Museum of the Bible
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Tábua rara de 'Gilgamesh' está a um passo de ser devolvida ao Iraque

Peça cuneiforme estava antigamente exposta no Museu da Bíblia

Peggy McGlone, The Washington Post

06 de agosto de 2021 | 10h00

As autoridades federais se apropriaram de uma rara tábua cuneiforme que a empresa de artesanato Hobby Lobby adquiriu em 2014 para o Museu da Bíblia, uma transação legal que encerra o último capítulo da atual saga da problemática coleção do museu.

A Hobby Lobby comprou o raro artefato, conhecido como Tábua do Sonho de Gilgamesh, por cerca de US$ 1,7 milhão para expor no museu em Washington DC, construído pelo diretor executivo da empresa, Steve Green. O artefato de argila de 15,24 centímetros por 12,7 faz pare de um poema épico que é considerado um dos textos religiosos e literários mais antigos do mundo. Originalmente procedente do atual Iraque, o próximo passo será a sua repatriação para aquele país, afirmam especialistas.

“Esta história mítica das origens do mundo, este texto incrivelmente famoso se equipara à Odisseia ou à Ilíada ”, disse Candida Moss, estudiosa do Novo Testamento, coautora com Joel Baden de Bible Nation: The United States of Hobby Lobby. “É importante porque nós cristãos relacionamos este texto à nossa Bíblia”.

A Tábua dos Sonhos de Gilgamesh entrou no país ilegalmente antes que uma casa internacional de leilões  arranjasse sua venda privada para a Hobby Lobby, segundo a queixa federal. As autoridades tiraram a tábua do museu em 2019 e, esta semana, o Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Leste de Nova York ordenou o seu confisco.

A ordem do tribunal é o mais recente exemplo do empenho do governo em acabar com o contrabando de objetos culturais internacionais, segundo o procurador geral adjunto do secretário da Justiça Kenneth Polite, da Divisão Criminal do Departamento de Justiça. “O fato de frustrar o comércio de bens contrabandeados apreendendo e confiscando um artefato antigo mostra o empenho do departamento em usar todos os instrumentos disponíveis, inclusive o confisco a fim de garantir a justiça”, afirmou Polite em um documento.

A Hobby Lobby, a empresa de artesanato sediada em Oklahoma City, dirigida pela família evangélica Green, é a principal benfeitora do museu da Bíblia, um edifício de cerca de 40 mil metros quadrados que foi inaugurado em 2017, a poucas quadras do Capitólio, com a missão de “convidar todas as pessoas a se empenharem no poder transformador da Bíblia”. Em um documento, o museu afirmou que está trabalhando com a autoridades federais e que a Hobby Lobby está processando a Christie’s pelo dinheiro gasto com a tábua.

“O museu foi informado em 2019 da importação ilegal deste item pela casa de leilões e seus proprietários anteriores. Desde então, nós apoiamos os esforços do Departamento de Segurança Nacional para devolver este fragmento do Gilgamesh ao Iraque”, afirmou o documento.

Especialistas há muito questionam os esforços da Hobby Lobby pela aquisição e pela questão da autenticidade de alguns dos itens de sua coleção. Anteriormente, por exemplo, o ceticismo em relação aos Pergaminhos do Mar Morto revelou-se válido na época, quando em 2018, as autoridades admitiram que cinco dos 16 fragmentos eram falsos. No ano seguinte, um relatório interno desacreditou os 11 restantes.

Em 2017, a Hobby Lobby chegou a um acordo com o Distrito Leste de Nova York referente a mais de 3.500 artefato iraquianos que, segundo as autoridades federais, teriam sido importados de maneira ilegal. Como parte do acordo, a companhia concordou em desistir dos objetos, pagou uma multa de US$ 3 milhões e concordou com a supervisão federal. Os artefatos foram devolvidos ao Iraque em 2018.

No ano passado, Green emitiu uma declaração pública admitindo erros anteriores na formação da coleção privada de cerca de 40 mil objetos. E anunciou que uma revisão interna identificou cerca de 11.500 itens do Egito e do Iraque que tinham uma declaração de “origem insuficiente”. O número original cresceu vários milhares, segundo comentários posteriores dos diretores do museu. Na quarta-feira, o museu anunciou a conclusão da devolução dos objetos, totalizando 8.143, ao Iraque.

“Somos gratos pelos esforços do Embaixador do Iraque Fareed Yasseen, e do Departamento de Estado americano por sua ajuda para a restituição dos objetos ao povo iraquiano”, disse o museu em uma declaração referente à transferência. “O Museu da Bíblia espera futuras oportunidades para colaborar com o Iraque no estudo e preservação do seu rico patrimônio cultural”.

Não está claro se as medidas do governo bastarão para combater o comércio ilícito de objetos culturais. “Alguns de nós questionaram se esta será uma medida eficiente para dissuadi-lo”, disse Patty Gerstenblith, diretora do Centro para a Arte, Museu e Legislação sobre o Patrimônio Cultural da Universidade DePaul. “Procedimentos criminais seriam mais eficientes, mas é muito difícil provar um caso criminal”.

“O que me preocupa é a cronologia (das aquisições da Hobby Lobby) e penso que se eu fosse apanhado  fazendo algo não continuaria cometendo tal ato”, ela acrescentou.

A Hobby Lobby e o Museu da Bíblia não são as únicas entidades obrigadas a repatriar objetos, observou GerstenBith. “Eu me pergunto o que fará a diferença”, ela observou a respeito das recentes normas [referentes à importação de antiguidades]. As pessoas se iludem muito atualmente, conscientemente ou não. Elas enganam a si mesmas”.

Jeffrey Kloha, chefe da curadoria do museu, afirmou que o museu compreende as críticas, mas deseja que “fatos e circunstâncias sejam esclarecidos”.

“Todos estes artefatos foram adquiridos entre 2009 e 2014, e quase todos antes de 2011. O Museu deu passos extraordinários desde então para solucionar a questão relativa aos itens. Nós entramos em contato com Iraque e Egito em 2017 e início de 2018 para informá-los da nossa intenção de pesquisar e devolver estes objetos. Tudo isto foi tratado de maneia amigável e diretamente com os países de origem, juntamente com o conhecimento do governo dos Estados Unidos”, afirmou Kloha. “Infelizmente grande parte dos relatos sobre este tema não esclarece que esta é a conclusão de um longo processo e não uma nova história”.

Os especialistas esperam que a Tábua dos Sonhos de Gilgamesh também seja repatriada para o Iraque, embora não se saiba como e quando. Alguns dos artefatos iraquianos apreendidos pelo governo e repatriados em 2018 encontram-se atualmente no Museu de Bagdá, no Iraque, onde estudiosos tiveram acesso a eles, disse Eckart Frahm, professor de línguas e civilizações do Oriente Próximo na Universidade de Yale. Estes artefatos pertencem ao conjunto de cerca de meio milhão de tábuas cuneiformes hoje espalhadas pelas coleções dos museus ao redor do mundo e são de interesse de estudiosos e pesquisadores. O fragmento de Gilgamesh é o mais significativo, afirmou.

“Ele fala conosco, descreve a condição do homem, o sofrimento da humanidade, a fragilidade do herói”, disse Frahm. “Se eu fosse o diretor de um museu, o exibiria”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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