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Talhado para o balcão John Kerry pode não fazer milagres no Departamento de Estado, mas por sua trajetória dá para prever que ele ao menos tentará

J. DANA STUSTER

O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h06

Se John Kerry parece uma opção natural para o cargo de secretário de Estado é porque ele realmente é. Kerry está há muito tempo na carreira diplomática. Veterano da Comissão de Relações Exteriores do Senado, ele a preside desde 2009 (quando ficou com a cadeira deixada por Joe Biden). Na época, viajava de um país para outro e pulava de problema em problema nas missões da delegação do Congresso; reuniu-se com representantes de alto nível do mundo todo e foi encarregado de levar mensagens de grande importância para sucessivos governos. Mas é difícil inteirar-se do estilo diplomático de Kerry quando tantas reuniões costumam ocorrer a portas fechadas.

Dezenas de telegramas do Departamento de Estado divulgados pelo WikiLeaks, abrangendo o período de 2005 a 2010, referem-se a visitas de Kerry de Pretória a Islamabad, de Pequim a Damasco. Como acontece com a maior pare desses documentos, os resumos dos encontros concentram-se no que a outra pessoa está falando e não Kerry - "Em resposta ao comentário do senador...", "Quando Kerry perguntou sobre isso, Fulano respondeu...", e assim por diante. Entretanto, ao se ler os telegramas, uma ideia da imagem de John Kerry como diplomata de ponta começa a tomar forma.

A escolha das questões de que Kerry tratou ao longo dos anos é bastante informativa. Ele gosta dos grandes desafios, como mostram seus esforços para esclarecer o mistério dos prisioneiros de guerra americanos no Vietnã e, mais recentemente, sua atuação na diplomacia de vai e vem no Oriente Médio. E não se furta a tratar com personalidades desagradáveis. O primeiro-ministro do Camboja, Hun Sen, por exemplo, ainda elogia Kerry uma década depois de o senador contribuir para negociar um acordo que permitiu que o Khmer Vermelho fosse processado em seu próprio país. Em um telegrama, Hun Sen lembra que "o senador Kerry sempre procurou fazer com que o tribunal fosse um sucesso".

A tendência de Kerry para o envolvimento é particularmente evidente em suas viagens pelo mundo árabe nas quais saltava de um lugar ao outro da região - reunindo-se em 2006 com os líderes da então coalizão que estava no governo em Beirute ou ajudando na iniciativa para investigar o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, depois conversando com a oposição libanesa e seu patrocinador, Bashar Assad, da Síria, em Damasco.

As mudanças climáticas, outro enorme problema, são um dos grandes interesses de Kerry. Numa viagem a Bali para a convenção sobre alterações no clima, em 2007, ele se reuniu com pelo menos dez delegações nacionais, incluindo parceiros como a França e países mais reticentes, como a China, bem como representantes de 25 ONGs. Kerry deu atenção especial à China, particularmente arredia em questões climáticas. Antes das conversações de Copenhague, em 2009, fez uma visita extraordinária a Pequim para transmitir a mensagem da Casa Branca de que "o mundo precisa 'modificar sua base energética' para percorrer um caminho que conduza a um crescimento econômico mais sustentável", e tentar conseguir das autoridades chinesas a aceitação de parâmetros diferentes para medir suas emissões causadoras do efeito estufa. As avaliações iniciais das conversações foram positivas - um telegrama sobre a conversa de Kerry com o vice-primeiro-ministro chinês dizia, em tom bastante otimista, que "a troca de ideias com o senador Kerry, em geral franca, e a sincera expressão de seu interesse em projetos concretos deve ser considerada um sinal de que em seu alto escalão de governo a China compreendeu que a administração americana identificou a mudança climática como prioridade bilateral fundamental". Sete meses mais tarde, porém, as conversações de Copenhague estagnaram em torno de muitas das mesmas questões que Kerry discutira em Pequim.

No entanto, os telegramas do WikiLeaks não descrevem Kerry como um político ingênuo. Mesmo enquanto conversava com as autoridades chinesas sobre mudanças climáticas, Kerry encorajava outros países a seguir em frente sem a China, e aliás, sem os EUA - que, temia, estariam de mãos atadas por causa das eleições, quando as primeiras discussões começaram, em 2008.

Sugeriu que, se as conversações seguissem em frente, os EUA recuperariam o atraso e aprovariam mais tarde a legislação necessária. O que se revelou otimista demais.

