Sustentabilidade insustentável

Em plena devastação ambiental no Golfo do México, na era do aquecimento global que sufoca o mundo, quanto mais se agride a natureza, mais se propaga a ideia de que ela pode se ‘autossustentar’

Ricardo Antunes*,

22 de maio de 2010 | 08h47

O ideário dominante é rico em termos novos, ainda que singelos em seus conteúdos.

“Empregabilidade”, por exemplo, é usado para exprimir sua incapacidade real de efetivamente empregar; empregabilidade, então, torna-se sinônimo de transferir para os trabalhadores a responsabilização pelo seu desemprego. Nesta nova alquimia, o real culpado vira réu e este se torna o culpado.

 

“Responsabilidade social” é outra palavra que hoje se encontra em quase todas as empresas, não importa que elas vivam desempregando, seguindo a máxima da liofilização produtiva. Ou seja: como a competição é pesada, é preciso cortar custos e, então, o talhe se volta contra os trabalhadores e a “responsabilidade social” se confunde com irresponsabilidade societal.

 

Mas há também os “colaboradores”. Não há mais praticamente nem uma empresa sequer, neste admirável mundo globalizado, que não tenha convertido seus antigos trabalhadores em “novos colaboradores”. Mas é curioso: quanto mais “colaboradores” se tornam, mais vão minguando seus direitos. Pouco a pouco, veem subtrair o que lutaram muito para conquistar. Por vezes chegamos mesmo a pensar que a máxima é para designar seu exato oposto, visto que, na primeira crise das empresas, real ou fictícia, o talhe começa sempre na pele dos trabalhadores.

 

Mas talvez nenhum outro termo do ideário dominante venha encontrando tanto apego como a “sustentabilidade”. E m uma sociedade cada vez mais insustentável, ela se tornou uma palavra mágica. Em plena devastação ambiental no Golfo do México – o mais grave da história dos EUA –, na era do aquecimento global que sufoca o mundo em quase todas as partes, no apogeu da sociedade do descartável, do involucral e do supérfluo, quanto mais se agride a natureza, quanto mais se avança na sociedade do produtivismo destrutivo, mais se propaga a ideia da “sustentabilidade”.

 

O exemplo da atual candidatura de Marina Silva talvez seja esclarecedor. Desde logo é preciso acentuar que se trata de uma mulher batalhadora, que foi rompendo grilhões que aprisionam os “de baixo” e, em seu caso particular, os trabalhadores dos seringais. Mas sua atual candidatura, que acaba de apresentar como trunfo o nome de seu vice, Guilherme Leal, da Natura, é emblemática. 

 

Marina, como sabemos, muito cedo aceitou, dentro do governo Lula, a liberação dos transgênicos, sendo que em seu passado sempre fora contrária a essa medida. Filiou-se recentemente ao PV e parece estar convivendo bem entre o Peninha e o Zequinha (Sarney), além de flertar , quando preciso, com o PSDB. Agora escolhe como vice um nome ligado a uma empresa que cultua a “sustentabilidade”, empresa considerada “exemplar” na prática do “verde”.

 

Desde logo é preciso fazer um esclarecimento: a questão ambiental é certamente vital – literalmente. No passado recente dizíamos que, em futuro próximo, o planeta estaria ameaçado. Isso não faz mais nenhum sentido hoje. O presente já está agudamente comprometido e a destruição ambiental, o aquecimento global, a energia fóssil, o aquecimento originário das queimadas – do etanol que Lula tanto gosta, apesar do uso acintoso de trabalho quase escravo no corte da cana –, em suma, a lógica da produção destrutiva do capital tornou-se o principal responsável pela tragédia ambiental.

 

O cenário é arriscado: se os empregos se reduzem ainda, em decorrência do avanço da crise atual que atinge duramente o coração do sistema, isso gerará maiores índices de desemprego. Se, por outro lado, os capitais globais recuperam os níveis de crescimento, ou ainda, a título de exemplo, continuarmos produzindo carros sem parar, o mundo caminhará mais diretamente para um cenário de maior torrefação. Em português singelo: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.

 

Então, não custa indagar: será que as autodenominadas empresas “verdes” da “sustentabilidade” convivem em paz com a vigência de trabalho cinzento? Serão também “verdes” suas condições de trabalho? Suas trabalhadoras-vendedoras, que se contam aos milhares, recebem seus direitos trabalhistas? São providas de férias, descanso semanal, 13º salário, etc.? Ou foram metamorfoseadas em vendedoras-trabalhadoras “autônomas”, informalizadas e desprovidas dos direitos básicos do trabalho? Marina Silva poderá nos ajudar a responder. 

* RICARDO ANTUNES, PROFESSOR DE SOCIOLOGIA NO IFCH/UNICAMP, É AUTOR,

ENTRE OUTROS LIVROS, DE 'INFOPROLETÁRIOS: DEGRADAÇÃO REAL NO TRABALHO VIRTUAL' (BOITEMPO), EM COAUTORIA COM RUY BRAGA

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