Svetlana Stalina, filha do ditador soviético, morre de câncer aos 85 anos, nos EUA

DOUGLAS MARTINSeus três nomes sucessivos eram marcos de uma trajetória cheia de reviravoltas que a levou do Kremlin de Stalin, onde era a "princesinha", até o Ocidente, numa celebrada deserção, para então voltar à União Soviética num surpreendente retorno ao lar, e finalmente a décadas de ostracismo e pobreza.

, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h06

Ao nascer, em 28 de fevereiro de 1926, ela recebeu o nome de Svetlana Stalina, filha única e última descendente sobrevivente do brutal tirano soviético Josef Stalin. Após a morte dele, em 1953, assumiu o sobrenome da mãe, Alliluyeva. Em 1970, depois da deserção e do casamento com um americano, passou a se chamar Lana Peters, nome que manteve pelo resto da vida. Lana morreu de câncer do cólon no dia 22 em Richland County, Wisconsin. Tinha 85 anos.

A morte de Lana, como os últimos anos de sua vida, ocorreu longe dos olhares do público. O destaque inicial atribuído a Lana decorreu exclusivamente do fato de ser a filha de Stalin, uma distinção que atraiu a curiosidade pública para a vida dela, acompanhando-a por três continentes e muitas décadas. Ela disse que odiava o próprio passado e se sentia como uma escrava de circunstâncias extraordinárias. "Não podemos lamentar o destino", disse uma vez, "embora eu lamente que minha mãe não tenha se casado com um carpinteiro."

A vida de Lana foi digna de um romance russo. Começou com um afetuoso relacionamento com o pai. Milhões morreram sob a brutalidade repressiva do governo de Stalin, mas, em casa, ele chamava a filha de "pequena andorinha", tomava-a nos braços e a beijava, cobria a menina de presentes e a divertia com filmes americanos.

Na adolescência de Svetlana, seu pai foi absorvido pela guerra contra a Alemanha, tornando-se distante e às vezes agressivo. Um dos irmãos dela, Yakov, foi capturado pelos nazistas, que propuseram trocá-lo por um general alemão. Stalin se recusou e Yakov foi morto.

Nos anos 60, quando ela se apaixonou por Brijesh Singh, um comunista indiano que visitava Moscou, representantes soviéticos se recusaram a permitir um casamento entre os dois. Depois que ele adoeceu e morreu, foi com relutância que as autoridades permitiram que Svetlana levasse suas cinzas de volta à Índia, no início de 1967.

Uma vez na Índia, Svetlana Alliluyeva despistou os agentes soviéticos da KGB e apareceu na Embaixada dos Estados Unidos em Nova Délhi, solicitando asilo político. O mundo assistiu estupefato à filha de Stalin receber proteção e se tornar a exilada soviética de maior destaque desde a deserção do bailarino Rudolf Nureyev, em 1961.

A chegada dela a Nova York em abril de 1967 foi mais triunfal que discreta. Repórteres e fotógrafos esperavam por Svetlana no aeroporto e ela participou de uma coletiva de imprensa na qual denunciou o regime soviético. Sua autobiografia, Vinte Cartas a uma Amiga, foi publicada naquele ano e rendeu-lhe mais de US$ 2,5 milhões.

Instalando-se em Princeton, Nova Jersey, Svetlana queimou o passaporte soviético num espetáculo público, dizendo que jamais voltaria à URSS. Denunciou o pai como "monstro moral e espiritual".

Como o Kremlin temia, Svetlana se tornou uma arma na Guerra Fria. Pela rádio Voz da América, cidadãos soviéticos a ouviram declarar que a vida nos EUA era "livre, alegre e colorida".

Em 1970 ela se casou com William Wesley Peters. Ele fora o principal discípulo do arquiteto Frank Lloyd Wright. Em dois anos se separaram. Svetlana Peters ficou com a guarda de Olga, sua filha de 8 meses. O divórcio ocorreu em 1973. Svetlana se tornou cidadã americana em 1978, e disse posteriormente ao Trenton Times que tinha se filiado ao Partido Republicano.

Svetlana e Olga se mudaram para a Califórnia, morando em diferentes lugares antes de mudar de ares novamente, indo para a Grã-Bretanha em 1982, para que Olga pudesse ser matriculada num internato britânico. Ela também passou a fazer comentários mais favoráveis sobre o pai, de acordo com a revista Time, e talvez tivesse a impressão de tê-lo traído. "Meu pai teria me mandado para o paredão de fuzilamento pelo que fiz", disse em 1983.

Na mesma época, a imagem de Stalin era objeto de uma campanha de reabilitação parcial na União Soviética e os representantes do governo da URSS, depois de impedirem as tentativas de Svetlana de se comunicar com os filhos na Rússia, relaxaram o controle. Iosif, que na época tinha 38 anos e trabalhava como médico, passou a telefonar com regularidade. Disse que tentaria viajar à Grã-Bretanha para vê-la. Mas, abruptamente, Iosif teve negada permissão para viajar. Assim, em novembro de 1984, Svetlana e Olga, então com 13 anos - e muito irritada por não ter sido consultada a respeito da mudança - foram a Moscou e pediram para serem recebidas de volta. Lana Peters passou a denunciar o Ocidente. Foi citada dizendo ter sido marionete da CIA.

Lana e Olga receberam cidadania soviética, mas, em pouco tempo, a vida delas piorou. O filho e a filha que moravam na Rússia começaram a rechaçar Olga e a mãe. Desafiando o ateísmo oficial do Estado, Olga insistia em usar um crucifixo. Elas se mudaram para Tbilisi, na Geórgia, mas a situação não era melhor do que em Moscou.

Em abril de 1986 as duas voltaram para os EUA, sem oposição dos soviéticos. Instalando-se primeiro em Wisconsin, Lana desmentiu os comentários antiocidentais que fizera ao chegar a Moscou, dizendo que tinha sido mal traduzida, principalmente com relação à afirmação de que teria sido uma marionete da CIA. Olga voltou para a escola na Grã-Bretanha.

Numa entrevista concedida por Lana ao Wisconsin State Journal, em 2010, perguntaram-lhe se achava que o pai a tinha amado. Ela disse pensar que ele a amava, pois tinha o cabelo ruivo e a pele sardenta, como a mãe dele. Mas não perdoava a crueldade do pai. "Ele destruiu minha vida", disse. O pai deixou também uma herança da qual não conseguiu se livrar. "Aonde quer que eu vá, seja aqui, na Suíça, Índia ou Austrália, alguma ilha ou coisa do tipo, sempre serei uma prisioneira política do nome de meu pai." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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