As atuações mais controvertidas de Kerry, de acordo com o conteúdo dos telegramas, dizem respeito ao tema sensível das negociações de paz palestino-israelenses. Em 2009, ele disse ao presidente libanês que os EUA consideravam as negociações urgentes e, em uma reunião com o primeiro-ministro, citou a recente nomeação de George Mitchell para o cargo de enviado especial como um sinal do compromisso dos EUA com a solução do conflito. Fez promessas irrealizáveis aos líderes árabes, afirmando ao vice-presidente da Síria que os americanos se oporiam à construção de novos assentamentos israelenses. Numa conversação com o emir do Catar, chegou a apresentar o arcabouço de um possível acordo que incluía uma capital palestina em Jerusalém Oriental, motivo pelo qual foi criticado quando os telegramas vieram a público.

Alguns sucessos inesperados de Kerry ocorreram no Sul da Ásia. Em reuniões com o primeiro-ministro indiano Manmohan Singh e seu assessor de segurança nacional, M. K. Narayanan, Kerry contribuiu para o diálogo americano-indiano sobre tecnologia nuclear para fins civis que culminou com o Acordo 123. Nas discussões, Kerry mostrou-se cauteloso ao esboçar um acordo que teria o apoio não apenas do governo indiano e do Senado americano, mas de outros signatários internacionais e do público indiano. Depois do ataque ocorrido em Mumbai em 2008, Kerry trabalhou como intermediário para reduzir as tensões entre Índia e Paquistão. Em 2009, contribuiu para convencer o presidente afegão, Hamid Karzai, a aceitar um segundo turno das eleições porque o primeiro não fora decisivo, e quando Karzai novamente foi o mais votado, Kerry falou com o rival do líder afegão a fim de convencê-lo a reconhecer de boa vontade a vitória do adversário.

Kerry teve menos sorte no Paquistão. Esforçou-se para criar um governo civil paquistanês com Asif Ali Zardari mediante iniciativas como a legislação Kerry-Lugar referente a ajuda. Mas não conseguiu grandes progressos contra os poderosos militares do país, e seus esforços esbarraram num enorme obstáculo com a descoberta de que Osama Bin Laden estava vivendo em segurança em Abbottabad.

Suas iniciativas pela mudança climática fracassaram tanto interna quanto externamente. O tribunal especial que procurou estabelecer no Líbano tornou-se uma ideia muito controvertida em termos políticos e acabou levando ao colapso do governo Hariri; cerca de oito anos mais tarde, ninguém ainda foi considerado responsável pelo assassinato do primeiro-ministro. Na busca de um acordo de paz no Oriente Médio, Kerry aceitou a orientação dos vários líderes árabes de que, para a solução do conflito árabe-israelense, Israel e Síria teriam primeiro de acertar suas divergências, e em várias ocasiões reuniu-se com Assad em Damasco, iniciativa aliás bastante controvertida.

Nessas reuniões, Kerry mostrou-se flexível, mas ao mesmo tempo, firme. Em dezembro de 2006, garantiu a Assad que ele seria reconhecido por suas eventuais medidas visando ao processo de paz e com a finalidade de interromper o fluxo de militantes no Iraque. Ao mesmo tempo, tentou aplacar os temores do ditador sírio quanto à possibilidade de as medidas que já havia tomado não estarem sendo apreciadas pelo governo Bush. Kerry deixou a reunião com uma advertência: "Quem acha que o Irã está em alta", disse a Assad, "está cometendo um erro". Ele também, segundo um telegrama, "aconselhou (Assad) a não se deixar enganar por sentimentos passageiros de autoconfiança de seu regime em razão dos recentes acontecimentos na região, porque o rumo que o regime está tomando trará consequências muito negativas para a Síria".

Isso não impediu Kerry de dizer ao emir do Catar, em fevereiro de 2010, que "saíra de sua visita a Damasco convicto de que (a Síria) quer uma mudança", revela um dos telegramas. Entretanto isso aparentemente foi mais uma indicação aos catarianos - na época, entre os amigos árabes mais fiéis da Síria - de que deveriam pressionar Assad. Em conversações mais francas, ele admitiu: "Os EUA 'não esperam grandes mudanças' da Síria, mas de qualquer maneira vale a pena começar as conversações".

Confirmado no cargo, começar conversações será a função principal do secretário John Kerry. Ele já conduziu bons e maus diálogos. Nem todos seus esforços deram resultado, e provavelmente não fará milagres no Departamento de Estado. Mas, considerando-se a sua trajetória, podemos contar que pelo menos ele tentará. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

J. DANA STUSTER É ESCRITOR, ESPECIALISTA

EM GEOPOLÍTICA E PESQUISADOR DO CENTRO PARA UMA NOVA SEGURANÇA AMERICANA.

VIVE EM WASHINGTON. ESCREVEU ESTE

TEXTO PARA FOREIGN POLICY

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