Fernando Lemos/Companhia das Letras
Fernando Lemos/Companhia das Letras

Sophia de Mello Breyner Andresen tem poemas reunidos no Brasil

Poeta é uma das principais vozes líricas de Portugal pós-Fernando Pessoa

Paulo Nogueira*, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 16h00

Esta coletânea da poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen é um marco no panorama editorial brasileiro, preenchendo uma lacuna escandalosa. Antes dela, só havia outra antologia de uma das mais proeminentes (para alguns, talvez a mais importante) vozes líricas da língua portuguesa pós-Fernando Pessoa – a de Vilma Arêas, também pela Cia das Letras, já há 14 anos. Enquanto isso, nossas mega-livrarias fervilham de lixo pop, com seções como “Romances Para Sonhar”. Bom, a poesia de Sophia é para sonhar, para acordar, e para sonhar acordado. 

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Com tudo o que uma escolha estética tem de idiossincrático, a seleção de Eucanaã Ferraz é impecável, e seu prefácio imprescindível. Morta em 2004, Sophia foi a primeira portuguesa a receber o Prêmio Camões, em 1999. Desde 2014 o corpo dela repousa no Panteão Nacional, em Lisboa, ao lado de avatares da identidade lusa, como Amália Rodrigues e Eusébio. Nasceu no Porto, num berço aristocrático e com um avô dinamarquês cujo sobrenome ressoava como o do autor de A Sereiazinha. Mãe de cinco filhos (entre eles o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares), quando as crianças tiveram sarampo começou ela própria a escrever histórias infantis – e gerações de portugueses cresceram ouvindo esses contos encantados, como A Menina e o Mar e A Fada Oriana

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Depois do casamento com o jornalista Francisco Sousa Tavares, em 1946, a consciência política da poeta se aguçou. Os Contos Exemplares, de 1962, tem a dedicatória: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual”. Vivia-se sob a ditadura de António Oliveira Salazar, que só ruiu em 1974, com a Revolução dos Cravos. Sophia compôs a canção Cantata da Paz, perpetuada pelo refrão que zoava com a censura férrea: “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.”

No poema O Velho Abutre, a poeta depena verbalmente Salazar e proclama que o ditador, como todos os da sua plumagem, está nu: “O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/A podridão lhe agrada e seus discursos/Têm o dom de tornar as almas mais pequenas.” Como tantos, Sophia pagou um preço por sua oposição ao regime: da família que cortou relações com ela aos amigos que a desprezavam, das visitas da Pide (a polícia política) a sua residência à censura a sua correspondência. Em compensação, teve o prazer de assinar o poema que virou o monograma por antonomásia da Revolução dos Cravos, 25 de Abril: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.” E foi eleita deputada na Assembleia Constituinte, pelo Partido Socialista. 

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Sophia foi amiga do peito de outros grandes poetas, como Ruy Cinatti e Jorge de Sena. A propósito das cartas trocadas entre ela e este último, estreou há um mês em Portugal o documentário “Correspondências”, de Rita Azevedo Gomes. Ambos fundaram os Cadernos de Poesia, onde lançaram inúmeros autores e movimentos proscritos pelo salazarismo, como a Presença e o Neo-Realismo. Em 1957, Jorge de Sena, que José Saramago descreveu como “10 centímetros acima da normalidade portuguesa”, parte para o exílio, primeiro no Brasil e depois nos EUA – nunca mais voltaria a viver em Portugal. 

Mas nem que a vaca tussa Sophia se reduz a uma Passionaria panfletária. Afinal, a liberdade é uma instância do seu humanismo cristão. Os temas dela são numerosos, rarefeitos e variados. Como a noite, já desde a apologia da atividade noturna: “Não consigo escrever de manhã, preciso daquela concentração especial que se vai criando pela noite afora.” Um “tópos” de longeva linhagem literária, que em Sophia se transfigura seja no mistério daquilo que não é delineável, mas que a palavra persegue, seja na beleza, na solidão e no silêncio inerentes à noite: “A noite reúne a casa ao seu destino.” A noite também enquanto subtema do “tempo”, e este ora como “chronos” (o tempo sequencial, medido e histórico) e “kairós” (o tempo do instante e da epifania, que une o relativo e o absoluto, o moderno e o eterno). 

E o mar, claro, que inclui forçosamente – embora jamais com dicção ufanista – a gesta lusitana de “dar novos mundo ao mundo”. Mas ainda o marítimo enquanto signo natural supremo e origem da vida: o “sentimento oceânico”, que Freud (como bom positivista) descartou, mas que pode muito bem ecoar uma fusão panteísta, “Quando nosso coração compreende o fascínio de um mundo imenso e desconhecido. Quando encontramos o verdadeiro vínculo da vida.” O Mallarmé de A Brisa Marinha assinaria embaixo: “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros/Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos/Impede o coração de submergir no mar.” (Trad. Augusto de Campos).

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Sophia cursou Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa, e o helenismo é uma inspiração recorrente em sua poética, com o paganismo matizando o seu catolicismo. Fez várias viagens à Grécia e à Itália, uma delas com a ficcionista Agustina Bessa-Luís. “Encontrei na Grécia a minha própria poesia, ‘o primeiro dia inteiro e puro – banhando os horizontes de louvor’. Um mundo em que já não ousava acreditar. O que sabia da Grécia adivinhei-o através das pedras, água e luz. Mas ali achei as coisas todas inteiras e presentes na sua unidade. Uma intensa felicidade de existir, que nos lava de tantas feridas”. 

O Brasil está presente na obra de Sophia, e João Cabral de Melo Neto inspirou um livro dela, aliás singular: O Cristo Cigano. A poeta visitou o Brasil em 1966, e dialogou – literal ou literariamente – com Manuel Bandeira (“Este poeta está/Do outro lado do mar/Mas reconheço a sua voz há muitos anos/E digo ao silêncio os seus versos devagar.”), Murilo Mendes, Cecília Meireles. E saudou o sotaque tropical num poema docemente espirituoso: “Gosto de ouvir o português do Brasil/Onde as palavras recuperam sua substância total/Concretas como frutos nítidas como pássaros/Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas/Sem perder sequer um quinto de vogal/Quando Helena Lanari dizia ‘o coqueiro’/O coqueiro ficava muito mais vegetal”. 

Já a presença de Fernando Pessoa é, ao mesmo tempo, um eixo (como notou Eduardo Lourenço), na medida em que o gênio universal luso se torna incontornável – mas também um contraponto. É que o ensimesmamento abstrato, não desumano mas talvez inumano do pai dos heterônimos, avesso à comunhão não obstante o baú de personas (exceto em teleologias como o Quinto Império) colide em parte com o vitalismo visceral de Sophia. É uma rima, não uma solução.

Do estilo falsamente simples, quase gizado, de Sophia de Mello Breyner Andresen, em sua expressão de geômetra sem filigranas, mas em que cada linha pulsam inúmeras entrelinhas, brota uma mensagem sem fanfarras e trombetas, por vezes infrassônica: a nós, seres humanos, cabe-nos ser cada vez mais humanos. Como utopia, não é das piores, e está longe de ser a mais fácil. 

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (editora Intermeios)

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