para esconder dos fãs as reais preferências sexuais de seus contratados. A Universal chegou a providenciar uma namorada firme para o másculo galã Rock Hudson, que a desposou pro forma e só aguentou o "casamento lavanda" (versão gay do casamento branco) durante dois anos e meio. Afora as revistas de escândalo, que muitos devoravam mas poucos levavam a sério, a imprensa não forçava a barra, compactuava com o silêncio, preservando a imagem dos atores, agradando à indústria - e perpetuando o mistério.

Com a ajuda de executivos da MGM, a sex symbol Jean Harlow mantinha casos com mulheres desconhecidas longe do perímetro urbano; os homens que a acompanhavam às festas e premières eram arranjos do estúdio. Harlow tinha uma reputação a zelar, era uma "deusa do amor", uma devoradora de homens, o que não é o caso de Jodie Foster. Embora tenha se celebrizado no cinema como uma precoce prostituta, em Taxi Driver, quase sempre escolheu personagens sem sex appeal, à provável exceção da vigarista de Maverick, que em nada, aliás, contribuiu para o tresloucado gesto de John Hinckley, que três anos antes tentara matar o presidente Ronald Reagan para impressionar a atriz.

Nem um closet de dimensões épicas conseguiria abrigar o elenco de atrizes e atores bi ou homossexuais que em Hollywood alcançaram o estrelato nos últimos 90 anos. Três das maiores divas do cinema americano - Greta Garbo, Marlene Dietrich e Joan Crawford - eram lésbicas e fizeram parte, junto com Barbara Stanwyck, Tallulah Bankhead e Isadora Duncan, do famigerado Sewing Circle (Círculo da Costura), espécie de maçonaria sáfica comandada pela roteirista cubano-americana Mercedes de Acosta, irresistível devoradora de mulheres bonitas, a cuja lábia, pelo que dizem, Jodie Foster dificilmente resistiria.

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