Sonífera Riviera

Sob o impacto da crise europeia, o frustrante encontro de líderes mundiais na glamourosa Côte d’Azur faz questionar os limites e possibilidades do G-20

Juliana Sayuri, de O Estado de S. Paulo,

05 de novembro de 2011 | 15h05

Era o momento para as principais lideranças internacionais discutirem os rumos do mundo no glamouroso balneário de Cannes, na França. Na pauta, questões como as políticas para o desenvolvimento socioeconômico em escala mundial. Na prática, a crise europeia surrupiou a cena do encontro iniciado na quinta-feira no resort mediterrâneo, sobretudo com a bancarrota iminente da Grécia e o ultimato da França e da Alemanha ao premiê grego, George Papandreou. Agora estão na mira Espanha e Itália. No fim, chefes de Estado e de governo se despediram da Côte d’Azur deixando um bom punhado de perguntas e respostas tão certeiras quanto o destino do velho - e envelhecido - continente. Na berlinda, a questão: o G-20 está aí para quê?

 

Eles eram sete, até que a Rússia pediu passagem em 1997 e se laureou como oitavo membro. Agora, são 20. Alicerçada em 1999 no trepidante terreno da crise asiática, a nova cúpula reúne representantes da África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia. Para fechar a conta da confraria VIP, o último nome é a União Europeia. Desde 2008, os “caras” fizeram reuniões em Washington, Londres, Pittsburgh, Toronto e Seul. Na vez de Cannes, porém, as atenções se dividiram entre os reveses em Atenas e as manifestações em cidades como Nova York, Londres e Berlim.

 

De “fórum do futuro”, na perspectiva otimista da chanceler alemã Angela Merkel, a “oligarquia multimilionária”, na expressão severa do cubano Fidel Castro, o G-20 é antes um “laboratório emergente”, diz a cientista política Karoline Postel-Vinay, diretora de pesquisa do Sciences Po - a mesma casa que conferiu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o título de doutor honoris causa. Também P.h.D. em relações internacionais pelo Institut d’Études Politiques (IEP), a pesquisadora acaba de voltar da Cidade do México, que será a anfitriã para os encontros do G-20 em 2012.

 

Heterogêneo que só, o grupo reúne países desenvolvidos e emergentes, democráticos e autoritários, laicos e extremamente religiosos. “A composição do G-20 é arbitrária, mas seria um exercício diplomático perigoso demais tentar mudar essa composição”, alerta Karoline.

 

Para a autora de Le G-20, Laboratoire d’un Monde Émergent (Presses de Sciences Po, 2011), o G-20 não é nem diretório global de uma nova ordem mundial nem célula para a crise de economias em falência. “É mais um espaço de observação, invenção e experimento de novos modos de cooperação internacional num mundo em transformação”. De Paris, enquanto observa os desdobramentos de Cannes, essa franco-americana de 51 anos conversa com o Aliás.

 

Por que a senhora se refere ao G-20 como um laboratório?

 

Porque nele podemos experimentar novas formas de cooperação internacional. Em primeiro lugar, os membros do G-20 não estão acostumados a trabalhar juntos para definir os problemas globais prioritários. Antes, as antigas potências e os países emergentes eram divididos pela linha norte x sul. Em seguida, o mundo muda. Há uma redistribuição econômica, o que implica redefinição de responsabilidades. E finalmente os protagonistas das relações internacionais se diversificam. Há sempre os Estados, mas há também as organizações regionais, as ONGs de todos os tipos e o G-20, que, por meio de seus grupos de trabalho, coopera com todos esses atores.

 

O G-20 é legítimo? Por que há uma discussão sobre a legitimidade do grupo?

