Chona Kasinger/The New York Times
Chona Kasinger/The New York Times

Steven Pinker defende que a humanidade nunca esteve tão bem

'Enlightment Now', novo livro do professor de psicologia de Harvard, mostra motivos para ser otimista

The Economist

03 Março 2018 | 16h00

Para qualquer pessoa que lê um jornal, este é um mundo miserável. A Síria continua em guerra. Mais um lunático cometeu um massacre em uma escola americana. O debate político nunca foi tão vulgar e venenoso como hoje.

As manchetes são desalentadoras do mesmo modo que as peças de Shakespeare repletas de assassinatos. A tragédia é dramática. Dificilmente se lê uma reportagem com um título como “100 mil aviões não caíram ontem”. As coisas ruins ocorrem repentinamente e de maneira telegênica: uma fábrica é fechada; um edifício de apartamentos desmorona com um incêndio. As coisas boas tendem a se verificar progressivamente e numa área ampla, o que as torna mais difíceis de serem filmadas. As agências de notícias poderiam honestamente informar que o número de pessoas na pobreza extrema caiu em 137 mil – diariamente por 25 anos. Mas os leitores podem ficar entediados.

As notícias negativas são uma razão pela qual as pessoas subestimam de modo consistente os progressos que a humanidade vem fazendo, lamenta Steven Pinker. Para saber o real estado do mundo temos de usar números, diz ele. Em Enlightment Now, ele faz exatamente isto.

O mundo está 100 vezes mais rico do que há 200 anos e, contrariamente à crença popular, essa riqueza está distribuída mais equitativamente. O número de pessoas mortas anualmente em guerras é de menos de um quarto do registrado na década de 1980 e 0,5% do contabilizado na 2.ª Guerra Mundial. Durante o século 20, os americanos passaram a ter 96% menos probabilidade de morrer num acidente de carro, 92% de perecer num incêndio e 95% menos probabilidade de morrer no trabalho.

O livro anterior mais conhecido de Pinker, The Better Angels of Our Nature, já mostrava que a humanidade estava menos violenta. Este novo livro demonstra que um progresso constante e cumulativo vem se verificando em muitas frentes. Ele credita isto ao Iluminismo do século 18, resumido por Immanuel Kant como “ousar saber”. Ao aplicarem a razão para os problemas, as pessoas os solucionam e partem para o próximo. Comércio e tecnologia disseminam boas ideias, permitindo aos países ricos se tornarem mais ricos e aos países pobres os alcançarem.

O progresso tem sido surpreendentemente rápido. A grande maioria de americanos pobres desfruta de luxos que os Vanderbilt e os Astor não dispunham há 150 anos, como eletricidade, ar-condicionado e televisão a cor. Os vendedores ambulantes no Sul do Sudão têm celulares melhores do que o tijolo usado por Gordon Gekko, o magnata retratado no filme Wall Street de 1987. Não é apenas o fato de a medicina e o saneamento básico melhores terem permitido às pessoas viverem mais tempo, mais saudáveis ou de os aparelhos que facilitam o trabalho propiciarem mais tempo livre para as pessoas, ou Amazon e Apple oferecerem uma variedade espantosa de entretenimentos para preencher esse tempo livre. As pessoas estão se tornando mais inteligentes e mais humanas.

Em todas as partes do mundo o QI dos indivíduos subiu 30 pontos em 100 anos, o que significa que o individuo médio hoje tem um QI mais alto do que 98% das pessoas há um século. Como isto pode ocorrer se a inteligência é herdada e as pessoas inteligentes não reproduzem tão prolificamente como as menos dotadas? A resposta está numa melhor nutrição (cérebros são órgãos glutões) e maior estímulo. As crianças têm mais probabilidade de ir a uma escola hoje do que em 1900, ao passo que “fora da escola o pensamento analítico é estimulado por uma cultura em forma de símbolos visuais (mapas de metrô, telas digitais) ferramentas de análise (planilhas eletrônicas, relatórios de estoque) e conceitos acadêmicos que aos poucos entram na linguagem comum (oferta e procura, em média, direitos humanos)”. 

Pinker discorda de que essa inteligência tem consequências morais uma vez que as pessoas que conseguem raciocinar logicamente podem perguntar: “como seria o mundo se todas as pessoas fossem assim?” O que é coerente com a propagação observada dos valores do iluminismo. Há dois séculos, somente 1% das pessoas vivia em democracias e mesmo ali mulheres e trabalhadores eram proibidos de votar. Hoje, dois terços das pessoas vivem em democracias e até Estados autoritários como a China são mais livres do que outrora.

A crença na igualdade no caso das minorias étnicas e gays aumentou vigorosamente, o que é demonstrado pelas pesquisas (que poderiam ser influenciadas pelo conhecimento de que a intolerância é desaprovada), mas também pela Internet. Buscas por piadas raciais caíram 87,5% nos EUA desde 2004. Aqueles que gostam desse tipo de piada estão desaparecendo; pesquisas online de epítetos raciais dividem hoje o interesse por buscas por “Previdência Social” ou “Frank Sinatra”, observa Pinker. Mesmo áreas muito conservadoras estão se tornando mais flexíveis. Pesquisas indicam que os jovens muçulmanos no Oriente Médio são tão libertais quanto os jovens europeus ocidentais nos anos 1960.

Muitos leitores terão dificuldade em assimilar esse otimismo efervescente. Podemos estar mais ricos materialmente, alguns protestarão, mas não somos menos felizes porque sabemos que outros têm ainda mais? Podemos ter supercomputadores, mas eles não estão causando uma epidemia de solidão entre os jovens? E quanto ao aquecimento global e os mísseis nucleares norte-coreanos?

Pinker oferece respostas para todas essas perguntas. Em 45 dos 52 países constantes do World Values Survey, a felicidade aumentou entre 1981 e 2007. E tem crescido mais ou menos de acordo com a renda absoluta per capita, não a relativa. A solidão, pelo menos entre os estudantes americanos, parece estar em declínio. O aquecimento global é uma grande ameaça, mas não insuperável. O número de armas nucleares no mundo caiu em 85% desde o seu pico.

A ascensão do populismo desafia a tese de Pinker. Os eleitores de Donald Trump, os defensores do Brexit e vários partidos autoritários na Europa tendem a acreditar que os tempos antigos eram dourados, que não se pode confiar em especialistas e que as instituições da democracia liberal são uma conspiração para tornar a elite mais rica. Alguns querem derrubar essas instituições para começar tudo de novo – o que no mínimo interromperia esse avanço progressivo que Pinker defende.

Sem tirar a importância dos riscos, ele continua otimista. O equilíbrio de poderes que os populistas contestam é razoavelmente eficaz nos países mais ricos e sobreviverá à atual safra de demagogos. Pinker se diz encorajado especialmente com o declínio da fé. Em todo o mundo, embora 59% dos indivíduos pratiquem uma religião, essa porcentagem caiu quase 100% em relação ao porcentual há um século. À medida que as pessoas enriquecem, elas abandonam a muleta da fé e confiam mais na razão.

O pessimismo tem sua função – ele fomenta a cautela. E o foco nos problemas, algo instintivo no ser humano, é saudável, e significa que eles sempre são resolvidos.

Entretanto, o argumento mais abrangente de Pinker está correto. As coisas não estão se desintegrando. E a menos que haja uma queda cataclísmica de um asteroide ou uma guerra nuclear, é provável que elas continuarão a melhorar. / Tradução de Terezinha Martino 

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