Te vejo em Taiwan

Pressões da ascensão da China fazem os destinos de Hong Kong e da ilha se cruzarem

Lin Fei-fan / TAIPÉ, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 16h00

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Em 22 de setembro, a Federação Estudantil de Hong Kong iniciou um boicote generalizado às aulas universitárias em Hong Kong; a organização estudantil dos alunos do ensino médio boicotou as aulas a partir de 26 de setembro; e os líderes do movimento Occupy Central começaram suas atividades na madrugada do dia 27. A polícia de Hong Kong deu início a dois dias de forte repressão e tentativas de dispersar os manifestantes. Seus excessos no dia 28 de setembro - incluindo o uso da tropa de choque, spray de pimenta, gás lacrimogêneo e balas de borracha - serviram apenas para atrair mais a atenção internacional.

Muitos taiwaneses acompanhando o que ocorre em Hong Kong repetiram o slogan “hoje em Hong Kong, amanhã em Taiwan”. Mas, nos dias mais recentes, vários amigos em Hong Kong me disseram que “hoje em Hong Kong, hoje em Taiwan” seria um slogan mais apropriado. Porque o relacionamento entre Taiwan e Hong Kong é de grande proximidade e nossas respectivas lutas estão ligadas uma à outra. Embora haja diferenças no desenvolvimento histórico de suas relações com a China continental, bem como em seus contextos sociais, Hong Kong e Taiwan enfrentam enormes pressões decorrentes da ascensão da China e, com isso, seus respectivos destinos se cruzam.

Em 1996, Taiwan realizou sua primeira eleição presidencial, estabelecendo um novo marco democrático. No ano seguinte, o destino de Hong Kong tomou um rumo totalmente diferente quando sua soberania foi transferida da Grã-Bretanha para a China. Com desenvolvimentos tão significativamente diversos, por que Taiwan e Hong Kong têm um relacionamento de proximidade tão grande em 2014? Não importa se é o discurso usado em seus respectivos movimentos, ou as medidas adotadas por esses movimentos. Durante o Movimento dos Girassóis, em março, os ativistas de Taiwan gritaram “o país é nosso, somos nós que vamos salvá-lo; o futuro é nosso, nós o decidiremos”. Os ativistas de Hong Kong entoaram “protegemos nossa cidade; decidiremos nosso destino”.

Acredito que o principal motivo para essa semelhança seja o fato de “fatores China” terem fomentado crises semelhantes em Taiwan e Hong Kong. A China usa seu imenso capital e força humana, bem como seu poderio militar, para lançar mão de interferência política e expansão em outros países e regiões, erodindo direta ou indiretamente os alicerces da democracia e da liberdade.

A esfera de influência desses “fatores China” não se limita aos países vizinhos; podemos observar o crescimento gradual da influência chinesa até na Europa e nos Estados Unidos. Mas é certo que os países do Leste Asiático e as regiões mais próximas da China são os que primeiro - e mais diretamente - sentem a pressão da ascensão chinesa. E as primeiras a receber essa pressão são Hong Kong e Taiwan, que enfrentam um conjunto de medidas integradas essencialmente unificado. A principal meta da política de “um país, dois sistemas” usada pela China para governar Hong Kong é definir um modelo para o caso de Taiwan, mas os acontecimentos dos anos mais recentes mostram claramente que a China aplicou restrições cada vez mais rigorosas ao autogoverno de Hong Kong.

Não se trata apenas de renegar a promessa segundo a qual o sistema de Hong Kong seria “preservado por 50 anos”, feita pela China. Um problema mais sério é a proliferação de conflitos dentro da sociedade local. A disparidade de renda que existe ali não pode ser solucionada por meio das estruturas existentes, e o grande fluxo de turistas vindos do continente, bem como de chineses que deixam o continente para se tornarem moradores de Hong Kong, criou novos problemas sociais. Taiwan enfrenta preocupações semelhantes. Vimos que Taiwan e o governo chinês assinaram alguns acordos comerciais expondo Taiwan à fuga das indústrias, à queda nos salários, ao aumento na disparidade entre ricos e pobres, riscos à segurança nacional e outras crises.

Mas esses não são os únicos fatores que uniram os destinos de Hong Kong e Taiwan. Além da pressão exercida pelos “fatores China” em ambas as regiões, as respectivas políticas chinesas para Hong Kong e Taiwan são interconectadas. Acredito que o livro branco publicador pela China em junho tratando da questão de “um país, dois sistemas”, deixando claro que “um país” era mais importante que “dois sistemas”, não era apenas uma promessa ao povo de Hong Kong, mas também um chamado endereçado a Taiwan. E o discurso feito pelo presidente Xi Jinping no dia 28 falando na unificação entre China e Taiwan enfatizou novamente que “um país, dois sistemas” continuaria sendo o princípio a orientar as relações da China com Taiwan. Não foi apenas um apelo a Taiwan, mas também um chamado de despertar para o Occupy Central.

Uma questão crucial é: como vamos enfrentar a pressão contínua da inexorável ascensão da China? Acredito que, como as tentativas dos países ocidentais de abafar a crescente influência política chinesa em meio aos vizinhos do Leste Asiático se mostraram fracas, e como os mecanismos democráticos de Taiwan e Hong Kong estão em dificuldade, as sociedades civis de Taiwan e Hong Kong se tornaram linhas de defesa cruciais. Devemos trabalhar duro para aprofundar a integração entre as sociedades civis de Hong Kong e Taiwan, e até de outros países do Leste Asiático, usando a democracia de base, a sociedade comunitária e a organização política para construir uma linha de defesa capaz de dissuadir a China, em resposta a uma ameaça chinesa ainda mais sombria no futuro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

LIN FEI-FAN FOI O LÍDER DOS ESTUDANTES QUE OCUPARAM A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA TAIWANESA EM MARÇO PARA PROTESTAR CONTRA A APROVAÇÃO DE UM ACORDO COMERCIAL COM A CHINA. ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA FOREIGN POLICY

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