Todavia
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'Sombrio Ermo Turvo' reúne ficções breves de Veronica Stigger

Escritora brasileira tem como mote a deformação da realidade em seus textos

José Castello*, Especial para o Estado

08 de junho de 2019 | 16h00

Veronica Stigger escreve para dilatar a realidade. A realidade banal, de nosso dia a dia, não a interessa. Nelson Rodrigues dizia escrever para revelar “a vida como ela é”. Talvez nenhuma ideia cause tanta repugnância a Verônica. Ela não escreve para refletir, para retratar, para mostrar, mas para deformar e esconder. Escreve para criar. Isso fica claro, em definitivo, com a leitura de Sombrio Ermo Turvo, seu novo livro, que acaba de sair pela editora Todavia.

Detenho-me em um relato como O Maquinista. Em plena madrugada, quatro homens se preparam para um ato que promete ser espetacular. Não sabemos o que planejam, sabemos apenas que envolve um maquinista, que serve na estação ferroviária. “Sejamos fortes, camaradas”, sussurra João. Mateus esconde o rosto no ombro do amigo, “como se quisesse cheirar sua nuca”. Estão juntos e agarrados a seu projeto. João traz consigo um martelo, Mateus um canivete suíço, Pedro uma corda, e Tiago uma chave de fenda. Preparam-se. Rezam. Ajeitam os capacetes. O Maquinista, sua vítima, permanece em seu posto. Mas, quando a ação parece enfim começar, o conto termina. Ficamos apenas com os preparativos para um ato que nunca conheceremos. Com esse corte abrupto, Stigger nos devolve seu relato, o empurra em nosso colo e mostra que agora cabe a nós, leitores, decidir.

Outro conto, O Livro, transcreve uma palestra a respeito de uma novela inédita, Rancho, de autoria de Veronica Stigger, ela mesma. Ou não será ela mesma, mas só um homônimo? A novela conta a história, em primeira pessoa, de uma mulher, Verônica também (mas com acento circunflexo), que viaja pelo mundo fazendo a leitura de um longo e mesmo poema chamado O Coração dos Homens. As Verônicas se desdobram; o leitor já não sabe onde pisa. Comenta a palestrante: “Muitas vezes, a escrita de Stigger beira o banal, o quase infantil, o frouxo mesmo, com certo apelo a uma sintaxe pouco brasileira.” Veronica não facilita as coisas para si. Ao contrário: sua escrita gosta de levantar obstáculos, de promover confusões, aprecia a opacidade e a imprecisão. Ela escreve, antes de tudo, para nos deixar assombrados e atônitos.

Passo a um relato mais longo, A Piscina, que se originou de uma improvisação de atores para a peça Salta!, do Coletivo Teatro Dodecafônico. A estrutura teatral se mantém – e nos desconcerta. A escrita se transforma em palco. Quatro mulheres e um homem contracenam em torno de uma piscina. Ao fundo, uma mesma voz, em várias versões, resume sua história, que envolve um trágico acidente de carro e o atropelamento de uma mulher. O relato é quebradiço e caótico, sem rumo, reproduzindo a estrutura desorganizada e aleatória da vida. “Cadê o contrarregra? Não tem contrarregra aqui? Que espelunca”, a voz protesta em dado momento. Retratar a vida não é amordaçá-la, ao contrário, é emparelhar com sua desordem. Horas litúrgicas nomeiam as várias cenas, enfatizando o caráter ritualístico. Longas conversas sobre bobagens, brigas tolas, discussões sobre nada. O relato talvez não passe de uma brincadeira. Mas será a vida diferente?

Veronica Stigger trata a ficção sem pompa, sem refinamento, sem estilo. Joga com as palavras – e aqui a sombra de Julio Cortázar se perfila atrás de uma pilastra. Se a vida é um jogo que jogamos com os olhos vendados, que outra coisa poderia ser a ficção? A narrativa se despedaça – porque a vida se despedaça também. Não, Stigger não se interessa pelas histórias “bem contadas”, ou pela arte de “escrever bem”. Os temas mais graves – a dominação, a manipulação, a atração sexual, a morte – são tratados como o que, de fato, são: partes repetitivas, e até desprezíveis, do humano. 

Podemos ter as melhores intenções, mas, na hora agá, a vida nos arrasta e fazemos sempre ao contrário. Está em O Boi, relato de onze linhas, que talvez seja uma parábola. Um homem, Eduardo, se prepara para matar um boi. Segue as instruções do estancieiro José, lendário praticante dessa arte. “José tinha sido claro: o tiro deveria ser dado pelas costas e na cabeça”. Parece que Eduardo entendeu tudo muito bem. “Porém, ao se aproximar do boi, sussurrou algo, talvez um nome, talvez uma prece”. Contrariando as instruções do mestre, esse murmúrio leva o boi, no instante do tiro, a olhá-lo nos olhos. Parece que é isso o que acontece – mas nada fica muito claro. 

Há sempre uma força viva que, traiçoeira, desmonta nossas melhores intenções. Estamos vivos, isto é: não somos donos de nós mesmos. Resta jogar o breve jogo da vida – e aqui a literatura se torna uma aliada de Veronica. Não importa muito o que fazemos, ou o que deixamos de fazer, no fim das contas estamos sempre diante de um enigma.

*JOSÉ CASTELLO É JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PELA UFRJ E ESCRITOR. AUTOR DE 'RIBAMAR' (BERTRAND BRASIL) 

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