Ubu Editora
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Stefano Mancuso investiga mundo vegetal

‘A Planta do Mundo’ joga luz nas potencialidades das plantas para a história e a sociedade, partindo de narrativas pouco conhecidas sobre a flora

André Campos Vieira, Especial para o Estadão

22 de janeiro de 2022 | 16h00

Sementes que deram voltas ao redor da lua, troncos que dão corpo a instrumentos musicais divinos, árvores que se comunicam com plantas mortas graças a uma elaborada rede subterrânea. À primeira vista, A Planta do Mundo se parece muito mais a um texto anedótico, de linguagem descontraída, do que um ensaio sério sobre a importância do mundo vegetal para o bem-estar do planeta. Contudo, conforme avançamos em sua leitura, com seu quase inesgotável estoque de analogias sobre árvores e troncos, percebemos que o tom aconchegante não escamoteia o grande objetivo do livro: ajudar a salvar a terra.

A afirmação pode soar um tanto exagerada à simplicidade do texto de Stefano Mancuso, botânico, fundador da área de estudo neurobiologia vegetal e “pai de planta incorrigível”. Só parece. Tanto a demonstrar como as “cidades verdes” são fundamentais para compensar o despejo de poluentes na atmosfera, como para apresentar a possibilidade da aliança entre progresso, civismo e natureza por meio das Liberty Trees, símbolo revolucionário norte-americano, fica claro o projeto ativista de Mancuso durante toda a obra. Tendo em vista, sobretudo, a dedicação de páginas e páginas às teorias científicas por trás da causa ecológica. 

Embora o mundo vegetal esteja muito mais presente no globo (cerca de 85% dos seres vivos) em relação ao mundo animal (cerca de 0,3%). Um exemplo dessa desarmonia é a forma como organizamos e pensamos nossas cidades. Segundo um estudo da universidade de Columbia, todas as cidades do globo cobrem cerca de 2,7% da massa terrestre — excluindo a Antártica. É um dado assombroso se levarmos em conta que até 2050, de acordo com pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU), essa pequena faixa de terra será lar para 70% da população mundial, ou cerca de 10 bilhões de pessoas. Viver aglutinado em pequenos espaços não seria um problema nesse caso, não fosse a incapacidade desses centros em se autossustentarem, recorrendo à destruição da natureza como forma de sobrevivência.

A solução, portanto, parte em compreender nosso papel nessa nova configuração pré-apocalíptica: de caçadores, expansionistas de sonhos e terras, a protetores e agricultores das matas e, principalmente, de nossas cidades-ecossistema. É verdade que a proposta de Mancuso vai na contramão de ao menos 350 mil anos de história de nossa espécie. Por outro lado, diante da condição de assentados nas selvas de pedra inundadas por ondas de calor e pandemias, “cada cidade deve ser tomada como um ser vivo, fruto da sua história, da interação com o meio ambiente, dos edifícios e das redes sociais, econômicas e ecológicas que a compõem.”. 

Isso não quer dizer, todavia, que nosso relacionamento com natureza terá como único intuito garantir nossa sobrevivência no futuro. Durante a leitura de A Planta do Mundo, o leitor é presenteado com uma série de pequenos contos, reflexões, e muitas vezes grandes crônicas que botam em evidência todo o potencial que nossa flora pode nos oferecer. Surgindo como um apanhado de histórias aqui e ali, como o próprio autor coloca, sabemos que pólen foi usado descobrir um assassinato, por que os anéis de árvores foram usados para detectar o aquecimento na atmosfera e como um degrau de uma escada de madeira pôde solucionar um sequestro. 

A minha favorita é aquela que trata da corrida alucinada por fumar bananas em Nova Iorque. E não, você não leu errado: por volta da década de 1970, no auge das drogas e experiências psicodélicas, uma das modas da época era fumar cascas de bananas pulverizadas. O “barato” entrou na pista depois do estrondoso sucesso de Mellow Yellow, hit do inglês Donovan, que contava a curiosa letra: “Banana elétrica/está se tornando uma mania repentina". A febre foi tanta que no ano seguinte ao lançamento da música, era realmente difícil encontrar bananas nas quitandas e mercados dos grandes centros norte-americanos. 

Em resumo, representa por três eixos principais, que se enlaçam ao longo da narrativa, A Planta do Mundo é um livro para se manter a par dos desafios climáticos e soluções ecológicas das próximas décadas, de forma divertida e curiosa. Se não há uma crítica fervorosa ao negacionismo ambiental ou ao lobby de grandes empresas poluentes para barrar a agenda linda no livro, é porque Mancuso se empenhou mais em mostrar os benefícios e maravilhas presentes no nosso jardim do que fazer — mais — coro a clivagens de guerras ideológicas

Serviço 

A Planta do Mundo 

Stefano Mancuso 

Editora: Ubu 

192 páginas 

R$ 59,90

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