Sobre macacos, ratos e homens

O que aconteceu com o papa em La Sapienza nada tem a ver com a defesa da ciência contra o obscurantismo da fé

Luiz Felipe Pondé *, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 15h21

Há alguns meses ONGs de gays e lésbicas protestaram contra certa pesquisa que cientistas na Inglaterra estariam fazendo com o intuito de identificar genes causadores do comportamento homossexual em algum tipo de animal comum no Reino Unido. Segundo os protestos, se bem me lembro, a pesquisa era acusada (com razão) de tornar possível uma futura manipulação gênica que eliminaria o fenótipo homossexual entre os animais em questão. A ciência é perigosa mesmo, tal como a religião, e sua violência potencial não é menor: já experimentamos a violência da sua "técnica da verdade" várias vezes. Assim, essas ONGs se viram no direito de pedir a suspensão do apoio à pesquisa, identificando nela riscos para o futuro de sua tribo: hoje carneiros gays e vacas lésbicas, amanhã, humanos. Não sei o fim da história, pouco importa. Ela descreve um fato comum: nunca há neutralidade em relação ao que se teme na ciência. Por isso, quem normalmente se diz pleno defensor dessa neutralidade está na realidade mentindo. Neste caso, não houve manifestações em defesa da liberdade da ciência. Por que não? É certo proibir a pesquisa das causas genéticas dos comportamentos sexuais? Talvez não, mas a sociedade intelectual e científica do século 21 não é menos refém da "falsa santidade" do que era o século 17. A ciência, afora ser um método que existe em sua pureza talvez somente no mundo platônico das idéias (onde habitam boas e raras almas sinceras) e em alguns lugares onde a pressão de interesses financeiros está a favor dessa pureza (onde habitam almas objetivas endurecidas pela sobrevivência), é uma das entidades mais submetidas a falsas virtudes, principalmente depois que a universidade se transformou num celeiro de "políticas do bem". O homem moderno peca porque se acha melhor que seu antepassado, quando na realidade combate traços de caráter que o une ao seu ancestral pré-histórico: ser interesseiro, mentiroso, aproveitador, violento e covarde. Ninguém precisa da espada da lei nem de educação para aprender a agir assim, a natureza se encarrega do curso monótono e repetitivo dessas qualidades tristes. Além desse vício, a superficialidade parece ser sua segunda natureza. Aqueles que fazem protestos não são necessariamente os "santos da objetividade". Como Kafka descreveria esse mundo: quem seriam os macacos que fariam os relatórios acadêmicos? Quem seriam os ratos que carregariam os cartazes de indignação?Sabemos que as ciências sociais e a filosofia lançaram sobre a ciência uma sombra de dúvida científica: entre outros, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Theodor Adorno, Paul Feyerabend nos ensinaram, respectivamente, que não há racionalidade empírica acumulativa entre os paradigmas sob os quais trabalham os cientistas e que muitos desses paradigmas são vinculados a dados não científicos, que os instrumentos da ciência são sempre discursos de poder e opressão, que a ciência é a mercadoria chique da burguesia, enfim, que devemos ser contra a ilusão do método objetivo na ciência. Tudo isso faz parte das controvérsias em epistemologia contemporânea (teoria da ciência) e qualquer pessoa treinada na área sabe que dizer que pessoas em diferentes épocas podem operar em racionalidades distintas é uma afirmação razoável e não puro obscurantismo: no século 17 não havia diferença clara entre ciência, filosofia e teologia. Galileu pensava assim, seus amigos padres-cientistas pensavam assim, a Inquisição pensava assim. O debate ao redor do risco da autonomia e supremacia da ciência experimental como filosofia que redefiniria a teologia, passando a ser a "rainha de todos os saberes", inclusive da moral, (objeto implícito da tese filosófico-teológica de Galileu) por acaso acabou? Por que o "papa obscurantista" une defensores da versão simplificada do processo de Galileu, ONGs em favor do casamento gay e do aborto? Qual é a objetividade científica que os une? Nenhuma. O que aconteceu na Universidade La Sapienza em Roma nada tem a ver com a defesa da ciência e da luz da razão contra o obscurantismo da fé. Esse fato é o sinal de como, mesmo a universidade (infelizmente) capitulou ao fascismo sutil da politização de tudo, risco típico da democracia, apontado desde finais do século 18 (perceber isso não significa ser obscurantista, significa defender o mundo real). A intenção é inviabilizar idéias que possam ir contra os lobbies que tendem a dominar o espaço da cultura contemporânea, idéias essas que têm na figura de Bento XVI um representante institucional e intelectual de peso. Não há nada de evidentemente científico na pura afirmação da santidade metodológica dos realizadores da ciência (a "ciência real" da qual faço parte), nem na defesa da criação de crianças por gays, nem na defesa do aborto. Há, sim, conflitos de interesses. A verdade omitida é que a exclusão do intelecto religioso não garante a pureza metodológica de nada. Política não é ciência. Científica é a percepção de como esmagamos a diferença no mundo acadêmico sob a afirmação de que defendemos a democracia. Científico é o medo que devemos ter de nós mesmos.A inquisição em La Sapienza evidencia que a universidade esta ameaçada constantemente pelo fascismo daqueles que usam do mundo cientifico e intelectual para, mentindo, se dizerem oráculos da verdade e da liberdade, quando na realidade defendem suas idéias fixas, seus interesses institucionais e suas verbas. Ainda bem que não somos todos assim. A esperança acaba sendo da ordem da timidez contra a hipocrisia: quem se achar puro, que atire a primeira pedra. *Luiz Felipe Pondé é professor da pós-graduação em ciências da religião e do departamento de teologia da PUC-SP. Leciona também na FAAP e na Escola Paulista de Medicina. É autor de , entre outros, Do Pensamento no Deserto (Edusp)TERÇA, 15 DE JANEIROPapa cancela visita a escola Ante protestos, o papa Bento XVI suspendeu a visita que faria à Universidade La Sapienza, em Roma, para o início do ano acadêmico. Professores, alunos e defensores dos gays alegam que há duas décadas o papa fez ali um discurso reacionário em relação à ciência.

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