Sorumbáticos e macambúzios

O pensamento positivo, endêmico na sociedade americana, hoje destoa da cara fechada dos poderosos

Barbara Ehrenreich*, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2008 | 22h47

A ganância - e seu ardiloso rebento, a especulação - são os culpados designados para a crise financeira. Mas um outro hábito mental muito admirado deveria receber a parte da culpa: o otimismo enganoso do pensamento positivo dominante, tipicamente americano.Tal como é promovida por Oprah Winfrey, legiões de pastores de megaigrejas e um fluxo interminável de best sellers de auto-ajuda, a idéia é acreditar piamente que você conseguirá aquilo que deseja, não só porque se sentirá melhor fazendo isso, mas porque " visualizar" algo - ardentemente e com concentração - faz a coisa acontecer de fato. Você conseguirá pagar aquela hipoteca com taxa variável ou, na outra ponta da transação, transformará milhares de hipotecas ruins em megalucros, bastando acreditar que pode.O pensamento positivo é endêmico na cultura americana - de programas de perda de peso a grupos de apoio a pessoas com câncer. E nas duas últimas décadas ele fincou raízes também no mundo corporativo. Todos sabem que ninguém consegue um emprego que pague mais de US$ 15 por hora se não for uma "pessoa positiva", e ninguém se torna um alto executivo fazendo advertências sobre possíveis desastres.Os tomos nas seções de negócios das livrarias de aeroporto advertem contra o "negativismo" e aconselham o leitor a ser o tempo todo "pra frente", otimista, irradiando confiança. Essa é uma mensagem que as empresas reforçaram incansavelmente - tratando seus funcionários administrativos com oradores motivacionais histéricos e eventos motivacionais do tipo revival, enquanto enviavam os figurões para locais exóticos para serem "energizados" por caras como Tony Robbins e outros gurus de sucesso. Os que não conseguissem se adaptar ao programa seriam submetidos a um "treinamento" pessoal ou despachados.O antes sóbrio setor financeiro não ficou imune. Em seus web sites, oradores motivacionais orgulhosamente listam empresas como Lehman Brothers e Merrill Lynch entre seus clientes. E o que é mais, para os mais bem colocados na hierarquia corporativa, todo esse pensamento positivo não deve ter parecido enganoso. Com a elevação da remuneração de executivos, os chefes podiam ter quase tudo que quisessem ante a simples manifestação do desejo. Ninguém estava psicologicamente preparado para os tempos difíceis quando estes chegaram porque, pelos princípios do pensamento positivo, o simples fato de pensar em problemas é uma forma de trazê-los.Os americanos não começaram como otimistas iludidos. O ethos original, ao menos dos colonos protestantes brancos e seus descendentes, era um calvinismo austero que só via a riqueza como resultado de trabalho duro e poupança - e mesmo assim, não fazia nenhuma promessa. Você podia trabalhar duro e ainda assim fracassar. E você certamente não chegaria a parte nenhuma ajustando sua atitude ou "visualizando" sonhadoramente o sucesso.Os calvinistas pensavam "negativamente", como diríamos hoje, carregando um peso de culpa e presságio que às vezes quebrava seus espíritos. Foi em resposta a essa atitude austera que o pensamento positivo surgiu - entre místicos, curandeiros e transcendentalistas - no século 19, com sua mensagem popular de que Deus, ou o universo, está realmente a seu lado e você pode de fato ter tudo que deseja, se o desejo for suficientemente focado.Quando se trata de como pensamos, "negativo" não é a única alternativa a "positivo". Como bem ilustram histórias exemplares de pessoas depressivas, um pessimismo consistente pode ser tão infundado e ilusório quanto seu oposto. A alternativa a ambos é o realismo - ver os riscos, ter a coragem de suportar más notícias e estar preparado seja para a fome seja para a abundância. Devíamos dar uma chance a ele. *Barbara Ehrenreich, autora de This Land Is their Land: Reports from a Divided Nation (Henry Holt), escreveu este artigo para The New York Times

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