Kacper Pempel/Reuters
Kacper Pempel/Reuters

Sofrimento de pai e filho em Auschwitz é tema de romance histórico

Inspirado em acontecimentos reais, livro de Jeremy Dronfield mostra facetas pouco conhecidas do Holocausto

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 16h00

Este livro deve ser lido como um romance, aconselha o autor de O Garoto que seguiu o Pai para Auschwitz, Jeremy Dronfield. É uma opção. Mas, como é uma história real, que conta a trajetória trágica da família de Gustav Kleinmann, sua mulher Tini, e seus filhos Edith, Herta, Fritz e Kurt, pode também ser classificado como uma biografia detalhada e emocionante de judeus pobres de Viena. Dronfield escreveu com fontes primárias – a começar pelo diário secreto de Gustav. Ele escondia seus relatos e reflexões sob a roupa e em lugares insuspeitos dos campos de Auschwitz e Mauthausen. Conversava com outros prisioneiros e guardava na memória gestos e ordens de comando da SS, tropa de elite do exército nazista. Kurt escreveu um livro de memórias. Leu o diário do pai, consultou testemunhas, entrevistou sobreviventes das prisões. Graças à sua irmã Edith, refugiada na Inglaterra, conseguiu um visto para os Estados Unidos, onde foi adotado por um juiz.

Após a anexação da Áustria, o tecelão Gustav Kkeinmann e seu filho adolescente Fritz foram presos e embarcados num trem de carga para a Alemanha. De 1939 a 1945 passaram por cinco campos de concentração e de extermínio. O mais marcante foi o de Auschwitz-Birkenau, na Polônia ocupada. Pai e filho permaneceram juntos, porque Fritz sempre deu um jeito de ficar ao lado de Gustav. Ao entrarem em casa, não encontraram mais Tini e Herta. Souberam, mais tarde, que elas haviam sido presas, deportadas e mortas, perto de Minsk, na Bielo-Rússia.

“O menino é minha maior alegria”, escreveu Gustav em seu diário, em Buchenwald, acrescentando: “Damos força um ao outro, somos inseparáveis”. Um ano depois, quando Gustav era transferido para Auschwitz, quase uma sentença de morte, Fritz fez questão de acompanha-lo. Foi a salvação dos dois. Em todos os cinco campos pelos quais passaram – Buchenwald, Auschwitz, Mauthausen, Mittelbau-Dora, Berguen-Belsen – pai e filho sobreviveram pela sua união.

Pai e filho trabalharam na pedreira, desceram de lá carregando pedras de 15 quilos, a meio galope, limparam latrinas, arrastaram cadáveres de prisioneiros judeus para fora dos blocos, aturavam sem reação as bordoadas nos corpo, ouviam calados os palavrões e ofensas dos guardas da SS. Aguardavam, com paciência, esperançosos ou quase descrentes, a hora de reagir. Gustav e Fritz pertenciam à resistência de prisioneiros que se organizavam para lutar contra os algozes nazistas. Torciam pelos seus desconhecidos libertadores ingleses, norte-americanos e russos (Exército Vermelho Soviético), quando seus bombardeiros e tanques se aproximaram, rugindo, para o ataque final.

Em Auschwitz, campo famoso pelas atrocidades cometidas pela SS e pela Gestapo, polícia de informação, era possível fazer amigos, conseguir favores ilegais, comprar artigos de luxo e dinheiro pelo mercado negro. Entre as atrações, um bordel servido por mulheres – prisioneiras de Birkenau – que haviam se apresentado como “voluntárias”, com a promessa de ganhar a liberdade. As mulheres eram alemãs, polonesas, checas. Nunca judias. Só os arianos recebiam um cupom de bônus para frequentar o bordel. 

Gustav tinha o direito de receber os cupons como funcionário ariano. Com esse título concedido pela SS, à sua revelia, trabalhava sem uniforme de prisioneiro em funções selecionadas para capataz. Gustav tentou recusar os cupons. Não frequentaria o bordel, alegou, porque estava velho (52 anos) e doente. Cigarros, artigo de luxo não lhe interessavam, porque não fumava e estava muito debilitado. Repassou os cupons a Fritz, que os vendeu a prisioneiros e entregou o dinheiro a membros da Resistência montada no campo, subordinada a um campo em Viena.

Ninguém era de confiança para o grupo, até que se provasse a lealdade de alguém interessado em participar do movimento clandestino. 

“Fico satisfeito em ouvir alguém falando alemão, pois não vi muitos alemães, depois que vim trabalhar aqui”, disse um soldador civil, ao ver Fritz passar com um grupo de amigos. O jovem olhou para o civil. Era alemão, mancava de uma perna e analisava o uniforme dos prisioneiros. 'Por que está aqui?', perguntou a Fritz?” Diante da surpresa do prisioneiro, repetiu a pergunta.

“Qual foi seu crime?”, emendou outra pergunta. “Somos judeus”. O civil não entendeu. “Mas o Fürher nunca prenderia alguém que não fez nada de errado. Estamos no campo de concentração de Auschwitz, sabe o que significa?” O civil parecia não saber. “Estive no Exército, no Fronte Oriental, não faço ideia do que está acontecendo no país”. Fritz apontou seu distintivo e explicou: “Isso aqui é a Judenstern, a estrela judaica”. “Eu sei o que é. Mas ninguém é preso por causa disso”, replicou o alemão.

Os dois se afastaram, a conselho dos líderes da Resistência. Em seguida, retomaram os contatos. Fritz não acreditava que o civil alemão fosse um infiltrado da Gestapo. Em novas conversas, o alemão lhe revelou que se chamava Alfred Wocher. Quando disse que era de Viena, Wocher se ofereceu para levar encomendas para a família dele. Fritz aceitou. Não era muita coisa, mas serviu para os parentes saberem que ele não estava morto. 

Contra todas as expectativas, Gustav acreditava que sobreviveria. “A SS não vai nos vencer”, repetia para o filho. Gustav e Fritz conseguiram escapar, numa aventura cheia de tropeços de trem, depois a pé por montanhas e florestas. Reencontraram-se em Viena, num bairro arruinado e a casa vazia. Tini e a filha Herta não estavam mais lá – haviam sido deportadas e assassinadas. Gustav ficou no apartamento de Olly Steyskasl e se casou com ela em 1948. Retomou a profissão de tapeceiro. Morreu em 1º de maio de 1976, um dia antes de completar 8.

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