 

Na Noruega, o ministro das Relações Exteriores, Jonas Gahr Store, disse que o G-20 não tem legitimidade mundial, isso porque queria ver os países nórdicos representados ali. Muitos países ficaram bravos por não estarem no grupo. Mas é preciso lembrar que o G-20 começou como uma reunião de ministros das finanças, na esteira da crise financeira asiática de 1997. Depois passou a ser G-22 (ainda em 1997), então G-33 (em 1998), mas aí viram que era muita gente - e não estava funcionando. Naquele momento, o G-7 propõe reduzir o número de membros. Cingapura e outros países asiáticos presentes no começo do processo dos “Gs” na década de 90 foram excluídos do novo grupo. Outros países europeus nórdicos, como a Suécia, também. Não ficaram muito felizes por ficarem de fora. Outro motivo para críticas é que o G-20 está ficando poderoso e pode acabar ofuscando as Nações Unidas, como se ela fosse a única instituição legítima. Ao mesmo tempo, países-membros do G-20, como a África do Sul e o Brasil, apoiam a ONU - e também querem fazer parte do seu Conselho de Segurança. Quer dizer, uma instituição não está em contradição com a outra. Então, é uma ilusão quando os críticos dizem que o G-20 não é tão legítimo quanto a ONU. E alguns países lançaram grupos regionais, como a Cingapura com o “3Gs”, o Global Governance Group, para tentar fazer uma ponte entre o G-20 e a ONU.

 

No artigo Dix Idées Reçues sur le G-20, publicado no jornal francês Le Monde, a senhora destaca dez mitos sobre o grupo.

 

Há várias ideias inexatas: o G-20 reúne 20 Estados. Na verdade, são 19 Estados e um grupo regional, a UE. O G-20 reúne os 20 países mais ricos do mundo. Também é inexato, é só conferir a riqueza da Argentina e da África do Sul. O G-20 foi fundado em 2008, com o primeiro encontro. Não, a idealização está intimamente relacionada à crise asiática, que depois arrastou a Rússia e a América do Sul. E existe a crítica de que o G-20 “esquece” 173 nações... É um paralelo equivocado com as Nações Unidas. A ONU reúne 193 países e tem seu papel. O G-20 reúne 20 lideranças e desempenha outro papel. E ele não é só um espaço para se discutir a economia. Em 2008, o G-20 agrupava chefes de Estado e de governo. Aí tivemos a crise das subprimes. O G-20 se voltou para administrar a crise financeira dos EUA, que passou a atingir a Europa.

 

Ao mesmo tempo, os países emergentes, antes calados, passaram a mostrar força nas reuniões. É como se dissessem: “Queremos conversar sobre coisas que nos interessam também, não queremos só cuidar dos problemas da Europa e da América do Norte”. Mas quero enfatizar que tendemos a confundir o G-20 com o G-8. O primeiro representa, notadamente através da China, da Índia e do Brasil, uma grande parte da população mundial que vive na pobreza ou na extrema pobreza. O grupo agrega também, com a Arábia Saudita e a Indonésia, governos religiosos. O G-8 é composto por países ricos, laicos e democráticos (à exceção da Rússia). Já o G-7, por ser mais coeso, tinha um poder de coordenação muito forte. Não é o caso do G-20. O ponto forte do G-20 é conseguir reunir países tão diversos em torno de uma mesma mesa.

 

Em outro artigo de sua autoria, A Laboratory to Analyse a Changing World Order, publicado no dossiê The G-20 Cannes Summit 2011, a senhora diz: ‘O G-20 parece muito mais um espaço em construção que uma organização estabelecida e totalmente funcional’. Ainda concorda com essa ideia?

 

Sim, pois o G-20 não é uma instituição estabelecida. Em agosto do ano passado, Nicolas Sarkozy levantou a questão de se ter um secretariado permanente no grupo. Canadá e Austrália, por exemplo, são a favor de uma instituição mais estabelecida e permanente. Por enquanto, a presidência é rotativa. No ano passado a Coreia do Sul tinha a presidência. A atual é francesa No próximo ano será mexicana. Ocorre que quem tem a presidência define a agenda do encontro. No entanto, os países não estão prontos para estabelecer um secretariado permanente. Ainda não é o momento certo para discutir se devemos institucionalizar o G-20 - ou não. Pois, por enquanto, o grupo continua sendo uma estrutura muito flexível. É mais um processo que uma instituição.

 

A presença de países emergentes pode influenciar discussões sociais?

 

Os países emergentes, especialmente o Brasil, têm desempenhado um papel determinante na definição de uma agenda de questões sociais. O Brasil tem tido um papel importante de coordenação com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo. Em 2008, o G-20 se tornou o ápice do encontro de Estados para enfrentar a crise financeira iniciada nos EUA. No entanto, a mobilização do G-20 não faz sentido se servir apenas para resolver os problemas das velhas potências.

