Bill Kaye/David Appleby
Bill Kaye/David Appleby

Sylvia Plath volta em ficção sobre sua biografia

Poeta norte-americana ganhou admiração das novas gerações e virou personagem para outros escritores

Paul Alexander, Washington Post

25 de março de 2022 | 10h00

Desde seu suicídio em 1963, Sylvia Plath, poeta confessional e autora do clássico romance de amadurecimento A redoma de vidro, tem sido objeto de fascínio e tema de um fluxo constante de biografias, com a mais recente, Red Comet, de Heather Clark, indicada ao Prêmio Pulitzer. Plath foi abordada em Hollywood (no fraco filme biográfico de 2003, Sylvia) e inspirou várias peças de teatro e músicas de inúmeros artistas, como Ryan Adams e Lana Del Rey.

No reino da ficção, Kate Moses baseou seu esplêndido romance Wintering no final da vida de Plath, depois que seu casamento com o poeta Ted Hughes se desfez por causa da infidelidade dele. É nesta rica obra que o jornalista Lee Kravetz entra com seu acessível e divertido The Last Confessions of Sylvia P. Parte verdade, parte ficção, o romance é um acréscimo engenhoso a um corpo cada vez maior de trabalhos sobre Plath que ajudou a transformá-la em um ícone literário americano.

Dividido em nove seções, ou “estrofes”, o romance consiste em três histórias com três mulheres ligadas a Plath. A primeira narrativa se centra em Estee, uma curadora de 65 anos que trabalha em uma casa de leilões em Boston e que, em 2019, é encarregada de autenticar e leiloar cadernos recém-descobertos que contém um rascunho manuscrito de A redoma de vidro. O segundo enredo é sobre uma longa carta escrita por Boston Rhodes, pseudônimo da poeta Agatha White, para seu professor Robert Lowell, durante a qual ela revela seu intenso ciúme de Plath, que assistiu a um ciclo de palestras sobre poesia de Lowell em 1958. Rhodes é claramente baseada em Anne Sexton, cuja amizade na vida real com Plath foi narrada ao longo dos anos por Sexton e outros. A terceira história se concentra em Ruth Barnhouse, a psiquiatra que tratou Plath no McLean Hospital, em Massachusetts, em 1953, após sua tentativa de suicídio aos 20 anos, episódio que está no centro de A redoma de vidro.

Habilmente tecidas, as três histórias contam uma história só. Após seu colapso nervoso em 1953, Plath entra em McLean, onde Barnhouse, a única psiquiatra mulher da equipe, cuida de sua saúde. Enquanto está lá, Plath conhece Lowell, um “poeta maluco” que é paciente regular do hospital. Cinco anos depois, Plath, agora casada com Hughes, faz um curso com Lowell, onde conhece Rhodes, que acredita que “Sylvia era um sucesso de todas as maneiras que eu não era”. Mesmo assim, as duas se tornam amigas e, muitas vezes acompanhadas pelos colegas Maxine Kumin e George Starbuck, dão escapadas regadas a martini no bar do Ritz-Carlton em Boston depois da aula. Mas o ciúme consome Rhodes, que, por despeito, fotografa secretamente Hughes com outra mulher em uma biblioteca e, anos depois, envia a foto anonimamente para Plath. Ver a imagem incriminadora, conclui Rhodes, foi a gota d’água para Plath, que reagiu se matando.

É agora que os cadernos de A redoma de vidro – o fio que conecta as três histórias – entram em cena quando são roubados do apartamento de Plath em Londres após sua morte e passam pelas mãos da maioria das personagens principais do romance – Rhodes, Barnhouse, Lowell – antes de chegar à mesa de Estee, que acaba por ser filha de Rhodes, criança que certa vez encontrou sua mãe à beira da morte depois que ela tentou se asfixiar em um carro na garagem. Para autenticar os cadernos, Estee chama Nicolas Jacob, um estudioso de Plath com uma reverência inabalável por seu tema de pesquisa. A resolução da trama gira em torno do que acontece com os cadernos quando são vendidos em leilão por uma quantia impressionante, muito maior do que se esperava.

Last Confessions não está livre de falhas, até mesmo erros factuais e deturpações. Embora os autores de romances históricos tenham alguma licença artística, colocar o grande arquivo Plath na Indiana State University, conforme detalhado no enredo de Estee, em vez da Indiana University, onde se encontra de fato, parece mais um descuido do que uma escolha orientada pelo enredo. Em seu casamento, Plath e Hughes nunca alcançaram o nível de fama ou riqueza que lhes daria a oportunidade de passar o tempo “bebendo com Truman Capote” ou “se refestelando num café ao ar livre em Copenhague com Marlon Brando e Audrey Hepburn”. O velório de Plath não teve duzentas pessoas; foi uma cerimônia modesta na igreja da família de Hughes. E ao longo do romance, Barnhouse se refere a sua paciente como “Senhorita Plath”, mas, durante os anos em que me encontrei com Barnhouse, a quem entrevistei sobre Plath, ela sempre a chamava de “Sylvia”, sugerindo uma familiaridade pessoal que excedia em muito a relação médica-paciente.

Mas, no final, Last Confessions captura verdades maiores, como o lugar que Plath passou a ocupar no cânone literário. “É a coisa mais louca”, diz um livreiro a Rhodes a certa altura, “mas desde a morte dela, bom, acho que Plath virou um ícone”. Como tal, Plath está além da propriedade – e este é o argumento final do romance. “Tem coisas que você simplesmente não consegue possuir”, Estee diz a Jacob resumindo suas emoções sobre os cadernos de A redoma de vidro. “Eles pertencem ao mundo”.

Em The Last Confessions of Sylvia P., Kravetz usa narrativas contadas por outras mulheres para criar a última encarnação de Plath, que, assim como Virginia Woolf, se tornou, além de autora de sua poesia e prosa, personagem.

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Paul Alexander é o editor de Ariel Ascending: Writings About Sylvia Plath e autor de Rough Magic, uma biografia de Plath, e Edge, uma peça sobre ela, que será reencenada no outono. Ele leciona no Hunter College, em Nova York.

SERVIÇO 

The Last Confessions of Sylvia P.

Lee Kravetz

Harper - 272 páginas - US $25.99

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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