Suplicy vai à guerra

De viagem marcada para o Iraque, bravo senador planeja atacar com Blowin? in the Wind

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 21h24

- Gabinete do senador Eduardo Suplicy, bom dia.- Bom dia. Aqui é do jornal O Estado de S. Paulo, posso falar com o senador?- Você pode me adiantar o assunto?- Eu gostaria de saber se o senador ainda planeja visitar o Iraque, como foi noticiado há alguns meses.- Ai meu Deus do céu! Não faça isso... Você não gosta do senador? Ele já estava esquecendo disso, agora vem você com essa história... Ai meu Deus...Más notícias: o senador vai subir no telhado depois do réveillon. Na sexta-feira passada, ele acertou com o Itamaraty os detalhes da viagem, que acontececerá em janeiro. Sua estada no Iraque não deverá durar mais de três dias, já que o bate-e-volta é uma medida de segurança imposta à maioria dos políticos que visitam o país. Suplicy foi convidado oficialmente pelo Parlamento iraquiano.  Vai ocupar a tribuna da Casa para divulgar o seu projeto de "renda básica de cidadania", esse tema do qual se tornou uma espécie de pregador com banquinho e megafone. Ao final, "porque faz todo sentido", vai mandar também um Blowin?in the Wind, que costuma cantar depois de palestras e pronunciamentos.  Na semana retrasada, convidou para um dueto em Bagdá a cantora americana Joan Baez, sua amiga desde os anos 80 e intérprete famosa do clássico de Bob Dylan. Mas cada um tem o Xororó que merece e Baez não deve comparecer.Eduardo Matarazzo Suplicy, 66 anos, é um sujeito escolado em situações de risco. Isso não vai adiantar nada no Iraque, mas o público, quer dizer, o povo pode contar com esse alento: o senador é cobra criada, casca grossa, macaco velho.  Certa vez, para evitar que a Tropa de Choque invadisse o Carandiru de madrugada, dormiu dentro da cadeia. Usou o mesmo expediente em visita a acampamento do MST. Num protesto de aposentados em frente ao Palácio do Planalto, meteu-se entre policiais e manifestantes - acabou mordido por um pastor alemão, que arrancou um pedaço da sua calça.  De volta ao Senado, ACM presenteou-o com uma peça nova. Suplicy é um boxer aposentado. Já remou no meio da poluição do Rio Pinheiros, correu uma São Silvestre aos 45 anos, trabalhou como bóia-fria. Numa Febem superlotada, demonstrou toda a sua bravura ao proferir palestra sobre, evidentemente, a renda básica. Nesse tipo de lugar, porém, o senador tem salvo-conduto: ele é amigo do Mano Brown.  Conheceu-o em 1994, durante comícios do PT na Zona Sul de São Paulo. Hoje freqüenta os shows dos Racionais, do Capão Redondo à Itaquera. Suplicy é 100% periferia.No entanto, se você, eleitor, quiser fazer coro às tentativas do Itamaraty de demover o senador da idéia de ir ao Iraque, pode encontrá-lo amanhã, a partir das 18 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073). Suplicy estará lançando novo livro, Um Notável Aprendizado (Editora Futura), coletânea de artigos escritos nos últimos 10 anos.  É a primeira obra do senador a tratar de assuntos que vão além desse negócio da renda básica. Ele é autor de outros dois livros, daqueles para se ler com o cotovelo na mesa: Renda de Cidadania: A Saída é pela Porta e Renda Básica de Cidadania: A Resposta dada pelo Vento. Agora, adivinhe o que levou Suplicy a ser convocado pelo Parlamento do Iraque. The answer, my friend, is blowing in the wind: é claro que foi esse troço, a "renda básica da cidadania".Em maio de 2003, pouco depois do brasileiro Sérgio Vieira de Mello ser escolhido para coordenar as ações da ONU no Iraque, Eduardo Suplicy escreveu para ele um email em que relatava a experiência do Alasca na implantação de uma renda... você já sabe. "Em 1976", explicava o senador, "foi criado o Fundo Permanente do Alasca, em que 50% dos royalties decorrentes da exploração de recursos naturais passaram a ser aplicados".  Segundo Suplicy, o patrimônio deste fundo evoluiu de US$ 1 bilhão no início dos anos 80 para US$ 40 bilhões nos dias de hoje. Com isso, "cada pessoa do Alasca tem direito a um dividendo anual, não importando a nacionalidade, a condição sócio-econômica ou a idade". O senador concluiu o email dizendo que "este procedimento tinha feito do Alasca o Estado mais igualitário dos EUA", e que "o instrumento seria muito adequado para a democratização e pacificação do Iraque", um país rico em petróleo.  