Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Sorókin conta cotidiano de um carrasco em ‘O Dia de Um Oprítchnik'

Romance se passa em uma Rússia futurista e ditatorial com milícia bárbara

Aurora Bernardini, Especial para o Estadão

06 de agosto de 2022 | 16h00

Não é por acaso que Vladímir Gueórguevitch Sorókin ( Bykovo), engenheiro, artista underground, roteirista e um dos mais originais escritores russos contemporâneos, mora a poucos minutos do aeroporto de Moscou: está sempre de malas prontas para embarcar para a segunda casa que o espera em Berlim. 

Com seus livros que tocam tabus do passado e do futuro e burlam o presente, usando clichês para desmontar cânones consagrados, nunca se sabe o que pode acontecer. De fato, em parte já aconteceu: a-soviético, como ele se dizia, eles simplesmente foram banidos na URSS (alegação: pornografia). Só depois da perestroika, já famoso no ocidente e indicado a vários prêmios, como o Internacional Man Booker, é que foi publicado lá seu primeiro livro de contos e premiado o segundo (1992). No Brasil é conhecido por seu extraordinário Dostoiévski-Trip de 1997 (Ed. 34, 2014, ano em que Sorókin participou da Flip em Paraty), livro em que os maiores escritores são comparados sub-repticiamente, como droga: “Dê-me uma dose de Chekhov, duas de Dostoievski...”. 

Agora, pela mesma editora e pela mesma tradutora e prefaciadora, Arlete Cavaliere, que manteve um diálogo intenso com tradutores russos para esclarecer 200 questões de inovação da linguagem, saiu esse O Dia De Um Oprítchinik, de 2006, cujo efeito é mais do que alucinógeno: é literalmente aterrador. Ao mesmo tempo em que desmonta a tradição da história russa, em que o terror e a violência são legitimados para fortalecer o poder, coloca em questão o homem enquanto homem, diante do esvaziamento psicológico, social, ético, político e ideológico.

Para tanto começa com o primeiro e provavelmente o mais terrível dos czares, Ivan 4º, que reinou na Rússia de 1547 a 1584 e não apenas matou seu próprio filho, como criou a oprítchinina, a milícia mais aterrorizadora de que se tem notícia, cujo modelo é reproduzido na Rússia de 2028, época em que se passa a ação, – obedecendo ao trinômio histórico da cultura russa, passado-presente-futuro -- segundo o crítico Mark Lipovetsky

Historicamente, após a assim chamada “época dos tumultos”, Ivan 4º assumiu o czarado da Rússia em 1574, em nome da “autocracia, ortodoxia, nacionalidade” e instaurou a milícia secreta Oprítchinina, que, contando com até 6000 membros, constituiu um território independente, a “República de Nóvgorod”, ao norte de Moscou, controlada diretamente pelo czar e autorizada a praticar qualquer tipo de crime contra os boiardos não alinhados, suas famílias, seus haveres.

É o que acontece na Rússia apocalíptica de 2028, separada da Europa por uma grande muralha e ligada à China cada vez mais intensamente: a língua falada é cheia de chinesismos e os filhos da soberana brincam em chinês. A nova oprítchinina tem seu código secreto e coletivo, os juramentos e os rituais de seus membros – que anunciam sua chegada em carreatas com carros ululantes, com uma cabeça de cachorro decepada presa à frente, como emblema – e pratica execuções sumárias. O miliciano Andréi Komiaga é quem conta a história, dedicada a Maliuta Skinatov, sua imagem especular do favorito oprítchinik de Ivan IV. Komiaga é o membro da nova milícia, o mais devotado e o mais querido do imperador cuja voz se faz ouvir por imagens holográficas, em qualquer tempo-espaço. As mais sofisticadas tecnologias aparelham a nova milícia: tele-bolhas, armas a laser, cassetetes mortais com que fazem irrupções praticando estupros e carnificinas na casa dos suspeitos ou denunciados. 

Periodicamente há alucinações (são muito requisitados certos peixinhos minúsculos que são injetados na veia) ou purificações coletivas, como a celebração do vigor físico em que os membros da milícia praticam, em conjunto, um ato homossexual chamado “a lagarta”, para criar uma única corrente física de corpos conectados sexualmente que atingem o êxtase numa união íntima que, talvez como justificativa perversa dos meios, é considerada benéfica para o Estado. 

Tal como aconteceu com a primeira oprítchnina, que começou a se desintegrar em 1571, após não conseguir fazer frente à invasão do Khan da Crimeia, com seus chefes mandados executar pelo próprio czar, Komiaga, no fim, se desarticula psico-fisicamente e , como que, passa de herói a anti-herói, talvez querendo indicar a desagregação do homo-postsovieticus.

Além da trama, o que há de excepcional nessa obra é, como acenamos, a linguagem. Nas alusões retrofuturistas entram elementos estilísticos contrastivos onde a dimensão do sagrado se mistura ao repugnante e – o que é mais surpreendente – conceitos verbais são transformados em imagens corporais, num processo que a crítica russa chamou de “carnalizatsia”, a narrativa que carnaliza a crise de nosso tempo, desestabilizando os pilares centrais da herança humanitária da civilização. 

O Dia de Um Oprítchnik

Vladímir Sorokin 

Editora 34

240 páginas R$ 65,00

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