Aleksander Jalosinski/Reuters
Aleksander Jalosinski/Reuters

Stanislaw Lem: um mestre da ficção científica cético à tecnologia

Livro reúne ensaios do escritor judeu polonês que escreveu clássicos como 'Solaris' e 'A Voz do Mestre'

Rodrigo Petronio*, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

 Parafraseando Jorge Luis Borges, um grande autor não é aquele que cria um novo mundo, mas sim aquele que altera, em alguma medida, a totalidade da literatura. A ficção científica como gênero e a literatura do século 20 seriam muito diferentes se não tivesse havido um autor chamado Stanisław Lem (1921-2006). Judeu de expressão polonesa nascido em Lwów, atual Ucrânia, Lem produziu uma obra vasta e diversificada que abrange romances, contos, memorialismo e ensaios. 

O leitor brasileiro tinha uma visão bastante parcial desta produção. Há apenas três traduções indiretas de romances: Solaris (1971), O Incrível Congresso de Futurologia (1971), A Voz do Mestre (1991). Por conta disso, boa parte das referências a esse universo derivou das adaptações cinematográficas. A primeira é de 1972: a obra-prima homônima de Andrei Tarkovski. A segunda foi às telas em 2002, em adaptação de Steven Soderbergh e destaque de atuação para George Clooney. Entretanto, essas referências apenas sinalizam a vastidão do pensamento e das reflexões sobre cosmologia, ficção, ciências e tecnologia que se irradiam ao longo da obra desse autor seminal. 

Felizmente esse cenário tem se alterado. Em 2017, a editora Aleph lançou uma nova e cuidadosa edição de Solaris traduzida do polonês por Eneida Favre. Agora, em convênio com a Embaixada da República da Polônia em Brasília, a editora Perspectiva acaba de publicar Nova Cosmogonia e Outros Ensaios, seleção da prosa ensaística de Lem em impecáveis tradução, introdução e posfácio de Henryk Siewierski, que havia assinado também um trabalho primoroso de tradução de Bruno Schulz, outro mestre de mestres da literatura. 

Lem pertence a uma linhagem da ficção científica que dialoga em profundidade com as ciências duras (hard sciences), também conhecidas como ciências naturais. Não há nenhuma de suas páginas que não traga alguma intuição ou faísca imaginativa inspiradas na cosmologia, na química, na biologia evolucionária, na física e em seus campos correlatos: a matemática, a cibernética e as teorias da informação. 

É impressionante saber que amealhou todos esses conhecimentos, presentes em alguns grandes escritores de sci-fi, como Isaac Asimov e Arthur Conan Clarke, de um modo quase autodidata e diante de grandes adversidades. Foi mecânico de carros durante a Grande Guerra. E antes de formar seu nome como escritor e poder viver de literatura, chegou a trabalhar em funções que iam de tradutor de livros sobre alimentação de gado a soldador. Não bastassem essas dificuldades, viveu isolado pela Cortina de Ferro comunista, com pouquíssimo acesso aos desenvolvimentos da ciência ocidental. 

Todos esses trabalhos não foram em vão. Ajudaram-no a fortalecer uma visão pragmática da vida. Deram-lhe a base para a multiplicidade de pontos de vistas sobre eventos, personagens e conceitos. Desse amálgama entre ciência e experiência surge sua ficção. Dessa argamassa existencial nascem os monumentos reflexivos de seus ensaios, em cujo âmago estão Summa Technologiae (1964) e Filosofia do Acaso (1970). Não seria exagero dizer que apenas os ensaios reunidos nesta edição brasileira são o bastante para definir Lem como um dos maiores pensadores da ciência e da tecnologia do século 20. 

A organização de Siewierski opta pela divisão dos ensaios em duas fases cronológicas. A primeira aborda a expansão das tecnologias e a configuração de novos mundos. A segunda enfatiza certo ceticismo do autor em relação a esse tecnoimperialismo. Pantocriacionismo, metateoria dos gradientes da evolução, efetores, autômatos autoprogramáveis, sistemas retroativos, analogias morfológicas, autopoiesis, panevolucionismo, evoluções parabiológicas, planetogênese, astroengenharia, fantomologia, cosmogonia psicofísica e dinâmicas topológicas. Tudo isso pode soar esotérico mesmo ao mais experiente dos leitores. Não tenha medo. 

A prosa fluida de Lem se apoia em um recurso eficiente para a tradução desses conceitos: a ficção. Lem entende e trata todos os processos do universo como agentes e personagens de um drama. Um protodrama do cosmos que inclui não apenas os humanos, mas todos os seres transumanos, orgânicos e inorgânicos. Isso possibilita uma grande clareza expositiva e adesão emocional do leitor, por mais árduo que seja o assunto em questão. 

Essa aliança entre cosmologia e literatura, entre ciência e narratividade, apresenta-se sobretudo em um gênero do qual Lem se tornou mestre: a metaficção. A capacidade de tratar de modo ficcional algo que se supõe ser realidade. Para tanto, ele cria pseudônimos. Mais que isso, como Nietzsche e Borges, escreve resenhas de livros e autores inexistentes. A indecidibilidade entre fato e ficção enriquece ambos os campos. Somos tramados por enredos possíveis que se desdobram no universo real e se apoiam em fatos empíricos, mas existem no plano da especulação. 

