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Tchekhov, uma experiência existencial que rendeu boa literatura

Uma delas foi sua passagem por um ilha-prisão, retratada no livro 'A Ilha de Sacalina', que a editora Todavia acaba de lançar

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2018 | 16h00

Tchekhov é encantador. Ele só precisa aparecer e seduz. Ele não discrimina: as velhinhas o mimam, as garotas sentem o coração palpitar, os homens são seus amigos, seus irmãos o admiram. Leo Tolstoi, que é um velho rabugento, banha-se nu com ele nos rios.

Elegante e belo, calmo, atencioso, com seu chapéu redondo, Tchekhov nasceu para agradar. Sua humildade, seu talento, seu humor, são fascinantes. Ele tem todos os ingredientes de um Don Juan, mas nada é mais contrário ao seu gênio. O que ele quer é um pouco de calma e a liberdade que a arte literária exige.

Médico, nada cobra de quem nada tem. Por volta dos 30 anos, ele suspende todas as suas atividades literárias e, em 21 de abril de 1890, põe-se a caminho da infernal ilha de Sacalina, no fim da Sibéria, no fim do frio, no fim do nada, porque nessas distâncias vivem para morrer milhares de prisioneiros – ladrões de cavalos, pequenos escroques ou assassinos, de qualquer maneira. A viagem o exaure. Tuberculoso, ele tosse sangue. Em Sacalina, ele fica apavorado. Nas noites de nevasca, ouve o tilintar das correntes dos prisioneiros algemados, jogados de bruços nas galerias de carvão. Ele cuida deles como pode.

Ainda pequeno, na casa de sua família em Taganrog, seus cinco irmãos, sua mãe e sua irmã Marie precisavam dele. O pai era um desastre. Não que fosse ruim. Pior: era intolerante à obscenidade sem poupar seus filhos. Ele os educou entre o rancor e o remorso. Merceeiro especializado em produtos exóticos, vaidoso e pouco inteligente, ele impõe aos filhos horários inviáveis. Eles se levantam cedo demais. Precisam cuidar da mercearia enquanto o pai se pavoneia na igreja e, pior ainda, as crianças não assistem às aulas. A troco de nada, recebem chicotadas e depois são obrigadas a beijar a mão paterna.

À noite, as crianças ainda precisam ir à igreja onde o pai luta com incensários e cantos religiosos. As crianças têm vergonha de ver o pai, solene e grotesco, em seus coletes de seda e em suas camisas imaculadas. No resto do tempo elas têm de engolir o discurso do Apocalipse. Um dia Anton dirá esta frase assustadora: “Na minha infância, eu não tive uma infância”.

Anton tinha 16 anos em 1876. O pai faliu e fugiu para Moscou. Toda a tribo Tchekhov se muda à exceção de Anton, que permanece em Taganrog. Fica sozinho à beira de morte nessa cidade, cujo porto vai sendo engolido pela areia. Cães vadios, cães doentes, mortos a pauladas. “Uma cidade surda”, disse Tchekhov.

É extraordinário que Anton tenha passado por essa infância sem amargura. Ele não quer nem mesmo isso do pai desajustado. Rancor não é seu forte. Ele deixa Taganrog e vai para Moscou. A família está instalada em um porão úmido na rua Grachefka, perto de bordéis. Anton encontra um pai inútil e violento, a doce mãe, os irmãos, a amada irmãzinha, Marie. À noite, todos dormem juntos, em um colchão enorme.

Nessa favela, Anton heroicamente prossegue em seus estudos de medicina. Publica algumas histórias curtas e engraçadas. Tchekhov é geralmente visto como uma pessoa triste. Isso é falso. Tchekhov é alegre, insolente e um pouco louco. Seu entusiasmo, seu gosto pela farsa permitiu-lhe passar por uma infância tão deprimente quanto uma história de Dickens. Foi muito mais tarde, por volta dos 30 anos, depois de conhecer alguns grandes sucessos literários, que aquela tristeza invadiria seu trabalho, sem, no entanto, prejudicar seu gênio cômico. Lamenta ter sido apresentado como alguém sem esperanças: “Escrevi vários volumes de contos divertidos, mas os críticos me transformaram em um chorão”.

Em festas de família ou de estudantes, seu estado de espírito impressiona. Do escárnio, ele tem todo o domínio. Esse homem é, na vida real, um menino travesso, um saltimbanco. Sua companhia é buscada por seus amigos, seus irmãos, por mulheres. Ele zomba de si mesmo: “Eu estava tão bêbado que achei que as meninas eram garrafas e as garrafas, meninas.” Ele enfatiza as belezas do mundo: “A natureza ao nosso redor é admirável. Eu tenho vontade de devorá-la”.

Em 1881, o czar Alexandre II é dilacerado por uma bomba terrorista. Alexandre III, que o sucede, controla a Rússia com punhos de ferro. Os estudantes se agitam. Tchekhov diz não ter “nada a ver com esses falastrões, ociosos e cabeças quentes”. Ele jamais se envolverá na luta política. Abomina toda a violência, mas não pensa, ao contrário de Gorki, que os escritores têm o dever de se alistar a favor da revolução.

A uma admiradora ele escreve: “Você me pergunta o que é a vida? Como se você estivesse me perguntando: ‘O que é uma cenoura?’. Uma cenoura é uma cenoura e nada mais”.

Essa recusa em filosofar é o fermento e a glória de sua arte. Leia uma de suas peças, um de seus contos. Nenhuma lição. Nenhuma “moralidade”, nem receitas de felicidade, nem exigências de reformas sociais. O texto de Tchekhov está nu. Sem frescura, sem moralidade ou comentário. Tchekhov se contenta em ser um “contador de histórias de talento”. Não é um filósofo. “O autor deve atirar-se ao mar.” O leitor é o mestre. E Tchekhov, para onde ele foi? Ele saiu na ponta dos pés.

Aos 24 anos, em 1884, era médico. Seus clientes pagam a ele de vez em quando. Ele tosse sangue. Escreve contos. Aos 40 anos, na véspera de sua morte, faz planos para Argel e desiste. Ele parece uma “gaivota” que bate freneticamente suas asas e nunca voa para longe. Vai, então, a Moscou para assistir aos ensaios de A Gaivota. Ele se apaixona pela atriz Olga Knipper. Um novo “amor eterno de duas semanas?” Desta vez, ele dura. Casal estranho. Entre Moscou e Ialta, eles vão e voltam, escrevem um para o outro. Eles se desejam, choram e riem. Olga triunfa. Tchekhov continua a morrer. Ele retorna a Moscou. É um homem velho. No dia 3 de junho, à meia-noite, Anton pede a Olga um médico. Quando este chega às 2 da manhã, Tchekhov diz “Ich Sterbe” (“Estou morrendo”) . /Tradução de Claudia Bozzo

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