'Sou um homem do neolítico'

Lévi-Strauss era cortês, mas o sorriso gelado e seco intimidava. Ninguém o tratava por você

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2009 | 00h42

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LEMBRANÇAS - 'Penso o Brasil como um perfume',

dizia com sua fala magnífica, econômica e estruturada

A última vez que o vi foi em 2004 ou 2005. Fui visitá-lo na Rue des Marronniers, 2, perto da Praça do Trocadéro, a dois passos do Museu do Homem.

Claude Lévi-Strauss recebeu-me no vestíbulo do quarto andar. Cortês. Sorriso gelado e seco. Jamais alguém o tratou por "você". Ele me intimidava. Eu tremia. Sua polidez era uma parede de vidro através da qual se podia ver esse homem como se vê uma constelação num telescópio. Procurei, vagamente, como num museu, uma etiqueta identificando o objeto: "Antropólogo do século 20".

Ele me conduziu à biblioteca - uma quantidade enorme de livros, japoneses ou tibetanos mais do que brasileiros, em couro e pergaminho, muito bem arrumados, embora esse arranjo obedecesse a lógicas tão obscuras que eu não consegui entender nada.

Ele diminuíra de tamanho. Estava mais encolhido. Usado como um tecido antigo, precioso, seda ou cetim. Um perfil de pássaro. O cabelo, ralo e fino, parecia uma pluma eriçada pelo vento dos séculos. A pele quebradiça. O olho arregalado - um olho de águia. Claude Lévi-Strauss era a imagem de um grande professor de francês do século 19. Usava um terno cinza de um tecido muito fino. Clássico.

 

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Pensei no jovem brilhante que, em 1936, lecionou na USP e depois explorou o Mato Grosso, quando produziu algumas obras-primas que foram um divisor de águas na história da etnologia.

Por trás dessa silhueta delgada, caída e meio transparente, revi o jovem professor de 1935: um belo homem, altivo, taciturno, levado, por graça de o O Estado de S. Paulo, de Julio Mesquita e George Dumas, para o centro de um país vertiginoso, em companhia de outros gigantes, como Pierre Monbeig, Fernand Braudel, Roger Bastide.

Claude Lévi-Strauss era, no início, um filósofo. Foi o Mato Grosso, em 1935, que fez sair desse filósofo um antropólogo. Na época, era casado com Dina, etnóloga (muito extrovertida, muito sexy), que fez diversos filmes sobre os bororos e os vaqueiros. Eles se separaram em 1939 e Lévi-Strauss casou-se novamente. Duas ou três vezes, não sei. Certa vez ele me disse, com aquele sorriso irônico, sarcástico, tão precioso: "Você sabe, sou um homem do neolítico. Com certeza, sou polígamo, mas na França a poligamia é algo complicado. Assim, sou polígamo ao longo do tempo, jamais num mesmo momento".

Pouco tempo depois, Claude Lévi-Strauss prepara uma expedição para a região dos Rios Juruena e Ji-Paraná, o que não é muito apreciado pelo governo de Getúlio Vargas. A permissão é dada, mas retirada em seguida. Homens de peso, entre eles Mário de Andrade, conseguem desbloquear o processo, desde que um etnólogo brasileiro o acompanhe.

Luiz de Castro Faria referiu-se a essa expedição admirando a mecânica intelectual de Lévi-Strauss. Mas sem empatia. "Era um homem polido e distante... uma figura difícil. Silencioso, assumia aqueles ares típicos do pensador". E conclui secamente: "No plano científico, foi um fracasso''.

Para Castro Faria, Lévi-Strauss não era um ás em se locomover na pesquisa de campo. Nem dominava muito bem os equipamentos. "Certo dia, desapareceu num atalho. A tensão foi geral." Na realidade, Lévi-Strauss se perdera na mata e deu um tiro para o alto. Mas se esqueceu de descer da mula. Resultado: a mula correu para um lado e ele caiu do outro. E todo o mundo se pôs à procura da mula e do etnólogo.

Essa história é engraçada, mas não maldosa, sobretudo porque Castro Farias reafirma o seu respeito pela autoridade de Lévi-Strauss. Ela serviu apenas para dar crédito às críticas que alguns antropólogos (americanos) faziam ao antropólogo: um gênio, mas etnólogo de gabinete, um homem que após cinco anos de Brasil e da América nunca mais deixou sua biblioteca, o Collège de France ou a Academia Francesa. O que é verdade.

