Sebastian Kaulitzki/Shutterstock
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Sociólogo Frank Furedi explica por que vivemos uma 'cultura do medo'

Palavra teve um crescimento incomum nas redes sociais de todo o mundo com o crescimento da pandemia

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

21 de maio de 2020 | 05h00

No dia 24 de abril, a Sociometrica, uma equipe de inteligência artificial italiana, detectou um aumento incomum de uma determinada palavra das redes sociais de todo o mundo. Não era para menos: com o crescimento exponencial da pandemia do coronavírus, esse vocábulo só poderia ser um: “medo”.

Mesmo com o seu decréscimo de 62% a 45% nos dez dias seguintes, ainda assim esse termo continuou a prosperar nas mentes dos internautas, competindo com “tristeza” e “esperança”. Contudo, a sua persistência indica também um outro evento mais perturbador: o de que talvez já vivemos permanentemente em uma “cultura do medo” – e da qual não teremos mais como escapar.

Esta é a tese proposta pelo sociólogo anglo-húngaro Frank Furedi em seu inquietante livro How Fear Works – Culture of Fear at the 21st Century (Bloomsbury, R$ 89,67) e que vem muito a calhar nesta era da covid-19, plena de isolamento social. Furedi já lidou com o tema no passado, mas também possui outros interesses, como a história cultural da Grande Guerra. Sua grande obsessão, entretanto, é a cultura do medo, já dissecada em um tomo de mesmo título, publicado no final da década de 1980, o que lhe deu certos ares proféticos na imprensa inglesa. De fato, ele viu muita coisa que vários se recusaram a perceber: a emergência de uma “teleologia da perdição”, cuja perspectiva crescente sufoca o ser humano não só no modo como exerce a sua liberdade individual, mas sobretudo na forma como ele constrói a sua personalidade, perdendo a chance de cultivar as virtudes da coragem e da esperança no confronto com os impasses da vida.

Em How Fear Works, Furedi expande esse argumento para a situação contemporânea. Sem saber que, meses depois, a cultura do medo iria se impregnar em todos nós por causa do coronavírus, ele afirma que viver em temor se tornou a única regra constante, de campanhas políticas às discussões sobre o terrorismo islâmico. Sua conclusão é ainda mais horripilante: se esse tipo de cultura persistir no modo como educamos a nossa psique, a consequência duradoura é que ela “promoverá continuamente a ideia de que a nossa segurança depende do fato de que devemos abandonar nossas liberdades, e a celebração de um princípio da precaução nos deu uma perda de critério sobre nossas chances de assumirmos riscos. A liberdade de realizar experimentos científicos e de inovar geralmente será restringida pelo imperativo da segurança e pela preocupação com seus possíveis efeitos colaterais”.

Aqui, a primeira vítima dessa nova cultura é justamente a liberdade de expressão. Nas palavras de Furedi, “essa união entre uma imaginação iliberal e o medo” mina por dentro o risco de se discutir quaisquer assuntos com precisão, em particular dentro das universidades, das redações da grande mídia e no mercado editorial. Pensar sem amarras será uma atividade a ser destruída pelas regras dos comitês de burocratas que afirmarão sem hesitar de que a liberdade deve ser abandonada em lugar de “considerações éticas”. Isso já acontece em vários campi universitários da Europa, dos EUA e do Brasil, onde se discutem formas de censurar discursos que possam agredir ou ofender pessoas mais sensíveis. De acordo com esse ponto de vista, a censura é justificada como uma forma de terapia pública que protegeria os desvalidos e os necessitados em termos psíquicos.

O dilema exposto por Furedi é um desses temas subterrâneos da história das ideias, sendo abordado por clássicos como Jean Delumeau (História do Medo no Ocidente) até Christopher Lasch (O Eu Mínimo e A Cultura do Narcisismo), passando pelo incontornável Thomas Hobbes e o clássico dos clássicos sobre a cultura do medo: Leviatã, publicado em 1651. Infelizmente pouco citado no trabalho de Furedi, o tratado sobre a tensão que há entre segurança e liberdade individual, escrito por um homem que testemunhou uma guerra civil e uma peste que quase dizimaram o seu país, ainda é o principal responsável pela “teleologia da perdição” na qual estamos mergulhados nessas últimas décadas.

