Súbita compaixão
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Luis Fernando Verissimo
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Súbita compaixão

Luís Fernando Veríssimo, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: Depois do vexame na Copa, a seleção brasileira trocou de técnico gaúcho. Saiu Felipão e voltou Dunga, dizendo que “não somos mais os melhores” e que não admitiria jogadores “sem equilíbrio emocional”. Ele venceu os seis amistosos que disputou até agora. E a seleção terminou o ano em sexto lugar no ranking da Fifa. 

Zeide é vidente. E é um fenômeno. Prevê o futuro e acerta muito mais do que erra. Tem algumas regras. Por exemplo: não prevê resultado da Sena. O Chicão - seu marido - percorre a fila que se forma todos os dias para ouvir a Zeide, avisando:

- Ela não dá resultado da Sena. Não adianta insistir.

Zeide ficou famosa quando um jornal pediu suas previsões para o ano de 2013, que se iniciava, e ela anunciou:

- Desaparecerá um papa.

Quando o ano acabou sem que o papa morresse, Zeide foi cobrada. Respondeu:

- Eu não disse que morreria um papa. Disse que desapareceria um papa.

E todos se lembraram que o papa Bento XVI renunciara, passara o papado ao Francisco e se retirara para uma residência perto de Roma, desaparecendo do Vaticano.

Zeide não tem bola de cristal, não bota cartas nem joga búzios. Junta os dedos indicadores na frente dos lábios, fecha os olhos, pensa, pensa, abre os olhos e responde à consulta. As pessoas querem saber o que as espera no futuro. Amor, morte, vida melhor. E Zeide descreve o que vê quando fecha os olhos. Às vezes é felicidade. Quase sempre é desgraça. Zeide nunca mente. Explica: “Com o futuro não se brinca”.

De noite, na cama com Chicão, Zeide diz:

- O povo sofre muito. Mas eu preciso dizer a verdade.

- É claro, Zeide - consola o Chicão. - É claro.

- Preciso dizer o que eu vejo.

- É claro, Zeide. É claro.

Chicão é marido, empresário e protetor. É ele que organiza as filas que se formam para ouvir Zeide. É ele que interrompe as sessões quando acha que Zeide está cansada. E é ele que cuida da publicidade e orienta a carreira de Zeide, a vidente que nunca erra.

Dois dias antes do jogo Brasil x Alemanha pela recente Copa do Mundo uma mulher negra de idade indefinida e sem dentes, que esperara uma hora na fila, perguntou a Zeide qual seria o resultado do jogo. Não queria saber da própria saúde ou da saúde dos seus filhos, não queria que Zeide lhe dissesse o que fazer e o que evitar no futuro. Só queria saber quanto seria Brasil x Alemanha.

Outra das regras de Zeide é nunca prever resultado de futebol. Mas Zeide se enterneceu com aquela mulher sorridente à sua frente. Com sua magreza, com a sua roupa pobre, com o sorriso só de gengivas. E juntou os dedos indicadores na frente dos lábios, fechou os olhos e pensou, e pensou. E, ainda com os olhos fechados, exclamou: “Meu Deus!”.

Era a primeira vez que Chicão ouvia Zeide invocar o nome de Deus. De certa maneira, Zeide e Deus atuavam, por assim dizer, no mesmo terreno. O futuro pertencia a Deus, mas Zeide tinha o privilégio de poder ver o futuro antes que ele acontecesse. Um pouco como um revisor, que é o primeiro a ler um texto ainda não publicado. No caso, o texto era de um autor divino. E Zeide se espantara com o texto que lera de olhos fechados. Depois se controlara e dissera:

- Dois a um, Brasil.

A mulher à sua frente ergueu os braços, disse “Oba” e saiu, contente. E Chicão não perdeu tempo: fez com que o prognóstico de Zeide para o jogo com a Alemanha chegasse aos jornais. No dia do jogo, saiu a notícia:

“Vidente Zeide prevê vitória do Brasil por 2 a 1”.

***

Na noite depois do jogo Brasil e Alemanha, na cama, Chicão beijou Zeide e disse: “Não esquenta, minha velha. Qualquer um pode errar”. E acrescentou, com uma ponta de ressentimento: “Mesmo quem nunca erra”.

- Eu não errei - disse Zeide.

- Como não errou? Errou feio.

- Não errei. Menti. Eu vi os 7 a 1. 

Chicão quase caiu da cama.

- Você viu os 7 a 1, Zeide?! 

- Vi.

- Você se dá conta do que significaria você dizer que seria 7 a 1 pra Alemanha? Um escore que ninguém poderia imaginar? Seria a sua consagração. Seria a fama mundial!

- Eu não podia dizer que o Brasil perderia para a Alemanha por 7 a 1. O povo brasileiro não merecia isso.

- Mas que povo? Era só uma mulher! Você jogou fora sua reputação, seu passado, tudo para não magoar uma mulher maltrapilha e desdentada!

- Chicão, eu passo o dia inteiro vendo o futuro de gente sem futuro algum. Vivo ouvindo as misérias de quem só quer saber como melhorar sua vida. E aquela mulher queria apenas saber o resultado do jogo. Menti para lhe dar uma alegria. 

- Uma alegria de dois dias! E você melhorou a vida dela? Não melhorou. Melhorou a vida do brasileiro? Não melhorou.

- Sei lá, Chicão. Tive uma súbita compaixão...

- Compaixão, compaixão. Quem deve ter compaixão do povo brasileiro é Deus, não você. Você não pode inventar o futuro. E sua compaixão acabou com sua fama de vidente. Acabou com o nosso ganha-pão. Nem posso imaginar como será nosso futuro daqui pra frente.

Zeide aninhou-se ao lado do Chicão e disse:

- Se você quiser eu posso lhe dizer...

- Não quero! - disse Chicão, virando-se para o outro lado.

Chicão não perdoaria Zeide tão cedo. 

Mas Chicão não precisava se preocupar. No outro dia um jornal pediu a Zeide suas previsões para o ano 2015. 

ESCRITOR, MÚSICO, COLUNISTA DO ESTADO. NASCEU EM PORTO ALEGRE (RS). AUTOR DE OS ÚLTIMOS QUARTETOS DE BEETHOVEN (OBJETIVA) E COMÉDIAS DA VIDA PRIVADA (L&PM)

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