Sombrios anos 90

Livro mostra como o desastrado affaire de Clinton abriu graves feridas nos EUA

O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2010 | 00h56

Na lista de best-sellers do New York Times está Game Change, o compêndio de John Heilemann e Mark Halperin sobre a campanha eleitoral americana de 2008, recheado de intrigas políticas e fofocas sexuais. E ele - marido de uma das corredoras nas primárias democratas e ex-chefe da estagiária Monica Lewinsky - comparece sem muita dignidade. Estrategistas da campanha de Hillary Clinton estavam preocupados com o impacto político do predatório comportamento sexual do ex-presidente. Sabe aquelas histórias de casos com uma deputada canadense, uma ricaça divorciada de Nova York, uma atriz de segunda categoria em Hollywood e as viagens que ele fazia para Las Vegas no avião particular do amigão Ron Burkle conhecido como "Air Fuck One"?

Vamos confessar: leitura saborosa. Mas se uma lição de moral (opa!) é que a vida pessoal de William Jefferson Clinton, o 42º presidente dos EUA, não deve ser tratada com leveza folclórica, uma mais solene é sobre o perigo de zelo inquisitorial. Nos anos 90 do remoto século 20, isso foi feito pelo promotor independente Kenneth Starr.

Ele devassou com ardor perverso e a obsessão de um inspetor Javert a vida pessoal do então presidente como parte das investigações sobre a bizantina tramoia imobiliária conhecida como Whitewater (que antecede os dias do presidente na White House). O exame das finanças do casal Clinton no Estado de Arkansas se transformou em análise do DNA do vestido azul de Monica Lewinsky manchado de sêmen.

Portanto, depois que Starr penetrou nessas coisas, é o vale-tudo de livros como Game Change, que não estão na estante de soft porn. E muito menos o calhamaço (legível) de 800 páginas do professor de direito Ken Gormley. Não é um indiciamento partidário de Kenneth Starr. Tampouco é a absolvição partidária de Bill Clinton. Gormley diz que The Death of American Virtue: Clinton vs. Starr (editora Crown) é a "definitiva e neutra" narrativa histórica sobre o impeachment do presidente, o segundo julgamento na história americana (Clinton foi condenado na Câmara dos Deputados em 19 de dezembro de 1998 e absolvido no Senado em 12 de fevereiro de 1999).

A neutralidade do livro de Gormley, fruto de um trabalho de nove anos, é, de fato, uma virtude, e ele tem o espaço que eu não tenho para detalhar a escalada de Whitewater ao impeachment. Em dezembro de 1997, Starr tinha arquivado a investigação imobiliária por insuficiência de evidências. Um mês mais tarde, Linda Tripp contatou seu escritório para comunicar que gravara suas conversas com sua colega de trabalho Monica Lewinsky sobre seu affaire com o presidente.

Desvios do curso judicial resultaram em desastres terríveis. Starr admite em entrevistas que ele não deveria ter se metido no affaire Lewinsky, mas alega que era sua obrigação. Aqui Starr lembra o coronel britânico Nicholson (Alec Guiness), do filme A Ponte do Rio Kwai, que em nome do senso de dever perde a perspectiva do que estava em jogo e colabora com os japoneses na construção da ponte. Mas, como lembrou David Greeenberg, que resenhou o livro de Gomley no Washington Post, pelo menos no filme a ponte explodiu. Archibald Cox, que foi promotor especial no escândalo Watergate e objeto de uma biografia de Gormley, diz que, motivos à parte, o fundamental é que Kenneth Starr cometeu abuso com sua construção inquisitorial.

Já o presidente, enquanto era investigado por corrupção e assédio sexual (caso Paula Jones), transformou o Salão Oval da Casa Branca no Salão Oral. Houve o perjúrio e a frase memorável do equilibrista linguístico Cllinton (não exatamente de densidade Roosevelt ou Kennedy) de que não tivera sexo com "aquela mulher". No julgamento de Gormley, "o homem mais poderoso do mundo foi incapaz de resistir a uma atração lasciva básica".

Um homem com tanto talento político foi um desperdício. Não há missão humanitária no Haiti que vá remover as manchas na biografia presidencial que foram aqueles episódios sórdidos nos anos 90. O resto é uma história sombria. A comoção tem um sabor fin de siècle. Enquanto os americanos estavam distraídos com os segredos anatômicos de Bill Clinton, nas cavernas do Afeganistão gente muito mais sórdida do que promotores com excesso de zelo, picaretas imobiliários, mulheres oportunistas e presidentes-adolescentes tramavam os atentados do 11 de Setembro.

De novo, que desperdício. Clinton sobreviveu ao julgamento, mas não entregou o Salão Oval a Al Gore. O escândalo abriu as portas para a vitória de George W. Bush, aquele que prometeu restaurar a dignidade da Casa Branca e deu em porcaria muito maior do que o vestido azul da Monica.

A convoluta sucessão de eventos nos anos 90 arruinou vidas, destroçou reputações e polarizou o país. Hoje aqueles embates épicos parecem que foram travados por tão pouca coisa. É um veredicto melancólico. Para Gormley, o impeachment abriu graves feridas políticas e culturais nos EUA. Barack Obama teve a pretensão (ingênua ou cínica) de que poderia cicatrizá-las.

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