Sérgio Vieira de Mello gostou da idéia. No dia 1º de agosto, telefonou para Eduardo Suplicy: "Quero lhe dizer que a prosposta do senhor está sendo muito bem acolhida, e a missão do Banco Mundial que aqui está considerou-a realmente plausível". No dia 19 daquele mês, Sérgio Vieira de Mello morreu vítima de um atentado em Bagdá.A proposta do senador Suplicy tinha outros apoiadores. O então diretor da Organização Internacional do Trabalho, Guy Standing, escrevera artigo no Financial Times fazendo sugestão semelhante. Steven Schafarman, fundador do Citizen Policies Institute, publicara outro texto no Washington Post. "Dois ou três economistas", diz Suplicy, "manifestaram-se no New York Times". Em 2004, o senador esteve com Jay Hammond, o ex-governador do Alasca que tinha criado o Fundo Permanente.  Ele, que era republicano, garantiu a Suplicy ter levado a idéia a George Bush. Em novembro do ano seguinte, em Brasília, o próprio Suplicy esteve com o presidente americano, que ele só chama de "George Walker Bush", jamais deixando de fora o Caminhador: "Gostaria de sugerir que, para criar as condições de paz real baseadas na justiça, venhamos a estimular os iraquianos a seguir o exemplo do Alasca".  O senador ficou animado com a resposta que recebeu: "We?re working on that, we?re working on that, thank you". Nós estamos trabalhando nisso, obrigado. Não parece muito animador. Em fevereiro deste ano, veio ao Brasil o líder xiita e ex-primeiro ministro do Iraque Ibrahim Al-Jaafari - segundo o senador, "a Ideli Salvatti de lá". Suplicy levou para ele uma cópia resumida, em inglês, de Renda de Cidadania: A Saída é pela Porta. Fez um longo relato a respeito do Alasca, contou sobre Sérgio Vieira de Mello e George Walker Bush.  Al-Jaafari ficou muito bem impressionado. E quando voltou ao Iraque tratou de pedir a um funcionário do Parlamento que escrevesse uma carta convidando o Suplicy para fazer in loco a sua explanação.Primeiro, o senador fez planos para viajar em abril. Mas o secretário-geral do Ministério das Relações exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães Neto, tratou de convencê-lo do contrário: "Olha, se você vai para o Iraque e de repente ocorre lá um seqüestro, uma bomba, vai acabar criando um enorme problema para o governo brasileiro". No mesmo dia em que o Suplicy conversou com Samuel Pinheiro, houve um atentado suicida dentro do prédio do Parlamento iraquiano. Morreram dois deputados e um funcionário. Dez parlamentares ficaram feridos.Como Suplicy tivesse adiado a viagem, veio nova convocação, dessa vez assinada pelo presidente da Câmara, Amjad Abdul Majid - eles querem porque querem levar o senador. "Em Nome de Deus Clemente e Misericordioso", diz o texto do convite, "o Congresso Nacional Iraquiano tem a honra de convidar o Sr. Senador Eduardo Suplicy (...) para visitar o Iraque entre 10 e 20 de junho de 2007". Foi a vez do próprio ministro Celso Amorim telefonar ao senador: "Calma, Eduardo, calma...".Nas semanas que se seguiram, o ministro das Relações Exteriores da França esteve em Bagdá. O ministro inglês também. O presidente George Walker Bush. Mas quando a Angelina Jolie desembarcou no Iraque, o senador, sentindo-se "muito estimulado", decidiu colocar o pau na mesa. Sexta-feira passada, em conversa com o embaixador brasileiro no Iraque, Bernardo de Azevedo Brito, marcaram finalmente a viagem, para janeiro.  Por causa da guerra, Brito vive hoje em Amã, na Jordânia. Os dois irão juntos a Bagdá, a princípio sem a Joan Baez. E sem a Mônica Dallari, a namorada do senador, que sempre o acompanha nas viagens. "Ela tem três filhos pequenos. É muito risco, não?" Suplicy condenou desde o início a invasão americana ao Iraque. Foi no discurso contra a guerra, em 5 de setembro de 2002, que apresentou pela primeira vez sua emenda final: "Refiro-me, senhor presidente, à bela canção de Bob Dylan. Se Vossa Excelência me permitir, encerrarei cantando: ?How many roads must a man walk down, before you call him a man?...?". E por aí foi. A CONVOCAÇÃO"Em Nome de Deus Clemente e Misericordioso, o Iraque tem a honra de convidar..." AS PRECAUÇÕESO ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim: "Calma, Eduardo, calma..."100% PERIFERIAO senador tem salvo-conduto: é amigo do Mano Brown e freqüenta os Racionais

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