Super-homem do Vale do Silício

Historiadora lembra o Steve Jobs rebelde, que interrompeu a faculdade e venceu na vida, ficou doente e desafiou prognósticos

O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2011 | 03h07

LÚCIA GUIMARÃES

Na véspera da morte de Steve Jobs, na quarta-feira, a editora nova-iorquina Simon & Schuster anunciou um contrato com uma autora para publicar, ainda sem título, a história do lendário Vale do Silício. Ainda na manhã de quarta, Leslie Berlin atendeu sem pressa a chamada do Estado no seu escritório na Universidade de Stanford, um dos epicentros da explosão tecnológica do Vale a partir dos anos 50. Berlin é a historiadora dos Arquivos do Vale do Silício e autora do elogiado The Man behind the Microchip - Robert Noyce and the Invention of Silicon Valley (Oxford University Press, 2005), uma biografia do homem que inventou o microchip e se tornaria mentor de Steve Jobs.

No dia seguinte, Berlin mal conseguia completar uma frase sem ser interrompida com novos pedidos de entrevista. Como outros que conheceram Jobs no rarefeito mundo high tech do Vale, Berlin se torna evasiva sobre seu grau de familiaridade com o fundador da Apple. É evidente que sabe detalhes, mas não comenta sobre a aguardada biografia de Jobs escrita por Walter Isaacson, com lançamento mundial antecipado para o dia 24. Afinal, o Arquivo de Stanford tem o maior acervo sobre a Apple, com documentação que cobre os 35 anos da empresa. Há documentos como a carta de um publicitário, de junho de 1976, sobre a incerteza da existência de público consumidor para o computador criado pelos dois Steves - Jobs e Wozniak. Quando atendeu o primeiro telefonema, Berlin parecia saber que seu próximo livro, ao contrário do primeiro, não contaria com depoimentos de Jobs. Depois de 20 anos estudando a história do Vale do Silício, lembra que seus protagonistas, preocupados em olhar para a frente, merecem atenção por seu passado. "São personagens fascinantes," diz ao longo de nossa conversa, cujos trechos selecionados seguem abaixo.

A revolução

"Tenho notado que a cobertura jornalística sobre Jobs se concentra nos últimos 15 anos, após sua volta à Apple. Mas o período inicial me interessa mais. Ele promoveu uma inovação radical quando sugeriu que o computador fosse um objeto individual que qualquer pessoa poderia usar. Muitos não lembram que o computador era algo que intimidava, restrito a nerds, até Jobs trabalhar no projeto do Macintosh, que é cria dele. Antes, era preciso programar linguagens diferentes. Aquilo era um mundo elitizado de especialistas. Jobs idealizou o computador acessível.

Flores brancas

"Passei na porta da casa dele à noite, logo após o anúncio da morte. Havia barreira de policiais, flores brancas no chão, filas nas calçadas. Era um cenário de luto impressionante no Vale do Silício. Jobs reunia qualidades únicas. Era o rebelde que interrompeu a faculdade e venceu na vida, uma narrativa que atrai os americanos. Ficou muito doente e desafiou os prognósticos com uma sobrevida rara. A imagem de Jobs emaciado, mas lançando tantos produtos, só fez aumentar o mito de um super-homem.

Espaço curto, inovação máxima

"No Vale do Silício nasceram, em poucos anos, as indústrias do computador pessoal, do semicondutor, dos videogames e da biotecnologia. E o responsável foi um grupo pequeno. Você tinha ali a chamada tempestade perfeita, com vários elementos. Um deles era a geografia, que estimulou as pessoas a se concentrarem numa área limitada. São Francisco fica ao norte, de um lado você tem montanhas, do outro a baía, ao sul San Jose, ninguém passava de lá. Havia duas instituições acadêmicas do porte de Stanford e da Universidade da Califórnia, frequentadas por um punhado de mentes brilhantes, com disposição para correr riscos. Some uma nova geração de empreendedores e uma geração mais velha, que decidiu apostar nos jovens. Exemplo clássico? Robert Noyce, que inventou o microchip e foi o mentor de Steve Jobs. Temos 50 anos de inovação contínua no Vale.

Eletrônico, belo, adorável

"A Apple não tem precedentes porque, antes dela, não esperávamos que aparelhos fossem bonitos. Um dos maiores elogios para um engenheiro de produtos hoje é destacar a elegância do design. Foi a Apple que inventou isso. Não faz muito tempo fizeram experiências com neuroimagens mostrando que as pessoas literalmente amam seus iPhones.

Henry Ford?

"O problema de comparar Jobs com Ford é que o segundo é uma figura que se tornou histórica muito mais pela produção em massa. Todos os modelos T eram da mesma cor. Ford não estava preocupado em atender o consumidor com uma grande variedade de produtos. Já Jobs veio com uma visão muito coerente da experiência toda. E, para ele, cada detalhe era relevante.

A Apple sem ele

"Não concordo com quem prevê que a companhia vá entrar em declínio. A doença de Jobs motivou uma organização clara para enfrentar sua morte. Eles têm uma equipe brilhante de designers. Tim Cook passou anos assumindo mais responsabilidades. Não vejo como o futuro de inovação na Apple possa estar comprometido."

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