Sobre as memórias de um inabalável otimista

Livro narra saga do economista pela transformação das sociedades no Sul

Paulo Sérgio Pinheiro, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 01h20

Em Biarritz, França, em junho de 1940, o menino de 12 anos foge com a família da ocupação nazista na Polônia. Deixam tudo para trás - inclusive a coleção de pinturas de grandes mestres do pai. Levam apenas um Rubens, que lhes dará condições para escapar do extermínio. Chegam a Barcelona e atravessam a Rambla dentro de um coche fúnebre puxado por dois cavalos - não havia táxis. Em Lisboa, conseguem vistos e embarcam num navio para o Rio de Janeiro. Esses e muitíssimos outros incidentes marcam A Terceira Margem (Companhia das Letras), as memórias mágicas de Ignacy Sachs, na linda tradução do francês de Rosa Freire d"Aguiar.

Antes de se estabelecer na França, em 1968, Brasil, Polônia e Índia são as estações formadoras de Sachs em economia e meio ambiente. Cada etapa parece acaso - sorte, quando seu chefe em Varsóvia se torna embaixador na Índia; ou acidente, quando, atingido por uma vaga de antissemitismo no governo polonês, vai para Paris. Mas o inesperado em cada estação será desvendado num "jogo de espelhos", como ele diz, através do referencial formado pela experiência acumulada em outro país, onde nunca falta o senso de humor.

Terminada a guerra, é o único funcionário do consulado polonês em São Paulo, e mais tarde assume o serviço cultural e de imprensa da legação da Polônia no Rio. Ao resolver estudar e se formar em economia, no Rio, Sachs assume sua direção intelectual básica, ainda que, progressivamente, vá muito além das fronteiras dessa disciplina. No Brasil, casa-se com Viola, cuja família também escapara do nazismo na Polônia. Ela estuda no Rio literatura inglesa, de que mais tarde se tornará em Paris grande especialista e inspirada professora. Nascem seus dois filhos "brasileiros", Wtodek e Karol.

Volta à Polônia em 1954 para trabalhar sobre o Terceiro Mundo no Instituto Polonês de Relações Internacionais, às vésperas da grande virada depois das denúncias contra o stalinismo em fevereiro de 1956 no 20º Congresso do Partido Comunista soviético (em lugar de invasão, como contra a Hungria). Varsóvia estava em colisão com Moscou, que acaba tolerando os efeitos da "primavera em outubro" na política interna polonesa. O primeiro-ministro Vladyslaw Gomulka conquista larga margem de manobra em relação ao centro soviético, com apoio em todos os setores da sociedade. Serão ali anos de grande ebulição que permitirão a Sachs observar por dentro o funcionamento de uma economia planificada.

Paradoxalmente, o relativo fracasso das reformas políticas na Polônia de certo modo será a epifania do pensamento original de Sachs sobre planejamento do desenvolvimento. Indo para a Índia, defende ali sua tese de doutorado sobre os modelos do setor público nas economias subdesenvolvidas. Dali começa a desenvolver seu método original de análise das mudanças sociais e econômicas, culturais e de seus bloqueios. Nasce na Índia sua filha Céline, que mais tarde seguirá os estudos urbanísticos. Volta para Varsóvia, funda com seu mestre, o grande economista Michal Kalecki (a quem dedica um emocionado capítulo), um centro de pesquisas sobre as economias subdesenvolvidas e trabalha no Ministério do Comércio Exterior.

Depois de ir para Paris, começa a fazer pesquisas e ensinar na Escola Prática de Altos Estudos, "um maravilhoso ponto de encontro de amizades e afinidades intelectuais". Fecha-se o círculo das etapas fundadoras e dali emerge o Ignacy Sachs de hoje, com dezenas de livros e mais de 500 artigos, expoente maior do ecodesenvolvimento - a teoria do desenvolvimento que leva em conta as exigências do meio ambiente como o uso de recursos escassos ou finitos, a poluição e o hábitat, valorizando a biodiversidade, para realizar as necessidades fundamentais da população. Ideias formuladas, por exemplo, em Ecodesenvolvimento: Crescer sem Destruir (1986) até Estratégia de Transição para o Século 21: Desenvolvimento e Meio Ambiente (1993), onde analisa as estratégias de transição para o século 21 em vários países, como nas estações de seu percurso Brasil, Polônia, Índia e França.

A partir de seu dispositivo em Paris inúmeras serão suas iniciativas, engajamentos, parcerias, singrando continentes. Desde a fase preparatória esteve associado à Conferência de Estocolmo, sobre meio ambiente humano, realizada em 1972, e 20 anos depois terá um papel decisivo na Eco-92, no Rio. Encontro promissor de colaboração com Celso Furtado, exilado em Paris. Viaja incessantemente pelo Peru, México, Colômbia, Venezuela, Chile e sempre para o Brasil, onde desenvolve inúmeras parcerias e projetos. Cria o pioneiro Centro Internacional de pesquisa sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Cired, em Paris. Depois da volta à democracia no Brasil, em 1985, funda, também em Paris, o Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo, CRBC, certamente o mais antigo e influente centro de estudos brasileiros em toda a Europa.

A rede de contatos de Sachs no Sul e no Norte sempre foi enorme. Suas andanças a partir de Paris e São Paulo são marcadas pela luta pela transformação possível das sociedades do Sul, facilitada por sua capacidade extraordinária de fazer análises com conexões imprevistas entre sociedades, políticas governamentais, modelos de análise. Seus trabalhos são sempre grandes sinfonias plenas de transdisciplinaridade forjada nas observações de terreno mundo afora.

O livro de Ignacy Sachs transmite ao leitor o enorme dinamismo e generosidade de sua personalidade, sempre marcada por um inabalável otimismo na busca da terceira margem do rio, aquela das paragens sem exclusões e violências.

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