 

Qual é a importância de instituições como o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (Nepad) e a União Africana (UA)?

 

A composição do G-20 não é satisfatória, porque parcialmente arbitrária. Mas seria um exercício diplomático perigoso mudar essa composição porque muitos países pediriam para entrar no grupo, como Cingapura e Holanda, que, aliás, é uma das maiores economias do mundo. E, se a Holanda entra, a Espanha pediria também e logo teríamos críticas sobre a presença excessiva de nações europeias no grupo, enquanto as nações europeias esquecidas argumentariam “mas nós também deveríamos estar lá”. Ao mesmo tempo, as nações africanas iriam querer o mesmo espaço. No fim, todo mundo estaria no “G” - e não dá para trabalhar assim. Seria um pesadelo. O problema é que nunca há um consenso sobre grupos e regiões. Quem representa quem? Uma forma de compensar a sub-representação da África no G-20 seria convidar regularmente os grupos regionais africanos, como o CCG, o Nepad e a UA.

 

Qual é o risco de subestimar - ou superestimar - os países emergentes?

 

Na minha opinião, os líderes - especialmente os europeus - estão bem cientes do que podem esperar dos Brics. E do que os Brics podem oferecer. Mas os europeus tendem a preferir países do Ibsa (Brasil, Índia e África do Sul), porque são democráticos e com sociedades multiculturais, o que não é tanto o caso de China e Rússia.

 

Com os últimos episódios da crise na Grécia, os países-membros em dificuldades podem ser excluídos do euro?

 

A implosão da zona do euro é um cenário. Mas não é o único. Não é uma certeza que os gregos, não mais que os outros cidadãos da UE, queiram realmente dar fim à experiência de integração europeia.

 

Como avalia o protagonismo da França e da Alemanha na União Europeia?

 

O papel dos dois países continua essencial, como vimos na gestão da crise do euro. A decisão inesperada da Grécia de lançar um referendo sobre o pacote anticrise não muda isso. Aliás, o primeiro-ministro George Papandreou disse que não haverá mais referendo, provavelmente cedendo às pressões de França e Alemanha. Em genal, as duas não são mais importantes do que a Grã-Bretanha, que não está na zona do euro. Nesta crise, porém, foram providenciais.

 

Desemprego e desigualdade de renda são denominadores comuns entre os movimentos de rebeldia atuais. Como a senhora analisa esses movimentos?

 

Eles revelam as desigualdades crescentes, sentidas sobretudo nas velhas potências da Europa e na América do Norte. Quando observamos as diferenças de renda em escala global, há muito mais desigualdade nos grandes países emergentes, como a China, a Índia, o Brasil e também o México. Mas, como o contrato social foi mais forte nos países ocidentais, as novas desigualdades são ali percebidas de forma aguda. Além disso, a mobilização dos “indignados” europeus e o Ocupe Wall Street são de pessoas que receberam educação superior, costumam exercer o senso crítico. Sem esquecer que nos países não democráticos, como a China, essas mobilizações hoje seriam muito difíceis, ou mesmo impossíveis.

 

Qual é o saldo da reunião? A senhora concorda com a sensação de fracasso?

 

Não usaria a palavra “fracasso”, mas a expressão “enorme frustração”. A reunião foi muito, muito eurocêntrica. Agora a presidência passa para os mexicanos e acredito que veremos outros problemas na agenda. O México quer discutir corrupção, desigualdade e desenvolvimento sustentável.

 

A pauta do G-20 foi ofuscada pela discussão da crise. No fim das contas, qual é a finalidade do encontro?

 

Não podemos subestimar a importância de um espaço onde os países podem discutir, reunindo os Brics e as antigas potências. É um grande trunfo para a cooperação internacional. O G-20 não é um movimento político ou ideológico - não é a mesma coisa que o G-7, idealizado durante a Guerra Fria como um projeto claramente ideológico. É mais complicado que isso. Hoje, aliás, o mundo é outro: os países ricos estão quebrando, o continente europeu não está mais no centro do mundo, não há mais “leste” e “oeste”, “norte” e “sul”. Há pessoas que superestimam o poder do G-20, mas há outras que subestimam suas conquistas. O G-20 é um teste, não uma resposta final. É um espaço para experimentação, um laboratório para essa nova ordem mundial.

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