Em suas lembranças, Castro Faria cometeu um erro quando disse que "Lévi-Strauss falava português quase sem sotaque". Não é verdade. Certa vez tentei conversar em português com ele. "Jamais falei muito bem o português", disse. "O que falo é o português do interior, dos caipiras, mas não o das cidades."

No entanto, ele amava São Paulo. E certa vez, uma referência a São Paulo me pareceu tê-lo perturbado. Foi um momento raro, em 1994. Ele tinha acabado de publicar um livro de fotos feitas no Brasil. Esse homem tão frio, tão fechado, comoveu-se. Mas não foi de olhar para aquelas velhas e belas fotos de 1936 (da mesma maneira que escreveu "odeio viagens" ele poderia ter dito "odeio fotos"). Não. O que lhe permitia viajar pelos anos até a São Paulo de 1935 era o cheiro: "Penso o Brasil como um perfume quente".

A fala desse homem taciturno era magnífica. Deslumbrante. Era clara, econômica, rápida, estruturada. Nenhuma imperfeição. Nenhuma repetição. Na verdade, ele não era eloquente. Para ser eloquente é preciso vacilar um pouco, perder-se, ficar transtornado, lutar com as palavras. O discurso de Lévi-Strauss era perfeito, como uma peça de cerâmica saindo do forno. Quando quero lembrar-me dele, é sua voz que me serve de veículo. Uma voz grave, sem ostentação. Como um silêncio, um tremor do silêncio.

De volta à França, em 1948, ele viaja pouco - para o Japão, de vez em quando, no mais, idas e vindas entre o Trocadéro e o Collège de France. Uma vida caseira. Laboriosa. Música. Museus. Alguns amigos selecionados. Escrevia seus livros como um artesão faz marchetaria. Uma primeira versão à máquina. Depois, correções infinitas, de diferentes cores entrelaçadas (como seria interessante ver esse work in progress) e enfim a versão final, impecável. Quase no fim da vida, ele passa pelo Collège de France duas vezes por semana para ver seus alunos, esclarecer suas dúvidas.

Muito jovem, Lévi-Strauss aderiu aos estudantes socialistas. Mais tarde, tornou-se apenas um espectador distante. Só se manifestava para defender os povos nus, os povos ameaçados. As rebeliões de maio de 1968 o divertiram no início, mas depois passou a detestá-las. Elas eram contra todo o sistema ritual da sociedade francesa, e os ritos, aos olhos do antropólogo, não deveriam ser maltratados. Caso contrário, seria o caos.

Era de uma modéstia extrema e orgulhosa. Por volta de 1970, a revista L'Express encomendou-me um trabalho sobre grandes pensadores, como Jacques Lacan, Roland Barthes, Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss. Lacan ficou entusiasmado. Lévi-Strauss recusou-se a participar. Disse que não era um grande pensador, mas um especialista em mitos e máscaras. Amava a geografia, a geologia, a música, a poesia, "mas grande pensador, que ideia!" Consequência: não fiz o trabalho pedido pelo L'Express porque o personagem mais fascinante tinha se esquivado.

Creio que Lévi-Strauss já estava farto dessas sociedades destruidoras, insensíveis à beleza das coisas, que acabam com os esplendores da natureza. Ao tumulto, ao caos, às injustiças, como também às próprias fadigas, suas doenças, ele respondia com o estoicismo refinado com que se opunha à injustiça das coisas.

Ele já aguardava, claro, que o soberbo, miraculoso e cambiante tecido da vida se desfizesse. Vivia num mundo submerso, do qual continuava a desmontar os mecanismos, estruturas, constâncias, racionalidades, segmentos de ordem. Mas não sabia muito bem por que ainda se mantinha vivo. Pensava em outras sabedorias que não aquelas da Europa. Sonhava com os pensamentos selvagens, com os tupinambás, o budismo, embora continuasse ocidental. Não era desses intelectuais que esquecem o Ocidente para, repentinamente, abraçar a sabedoria dos brâmanes ou dos bororos. Algumas noites, acho que ele pensava no cheiro das florestas, no cintilar dos rios da Amazônia, talvez em nuvens.

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