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Suicídio é analisado por meio de representações no cinema e TV

Livro 'Apagando as Luzes do Palco' trata do tema sem tabus

Donny Correia*, Especial para o Estado

29 Setembro 2018 | 16h00

Um tabu impronunciável para algumas culturas, uma forma digna de recuperar a honra perdida, para outras. Pode ser, até mesmo, um ato agudo movido por narcisismo e vingança. Todas essas facetas do suicídio cabem e são elencadas e discutidas no livro Apagando as Luzes do Palco: Reflexões Sobre o Suicídio na Pós-Modernidade, da psicanalista, escritora e dramaturga Sílvia Marques.

Se o suicídio tivesse uma forma visual e palpável, capaz de ser moldada pelo suplício de um paciente obcecado por dar cabo de si próprio, qual seria ela? A visão turva de uma cessação voluntária resguarda um histórico cristalino. O livro de Sílvia Marques propõe uma reflexão sobre o tema a partir da arte. Detidamente, o cinema.

Dividida em três partes, a concisa obra pretende não só oferecer uma abordagem desmistificadora do suicídio, mas tratar o tema pelo viés das possíveis representações estéticas e investigações médicas ou filosóficas. Como a autora observa, já nas primeiras páginas, o suicídio é tema de diversas obras na literatura, na pintura, no cinema etc. 

Na primeira parte, voltada à exposição abrangente do que já foi dito e escrito sobre o suicídio, podemos enxergá-lo como algo inerente à falibilidade de nosso dom da consciência do mundo. É como se sentíssemos o peso que Sísifo sentia não só da pedra, mas da vã tentativa de escalar a montanha. Ou, alternativamente, podemos pensar sobre a consciência que transcende a necessidade ou a vontade de determinadas realizações a que a maioria de nós se propõe, ao longo de uma vida.

Por falar no mito de Sísifo, partimos da asserção de Camus, que Sílvia usa no início da obra para tecer o panorama teórico a que seremos apresentados. Diz o escritor que “julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. Se assim for, o mergulho proposto pela autora nos coloca frente a uma questão capciosa e, aparentemente, sem resposta. Por um lado, abominamos a ideia do suicídio. Por outro, há casos em que o fardo do mundo parece facilmente superar qualquer otimismo. 

Para Freud, nas palavras de Sílvia, “o suicídio é visto como uma introjeção do objeto do desejo”. Portanto, a ideia nasce de nossa própria e íntima relação com o objeto almejado, com uma perda, frustração ou revolta, já que o suicídio é, na realidade um ato contra algo ou o outro, objetivamente. De forma mais aprofundada, também somos introduzidos às ideias de Sartre. Ele acreditava que acabar com a própria vida era um ato extremo de liberdade que cercearia a possibilidade de todos os outros atos de liberdade. Para Cioran (o mais lúcido entre os lúcidos), embora desprovida de qualquer sentido, assim como a vida, a morte ainda é capaz de encerrar as mazelas do imponderável. Sendo a vida um acúmulo de nulidades, só restaria a exatidão irrefutável da morte como conforto.

Passeando por exemplos que vão da Medeia, de Eurípedes, a personagens da teledramaturgia nacional, como Zé das Medalhas, de Roque Santeiro, ou Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata, Silva Marques apresenta e explica de maneira didática e precisa as categorias de patologias psíquicas que culminam com a ação suicida, dando ênfase em cada perfil psicológico envolvida nas diversas motivações para o ato.

Na segunda parte, o livro cataloga uma série de produções cinematográficas de várias épocas e gêneros, agrupadas por tipos de comportamentos observáveis por trás do suicídio de determinado personagem, o que traduz na arte aquilo que a ciência reconhece em seu escopo metodológico.

Alguns dos filmes nos apresentam protagonistas ou antagonistas do tipo que comete suicídio por óbvio transtorno psicológico, como em Cisne Negro e O Inquilino, de Polanski. Outros, definem o suicídio cometido por protesto, escapismo, como em Sociedade dos Poetas Mortos, Thelma & Louise ou Um Dia de Fúria. Mas, o destaque desse capítulo reaviva uma discussão que inflamou a estreia da primeira temporada de 13 Reasons Why, em 2017, dada a polêmica que o mote principal da trama gerou. Na série, o espectador é confrontado com o suicídio de Hannah Baker, jovem adolescente que deixa treze fitas cassetes cujo conteúdo pode elucidar uma série de problemas pessoais da garota, bem como denunciar abusos e negligências por parte de outros personagens.

Para a autora de Apagando as Luzes do Palco, sob o prisma psicanalítico, não há muito mistério ou complexidade no comportamento de Hannah. Na realidade, o cenário geral denuncia uma jovem com problemas de relacionamento com o mundo tal qual este se configura. Alguém que escolheu não superar o óbvio cotidiano, já que não conta com muita atenção por parte de seus ocupados pais, e tem de lidar com o bullying no colégio. Por outro lado, Hannah não mostra disposição para estabelecer laços de afeto com os poucos que se importam com ela. Portando, seu suicídio, embora lamentável, denuncia um ato narcisista e punitivo, ao mesmo tempo. Quer dizer, sem que se dê conta, Hannah catalisa as incongruências de seu universo e atenta contra si mesma com vistas a respingar culpa nos que continuarão suas vidas. 

Embora a segunda temporada não tenha alcançado o mesmo êxito, ou suscitado tanta discussão, sem dúvida o tema continuará na agenda dos debates que as obras de arte são capazes de fomentar.

Para fechar o volume, Sílvia Marques apresenta uma dedicada pesquisa estatística organizada a partir de consultas a profissionais da saúde e enquetes públicas, traçando, assim, parâmetros e perfis em torno do tema. Ao fim, a obra consegue diminuir a soturna distância entre o tabu do suicídio e o senso comum.

*Donny Correia é mestre e doutor em estética e história da arte pela USP. Crítico e ensaísta, publicou, entre outros, 'Cinematographos de Guilherme de Almeida' (ed. Unesp, 2016) 

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