Até hoje, a revolução psicológica provocada por Hobbes na sensibilidade ocidental não foi adequadamente compreendida. Ele não apenas fez uma reviravolta no nosso modo de fazer política; Hobbes criou uma nova forma de encarar o mundo. Como notou Leo Strauss, se antes a humanidade acreditava em um Bem Supremo (summum bonum), no qual a vida terrena tinha um sentido além deste “vale de lágrimas”, a partir de agora o ser humano era obrigado a se dirigir somente para um Mal Supremo (summum malum), comprovado pela marcha horripilante das chacinas da História. Na prática, isso nos fez romper os laços com qualquer possibilidade de transcendência – e mais: incutiu nas nossas mentes o medo da morte.

Essa violência é explicitada diante dos nossos olhos com as guerras, os holocaustos e as torturas – todas demonstrações de uma mecânica do medo que infectou o Ocidente como um todo. É claro que uma pandemia contribui ainda mais para isso. E é neste ponto que o diagnóstico de Furedi começa a mostrar um certo descolamento das ambiguidades do mundo real.

Sem dúvida, a “cultura do medo” provoca todas essas consequências indesejadas, habilmente analisadas pelo sociólogo, especialmente a respeito das nossas liberdades individuais. Mas essa crítica só passa a fazer sentido em um mundo que exista em condições normais de pressão e temperatura. Quando nos encontramos no domínio do Extremistão – aquele território do real, antevisto por Nassim Taleb, onde tudo está conectado e cada ato nosso tem um impacto imprevisto –, essa mesma cultura passa a ser absolutamente irrelevante para a nossa sobrevivência.

É o que aconteceu com a emergência da peste do coronavírus. Infelizmente, depois dela, quem passou a ter razão foi Thomas Hobbes. Trocamos, sim, a nossa liberdade por um pouco mais de segurança – e o que era a educação para enfrentar a vida com coragem tornou-se uma educação que rejeita o exagero dessa mesma virtude: a temeridade. Aqui, Furedi dá a impressão de ser o último estoico iluminista na Terra, uma espécie de John Wayne intelectual que, em vez de sacar uma arma para se proteger, logo grita aos quatro ventos o famoso dito de Immanuel Kant – Sapere Aude! (Ousar conhecer!) – e acredita que tudo ficará bem. Não, não ficará, especialmente neste mundo pós-pandemia. Apesar da sua lucidez, Furedi se esquece que a verdadeira fortaleza individual surge não de querer enfrentar o medo de maneira abstrata, mas sim de reconhecer, dentro de si, a nossa fragilidade intrínseca e saber que, como diria um apóstolo de uma época distante, “quando sou fraco, então, é que sou forte”.

Admitir a nossa vulnerabilidade diante de um vírus que não se importa com o nosso saber ou com a nossa coragem não é se render à “cultura do medo”. É nada mais nada menos que ter a plena noção da nossa insignificância diante dos mistérios do mundo – algo que, por um lado, é maravilhoso e, por outro, é assustador. H.P. Lovecraft, que entendia muito bem de horror metafísico, escreveu certa vez que “a coisa mais misericordiosa do mundo é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. Vivemos em uma ilha plácida da ignorância em meio a mares negros de infinito, e não se pensou que íamos viajar longe. As ciências, cada uma progredindo em direção à parte, até o momento pouco dano nos causaram; mas algum dia a junção do conhecimento dissociado abrirá perspectivas tão apavorantes da realidade, e da posição temível que nela temos, que ou ficaremos loucos com a revelação ou fugiremos da luz mortal na paz e segurança de uma nova idade de trevas”. A notável obra de Frank Furedi deseja justamente impedir que isso aconteça conosco; porém, antes de tudo, ele precisa impedir que seja trucidado pela mesma mecânica do medo que diagnosticou entre nós.

*MARTIM VASQUES DA CUNHA É AUTOR DO LIVRO ‘A TIRANIA DOS ESPECIALISTAS’ (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2019).

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