Sociologia do medo

Caso dos motoboys revela PMs com perfil diferente em áreas nobres e na periferia: ali, eles tornam pior a vida dos mal-aventurados

Percival de Souza

15 de maio de 2010 | 16h00

Brutalidade. Maria Aparecida, a mãe, e Flaviana, a viúva, com foto do motoboy Alexandre Menezes dos Santos, morto aos 25 anos por policiais em Cidade Ademar.

 

 

Por que a brutalidade? A insistente pergunta não consegue encontrar respostas e por isso mesmo atinge em cheio a Polícia Militar de São Paulo, nascida de um efetivo de 130 homens, em 1831, que hoje, por iniciativa própria, pretende voltar a usar o nome institucional de Força Pública. Ela é a maior tropa da América Latina e nem mesmo um comandante regional da Força Terrestre possui tantos homens e mulheres - 100 mil-- em sua área territorial.

 

A pergunta gira em torno do assassinato brutal de dois motoboys no curto espaço de 30 dias - um, espancado até a morte dentro de uma companhia da PM na Casa Verde, zona norte de São Paulo, e outro na Cidade Ademar, zona sul. No primeiro caso, o rapaz foi capturado durante a busca de um ladrão de bicicleta. No segundo, pilotava uma moto ainda sem placas, que havia acabado de comprar. Foi morto em plena madrugada do Dia das Mães. E a mãe, que assistiu a tudo, enterrou o filho no mesmo domingo em que esperava dele um abraço especial.

 

A busca das respostas passa por caldo cultural, resquícios dos anos de chumbo, formação policial sem obter os comprometimentos adequados, tudo em paralelo com a luta por desenhar o modelo de polícia comunitária idealizado por sir Robert Peel para a Polícia Metropolitana de Londres, em 1821. As ambicionadas respostas estão dentro do que poderíamos chamar de sociologia da Polícia Militar.

 

Punctum saliens, o nó: a caserna possui segredos, enigmas que até um secretário da Segurança sente dificuldades em tentar decifrar. Nem sempre consegue. Manoel Pedro Pimentel, no início do governo Franco Montoro, falou em "amordaçar" a PM. A repercussão foi péssima e o secretário, diplomático, reuniu uma grande tropa no casarão amarelo do Primeiro Batalhão de Choque para um formal pedido de desculpas. Antes dele, o coronel Erasmo Dias controlava a polícia com mão de ferro - e, aliás, essa foi uma marca do período da ditadura, quando a Polícia Militar, ao contrário do que acontece atualmente, não tinha o direito de se gerenciar, função sempre reservada a um oficial superior do Exército.

 

Na reabertura democrática, vieram diferentes secretários, dos mais variados estilos - atuantes, ausentes, pretensiosos, arrogantes ou com roupagem acadêmica. Figurino surpreendente e contraditório: a maioria entendia muito pouco de segurança pública, a essência da atividade fim. Assim, ficavam (vários ainda ficam) na mão de seus conselheiros pessoais, os detentores do poder de fato, artífices dos chamados - como se diz nos bastidores policiais - "embargos auriculares".

 

Há tempos a polícia - tanto a Militar como a Civil - precisava de alguém com pulso forte. Este ser nunca agradará a gregos e troianos, e muito menos aos espartanos. Desta vez, Antonio Ferreira Pinto, com uma carranca de poucos amigos a camuflar quem realmente é, mas com know-how da Academia do Barro Branco, a casa mãe, como falam carinhosamente oficiais e aspirantes, e também do Ministério Público, e uma gestão que conseguiu fazer emergir do caos um fragilizado sistema penitenciário, transformado em escritório ostensivo do audacioso crime organizado - câncer conhecido pela sigla PCC -, agiu depressa.

 

Chamou a responsabilidade para si, cobrou presença forte dos comandantes em todos os níveis - principalmente capitães à frente de companhias e tenentes-coronéis, nos batalhões - e chegará gradativamente aos coronéis, responsáveis pelos grandes comandos, como os de área.

 

Exatamente aqui entra a sociologia da PM. Os atuais responsáveis pela segurança pública de São Paulo optaram pelo que entenderam ser prática de "oxigenação" e "arejamento". A partir do comandante-geral, assumiram os principais postos de comando os oficiais menos antigos, como se fala no jargão dos quartéis, em lugar dos mais antigos. É a "cangalha", outra expressão militar para definir tais situações. Secretário e comandante-geral sabem que não bastam reuniões. É preciso chegar à ponta da linha: há comandantes distantes, ausentes, presos a expedientes burocráticos, enraivecidos por terem sido alijados da maior esfera de poder.

 

Alguns preferiram a reserva. Outros se comportam como lordes e consideram a função de policiamento como algo de menor importância - sinistro equívoco profissional. Setores que deixam de ser tropa para se converter em bando são um perigo para a sociedade. Aí tem que aparecer a essência do comando, enfrentando o pecado da omissão, ameaça para todos. Afinal, são 25 milhões de intervenções a cada ano, segundo o comandante-geral, Álvaro Batista Camilo, empenhado num critério humanístico de abordagens policiais.

 

Essa é a sociologia da PM, esculpida em corações e mentes. Não se pode admitir medo da polícia, é erro a ser reparado. O caso dos motoboys não é apenas emblemático. É um diagnóstico que revela PMs com perfis diferentes nas áreas nobres, mas que em pontos afastados da cidade, onde a presença do Estado é mais rara, tornam pior ainda a sofrida vida dos mal-aventurados.

 

 

* Percival de Souza é jornalista, escritor, criminólogo e comentarista da Rede Record de televisão

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