Difícil dar conta desse emaranhado de imagens e ideias situadas no limiar entre a especulação e a empiria. Um dos conceitos mais potentes criados por Lem é o de imitologia: uma ciência da biomimesis. Ou seja: a possibilidade de pensar a imitação a partir da autorreplicabilidade da vida e inclusive dos seres inorgânicos. Uma pequena revolução em relação às teorias da mimesis da arte e da literatura. Além disso, um dos conceitos mais contraintuitivos e, por conseguinte, mais potentes da obra diz respeito à cosmogênese e às noções de civilizações cósmicas, objeto de interesse cada vez maior das cosmologias contemporâneas. 

O que seria isso? Há um tempo, a cosmologia tem se debatido com o chamado Paradoxo de Fermi. Quando indagado sobre a existência de vida inteligente extraterrestre, o físico italiano que batiza o paradoxo teria se perguntado: se o universo é tão vasto e complexo, por que nunca nos chegou nenhum sinal dessas inteligências? Essa pergunta pode ser respondida de duas maneiras. A primeira é a Teoria do Grande Filtro: há um limite de expansão dos seres vivos ao fim do qual eles se extinguem. Não temos sinais de outras civilizações porque todas se extinguiram. A segunda é a da coexistência de civilizações de eras distintas do cosmos. Esta é a hipótese adotada por Lem. 

No momento em que Lem escrevia, sabia-se que o universo possui cerca de 12 bilhões de anos. Entretanto, nosso sistema solar se formara há 5 bilhões de anos. A pergunta é: se existe uma defasagem de 7 bilhões de anos entre nosso sistema e o começo do universo, em que fase de desenvolvimento estariam a vida e as civilizações desses mundos surgidos no começo do universo? Lem se baseia nessa defasagem para criar o conceito de Cosmos-Jogo. 

O que chamamos de leis da natureza na verdade são leis do nosso mundo, que não se espelham em outros mundos primevos, anteriores ao nosso. Mais do que isso, talvez o que chamamos de natureza e de universo não sejam nada mais do que efeitos artificiais irradiados por essas civilizações primevas, ultracomplexas e que dominaram o universo a ponto de apagarem os limites entre artificial e natural. 

O ser humano estuda as leis imaginando que esteja estudando fenômenos da natureza. Na verdade o universo seria um holograma natural-virtual administrado pelos Jogadores. Isso explica por que Deus e todos os deuses, autores das diversas cosmogonias (narrativas de origem do universo), não seriam ilusões do sapiens. Seriam apenas intuições parciais da estrutura do cosmos, regido e mantido por Jogadores metaempíricos, ou seja, seres vivos antiquíssimos gerados na origem do universo. 

A noção de pluriversos deixa de assumir uma feição estritamente espacial. Passa a ser uma dimensão temporal: são outros mundos que englobam a totalidade deste mundo em que estamos e definem suas leis. O sapiens imagina que essas leis pertencem à natureza. Mas a natureza é um sistema integrado e artificial gerado por inteligências pregressas e omnicompreensivas. Essas mesmas leis tampouco são eternas. Elas variam não apenas com a historicidade humana. Variam de acordo com a historicidade das inteligências dispersas que habitam o universo e alteram seus mecanismos ao longo de bilhões de anos. 

O recurso da metaficção tem aqui uma dupla função, ambas precípuas. Primeiro, por meio da literatura, Lem amplia a esfera imaginativa da ciência a limites abissais. Segundo: a metaficção o protege de eventuais detratores que queiram refutar sua especulação como um tipo de ciência não-demonstrativa. Em ambos os casos, temos excelente literatura. E excelente ciência especulativa que, sem o compromisso da comprobabilidade, pode estimular cientistas experimentais a lidar com hipóteses alternativas ou a recorrer a variáveis ainda não comprovadas para gerar novas demonstrações. 

Vale a pena o leitor se ater àquilo que Lem chama de seres psicozoicos, conceito que atravessa a obra. Trata-se de agentes biofisioquímicos arcaicos, animados e dotados de pensamento. Estariam na origem do universo e na ontogênese de todos os seres pensantes. Uma narrativa do pensamento a partir dos psicozoicos conseguiria esvaziar as narrativas antropocêntricas sobre a natureza do pensamento como algo exclusivo dos humanos. 

Isso tudo é apenas uma parte da imaginação e da potência da literatura de Lem. Para ter uma ideia mais precisa dessa multiplicidade de mundos e universos, apenas mediante um passeio linha a linha por todas as páginas desta obra singularíssima. Vale também o leitor se ater ao ensaio A minha Visão de Mundo. Os conceitos de sensorium e de pensamento sensitivo-racional são uma magistral reflexão autobiográfica sobre a gênese de uma das obras mais singulares do nosso tempo. 

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Professor Titular da FAAP e coordenador dos cursos de Pós-Graduação em Roteiro para Audiovisual e Escrita Criativa

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