Sois sóis

O trabalho 'Albinos' se desdobra no livro homônimo (editora Madalena e Terceiro Nome; R$ 90) e integra a exposição Elemento Latente, em cartaz no Sesc Santana, SP, até 21 de setembro

Entrevista com

Gustavo Lacerda

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

 O mineiro Gustavo Lacerda acha que era só um espectador das artes até transferir sua fotografia da rua para dentro de um estúdio. Foi aí, conta, que passou a fazer arte também. Ele tem 44 anos e fotografa há 20. Começou como fotógrafo de jornal e revistas. Em 2007, atrás de suas origens nordestinas, foi conhecer o sertão de Pernambuco, que povoava as histórias da família contadas pelo avô e pelo pai. Voltou com o ensaio Betânia (nome da cidade onde os dois nasceram), uma série de retratos de gente que vive à margem, os não protagonistas, os invisíveis na sombra da sociedade de consumo. Foi ali que teve a ideia de fotografar Albinos, seu aclamado trabalho que rendeu livro, exposição e um caminhão de descobertas. 

Porque Lacerda, primeiro, achou que retratar pessoas ensolaradas como aquelas ficaria “esteticamente interessante”. Mas, durante o processo, descobriu que seria impossível tapar a força política daquelas imagens. Distúrbio congênito caracterizado pela ausência de pigmentação na pele, o albinismo marca as pessoas. Elas têm a pele muito clara, cílios e cabelos quase brancos e são ultrassensíveis à luz do sol. E são vítimas de preconceito.

A maioria das pessoas convidadas a posar para Lacerda jamais tinha sido chamada para nada que não fossem arapucas para zombaria, dor e vergonha. Ao fotografá-las de maneira sensível e eloquente, Lacerda lhes confere o que é de direito: altivez, força e voz.

Lacerda quer continuar acompanhando o crescimento de parte das famílias retratadas. No belíssimo livro feito pelas editoras Madalena e Terceiro Nome, folhas de papel-manteiga intercalam as páginas com os retratos, tentando passar a sensação da pele quase transparente dos albinos e daquelas imagens claras, até então na sombra, sendo lentamente reveladas. Há também a reprodução de uma carta de Ana Beatriz Vassimon, mãe das gêmeas Mariana e Helena, que foram fotografadas, contando como foi receber as duas no colo depois o parto. Ela escreve: “Aprendemos que a vida é mesmo rara, e pra seguir em frente, aproveitando o melhor: protetor solar e muita alegria”. 

Em que lugares você fotografou?

Nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Maranhão. A Ilha de Lençóis (MA) foi considerada nos anos 1970 a localidade com maior incidência de albinismo per capita do País. Hoje tem aproximadamente 300 habitantes, 11 dos quais, albinos. É um lugar com sol durante quase o ano todo, dunas, ou seja, muita claridade. Então, a maioria deles acabava morrendo de câncer de pele ou saindo de lá. E exatamente por ser uma ilha tão pequena havia vários casamentos consanguíneos, por isso o alto índice de albinismo. Num lugar tão encantador e quase paradisíaco foi difícil manter o foco no ensaio, manter os retratados no estúdio. Era tentador fazer ao ar livre, naquela bela paisagem. 

O que você descobriu fotografando pessoas albinas?

A importância do fazer das fotos para elas também. São homens, mulheres e crianças que se sentem à margem mesmo, e vivem literal e metaforicamente na sombra. Sofrem por ser daquele jeito. Então eu quis mostrar a beleza que há ali também. Eram pessoas que geralmente se escondiam da luz, ficavam sempre escondidas e protegidas em suas casas, porque quando saíam sofriam preconceito. As crianças representadas reclamaram muito de bullying na escola. Percebi que o processo de fazer os retratos deveria ser cuidadoso.

E como foi?

Eu levava sempre uma figurinista e um maquiador, e isso mudava a forma como os retratados ficavam diante da câmera. Eles passaram a mostrar uma vaidade maior, autoconfiança. A luz era montada como se fosse um dia nublado, porque era a forma como eles se sentiam mais confortáveis. Havia uma arara de roupas para cada um escolher como queria se vestir, mas sempre em tons pastel. E aí colocávamos o fundo como se fossem portraits antigos, a depender do tom da pele, do cabelo e da roupa de cada um. A nossa base era a cor do cabelo ou da pele de cada um. O elemento essencial foi essa preparação toda, eles se encarando no espelho antes e aceitando estar ali.

Alguma coisa mudou na vida dessas pessoas depois das fotos?

A maioria não queria ser fotografada, mas alguns vieram me procurar para participar depois que o trabalho ganhou repercussão. Uma garota de Macaé (RJ) me escreveu dizendo que não se sentia bonita, que já tinha sofrido muito na escola e queria participar das fotos. Ela veio de ônibus a São Paulo. No começo foi difícil, no fim ela já estava até se achando bonita. O ensaio teve essa importância, de eles estarem ali de frente pra câmera, enfrentando aquela situação. Acredito que, sobretudo em relação ao preconceito, um trabalho assim causa mudanças internas nas pessoas.

Mais conteúdo sobre:
Aliás

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.