EUSTÁQUIO NEVES
EUSTÁQUIO NEVES

Sobre religião e fotografia

Usando um processo manual de criação de imagens, o fotógrafo Eustáquio Neves revela ensaio em que trabalha com a figura de São Sebastião e Oxossi

Georgia Quintas, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2015 | 17h23

O artista fratura sempre o mundo em sua volta, e desfia imagens internas por eixos processuais de busca e aprendizado. Eustáquio Neves, 60, artista mineiro, um dos grandes nomes da fotografia brasileira, sempre atou seus nós com o espírito de criar imagens que surgem em camadas por tempos dilatados, num movimento de experimentar até aonde a imagem fotográfica pode ir. E com isso, apresentar as ideias na obscuridade do mundo visível. Faz isso como um ourives, desconstruindo as coisas aparentes.

A sensibilidade inerente à fala de Eustáquio acompanha sua obra. Por telefone, em entrevista ao Aliás, Eustáquio sugeriu imagens em processo. Fomos nesse caminho, por coisas que vem pensando, mas que não se cerram. Seguem, dialogam com outras fotografias suas. Trabalhos que se falam por um momento, descansam e voltam a se contaminar. Em sua fala, é possível depreender que há uma rede de interferências (do mundo externo e de suas questões internas), de atravessamentos que ampliam a perspectiva de criação.

Eustáquio Neves não tem pressa, há três anos, vem tecendo nós de inquietações sobre santos e entidades. O interesse por algo que a imagem fala por intermitente busca se faz processo. Um fluxo poético de trabalho árduo sobre o que não se esgota para o olhar.

Você diz que tem sempre "muitas ideias e muito pouca pressa de colocá-las no papel". Suas imagens precisam de tempo para existirem?

Tenho duas maneiras distintas de trabalhar que não chamaria de metodologia porque sou completamente desorganizado para ter uma. O caos é o meu melhor ambiente, às vezes tropeçando em um livro que está fora do lugar encontro uma ideia e, às vezes, até uma solução para projeto ou ensaio fotográfico. Em um desses modos de criar, faço imagens como se fossem pequenas anotações da vida diária. Não é como um diário porque eu raramente ando com a câmera e fotografo muito pouco no dia a dia. São situações específicas, insights, onde faço anotações de fragmentos de tempos que a principio podem parecer desconexos, mas num outro momento os reorganizo. A outra maneira (e nos dias atuais eu considero compulsiva) é que idealizo um ensaio e levo ele até o fim sem muitos intervalos de tempo. E são esses ensaios que por vezes acabam atropelando outros projetos embrionários.

A experimentação técnica em sua fotografia é um caminho vital ao seu processo de criação.

Só hoje, cerca de 30 anos desde que comecei a fotografar, posso dizer que o que faço é uma escolha, e que continuo a insistir nela apesar de ter toda tecnologia digital a meu favor. Esse processo tecnológico, a mudança de um ambiente tecnológico para outro, também me interessam muito desde que possa lidar com eles, segundo as teorias de Vilém Flusser, subvertendo as funções deles. Em tudo que eu faço e que envolve criação, os processos mais orgânicos me interessam muito, neles posso empregar todos os sentidos e por isso lidar com esses procedimentos me faz muita falta sim.

Na sua atual pesquisa, há uma hibridez de histórias, de caminhos poéticos com relação a São Sebastião e Oxossi. Como se dá esse diálogo?

Ainda sobre a minha ignorância a respeito das religiões foi que nasceu esse ensaio sobre São Sebastião. Há cerca de 10 anos vivo em Diamantina, que, como toda cidade histórica mineira, é uma cidade de tradição fortemente católica. Observando o cotidiano das pessoas, a fé, as igrejas, me veio a ideia de fazer releituras de alguns santos. Elegi pelo menos cinco, e como eu disse antes sobre a minha falta de pressa em fechar meus ensaios, já fazem pelo menos 3 anos que esse ensaio está em aberto. Havia, e ainda há em mim também, um grande interesse sobre os orixás no candomblé. Numa pesquisa básica, obviamente, soube que a divindade referente a Oxossi no sincretismo religioso corresponde à imagem de São Sebastião na igreja católica. No ano passado, retomei minhas pesquisas sobre os orixás, fui até um terreiro local, na Bahia, onde a Mãe de Santo e os búzios confirmaram que o meu orixá é Oxossi, portanto São Sebastião. Decidi que faria então autorretratos, daí parte dessa série apropriou-se de imagens da série "Boa Aparência". Então, entra os punhais simbolizando as flechas do corpo de São Sebastião. Descobri que São Sebastião foi um guerreiro e que aquelas flechas - cravadas no seu corpo - falam das torturas que sofreu. Por isso, a segunda parte do ensaio sobre esse santo trata da violência sobre as minorias, seja por preconceitos ou intolerância de toda natureza.

Às vezes, a fotografia é evocação de histórias da condição humana, de sofrimento.

A fotografia é o canal mais confortável e viável que eu tenho para me expressar. Faço uso dela para discutir e levar às pessoas meus questionamentos e inquietações. Evoco assuntos como memória, heranças hereditárias, violência, intolerância, preconceitos e até a própria fotografia.

GEORGIA QUINTAS É ANTROPÓLOGA, PESQUISADORA E CRÍTICA DE FOTOGRAFIA. AUTORA, ENTRE OUTROS, DE INQUIETAÇÕES FOTOGRÁFICAS: NARRATIVAS POÉTICAS E CRÍTICA VISUAL (OLHAVÊ/TEMPO d'IMAGEM)

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